Foi o primeiro documentário a vencer o Leão de Ouro do Festival de Veneza, mas Sacro GRA é tão desinteressante como promete a sua sinopse. Um puro vazio cinematográfico, que se aproveita da realidade para dar o ar de ser um filme importante.

É uma viagem pelo Grande Raccordo Anulare, ou GRA, a autoestrada que rodeia a cidade de Roma. Não visitamos os lugares icónicos da capital de Itália, nem paramos pelos símbolos belíssimos que são indissociáveis da cidade. Francesco Rosi explora o outro lado da questão, e filma os lugares que os turistas desconhecem, e que a publicidade tenta esconder. Conhecemos várias histórias reais, de pessoas reais, numa sucessão de cenas dispersas que fazem uma análise às más condições de vida de grande parte da população da Europa.

Não são de desprezar as intenções sociais e políticas de Rosi, porque aliás, nem é aí que se encontra o desinteresse de Sacro Gra. Mas o problema está mesmo no facto de o filme acabar por não se centrar em nada. As várias histórias que seguimos têm âmbitos e raízes distintas, e algumas são mais interessantes que outras. Porque não pegar apenas numa pequena porção delas e dar-lhes o tempo de antena que merecem, em vez de tudo se confundir, o que faz com que o espectador não consiga interessar-se por nenhuma das vidas que lhe são apresentadas, nem pelas variadas mensagens que a elas estão ligadas.

Se há um propósito em seguir estas vidas peculiares, que pouco nos emocionam, este desvanece-se com o tédio que o filme nos provoca. Mesmo que seja uma reflexão sobre não-sei-o-quê, e uma lindíssima introspeção que aborda o não-sei-que-mais através dos exemplos de sicranos-e-beltranos, isso não chega para criar um filme, para fazer C-I-N-E-M-A. Será que Francesco Rosi se esqueceu do que é isso do Cinema? Ou, durante a execução deste filme, esqueceu-se de levar o dicionário para ir revendo, sempre que tivesse dúvidas, qual é o verdadeiro significado dessa arte sétima?

Sacro-GRA_Palmologo

Podemos não ficar indiferentes à seleção de entrevistados de Sacro GRA. Mas ficamos com pena que a história do enfermeiro em luta com problemas familiares, cujas andanças profissionais passam quase sempre pela autoestrada, tenha a mesma importância, para o filme, que a vivência de certas profissionais que fazem da noite e suas luxúrias o seu ofício primordial. E também parece que alguém não sabe, afinal, o que é a pobreza: ela não se mostra apenas filmando a câmara ao acaso, e perguntando a pessoas aleatórias se querem dar o seu testemunho para um documentário.

Mostrar estas vidas desta maneira acaba por ter tanto interesse e impacto como se elas não tivessem sido filmadas. Mas percebe-se que este filme diga mais à cultura italiana, podendo agir de imediato em algumas mentes mais conservadoras, que tentam polir o mais possível a imagem do país para o negócio do turismo não tenha de parar por causa disto. São pessoas que fazem parte do quotidiano dos italianos, e provavelmente formam algumas das personagens-tipo que mais facilmente encontramos à volta da GRA, uma autoestrada que acaba por influenciar, de forma mais ou menos intensa, o rumo de cada história, através de orientações mais ou menos claras e precisas.

Vale mesmo pelas (poucas) histórias que nos impressionam e tocam, apesar de serem tão afetadas pelos momentos que nada nos interessam, e que para nada servem no contexto que, supostamente, Francesco Rosi pretendia seguir. Limita-se a filmar coisas, mas a evolução na continuidade de cada figura é esquecida, para se dar uma visão passiva e mesmo desinteressada daquilo que se está a contar. E o Cinema não tem como função fingir ser a realidade, imitando os seus espaços de tédio (que fazem estes 93 minutos durar uma eternidade!), e atenção: não confundir tédio com silêncio – porque há pequenos nadas silenciosos que valem muito mais que os disparates que ouvimos muito entrevistado dizer ao longo do filme.

Um filme deprimente sobre deprimências urbanas que querendo captar uma realidade, acaba por simplesmente entrar num exercício de exposição que possui a mesma indiferença com a qual os media e a publicidade tratam estas zonas menos conhecidas de Roma. Vale por relembrar que, afinal, o quotidiano está cheio de pequenas histórias por descobrir, e que na autoestrada, o nascimento, a vida e a morte não param de circular, e onde tudo acaba por se cruzar, voluntária ou involuntariamente. Salva-se não demorar mais do que hora e meia (senão, o lado torturante da experiência chegaria a níveis de um sofrimento atroz que seriam ainda mais difíceis de suportar).

E talvez Sacro GRA seja um marco, enquanto retrato social de uma Itália decadente e miserável, que costuma ficar de fora dos bilhetes-postais que os turistas tanto adoram. Como filme, é uma nulidade.

5.5/10

Ficha Técnica:

Título: Sacro GRA

Realização: Francesco Rosi

Argumento: Francesco Rosi e Niccolò Bassetti

Género: Documentário

Duração: 93 minutos