A carreira a solo do John Frusciante é algo muito vulnerável de tratar. O que pode ser facilmente chamado de material de culto, também pode ser ignorado sob o pretexto de ser o esforço cacofónico de um recém-indigente que enlouqueceu e/ou precisa de uns trocos. The Empyrean, de 2009, sobressaltou muita gente – positivamente. O álbum que abriu as portas à sua saída dos Red Hot Chili Peppers parecia mostrar um artista a solo cuja maestria andava a fermentar desde os tempos do Shadows Collide With People e que decidira, por fim, dedicar-se a só fazer música realmente boa.

PBX Funicular Intaglio Zone (2012) desenganou-nos sem sombra de dúvida. E há resquícios dele neste Enclosure. Frusciante parece ter feito uma decisão – que não foi a melhor. Sim, tudo bem, podemos ir pegar na frase do Saramago e dizer que o caos é uma ordem por decifrar ou alegar que isto é trabalho de autor e não vale a pena ser questionado. Mas também se pode afirmar que há esforços desperdiçados nestes dois álbuns. O trabalho de 2012 desiludiu fortemente e roçava o inaudível. Frusciante parece boicotar o próprio trabalho, ao atulhar de batidas caóticas e samples de sintetizador canções que, numa abordagem mais ortodoxa, seriam perfeitamente decentes.

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O lado experimental de Frusciante está mais domado em Enclosure. Há algumas aproximações frouxas a um dance-rock desterrado, a um synth-pop progressivo mal temperado, mas nem tudo é mau. Há boas passagens pontuais e duas ou três faixas que realmente entusiasmam. Uma, Fanfare, é uma canção simples, à Frusciante, uma batida básica, sem adornos, um sintetizador à anos 80 e a voz característica de Frusciante por cima. Outra, Clinch, é um instrumental bem conseguido que liga aquilo em que Frusciante é melhor, a guitarra, a toda uma base trip-hop francamente decente. Stage consegue ser a melhor do álbum, por ser sombria, não ter invenções desnecessárias e usar de um bom solo de guitarra e ter um travo comedido a post-punk (Frusciante samplou Joy Division noutras alturas e a inspiração parece ser óbvia) que alimenta alguma esperança no que estará para vir (diz que ainda este ano) deste homem.

No geral, não é um mau trabalho e é bom saber que o Frusciante anda a fazer coisas, mas não deixa de ser um tiro ao lado, fora daquilo que ele é realmente bom a fazer, ele, que tantos anos foi um minimalista ferrenho. Enclosure esteve disponível para audição gratuita a partir de um satélite. Podias ouvir o disco à borla se o satélite estivesse em determinado momento a passar por cima do ti. Talvez este novo Frusciante seja extraterrestre, talvez sempre o tenha sido, talvez esteja a anos-luz de uma compreensão leiga, talvez nada disto importe. Posso sempre voltar atrás e retirar o que disse.

Nota: 5.5/10

Escrito por opção do autor ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945