É um romance peculiar, com as suas singularidades que o destacam entre os filmes mais comuns do género: A Lancheira é uma história peculiar que é ao mesmo tempo o retrato de uma sociedade e das diferenças de mentalidade entre gerações, à medida que o progresso e a tecnologia determina a forma como comunicamos uns com os outros.

Numa era dominada por constantes mudanças nos meios de comunicação, A Lancheira passa-se em Bombaim, e fala de um serviço de entrega de Dabawallahs (que são lancheiras com refeições), que um dia, graças a um erro acidental na distribuição, acaba por provocar a relação improvável entre duas pessoas completamente diferentes, que começarão a contactar-se regularmente através de pequenos bilhetes introduzidos nas ditas lancheiras. São eles Saajan Fernandes (Irrfan Khan), um funcionário administrativo à beira da reforma, e Ila Vaid (Nimrat Kaur), uma jovem mulher desprezada pelo marido. As sucessivas trocas de cartas, cada vez mais íntimas, fazem com que os dois comecem a sonhar com outras vidas, melhores do que a realidade…

É uma pequena grande surpresa, este filme cheio de simplicidade, que surpreende por não coincidir com os clichés que estamos à espera de encontrar. Pensamos, a princípio, que se trata de mais um romancezeco fantasioso como os outros, cuja única diferença encontra-se na sua localização geográfica e social. Nada mais errado, e ao longo de A Lancheira, percebemos que estamos perante algo que é exatamente o oposto dessas ideias feitas.

Mais do que um drama romântico, A Lancheira é uma obra social, que ilustra os costumes de uma cultura ainda muito ligada aos métodos tradicionais, mas que a pouco e pouco consegue avançar e acompanhar os tempos modernos. Vai buscar mecanismos clássicos de drama e até mesmo de comédia, inserindo-as num contexto único e que são tratados de uma forma bonita e encantadora, não tornando este filme mais uma cópia cansativa daquele tipo de filmes que só são propícios para levar casalinhos ao Cinema – sem que tenham muita atenção ao que se está a passar no ecrã…

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A Lancheira reflete a mudança das ambições individuais, influenciada pelo condicionamento social e temporal da vida de cada um, através desta história singela e bem executada, que faz inveja aos clássicos mais puritanos e sensíveis da Hollywood dos anos 40. É um conto que também aborda a importância do envelhecimento na perspetiva sociológica de uma comunidade (envelhecimento esse que é atenuado pelas memórias que tornam o presente menos duro de suportar), e de como o novo se sobrepõe ao “antigo” no interminável ciclo da vida, das nossas vidas e das vidas dos outros.

E na era dos emails e dos chats permanentes, é curioso como se faz uma história que tem como mote a comunicação entre um dos meios mais obsoletos e desprezíveis para a modernidade, sem perder nada em termos de atualidade, beleza e fascínio, não só porque vemos, através de pequenos gestos e admirações, como ambas as personagens se sentem reconfortadas por terem alguém com quem podem falar sem precisarem de ter atenção a constrangimentos, e também porque seguimos os passos do percurso estranhamente romântico que se desenrola sem notarmos aquele tipo de falinhas mansas que são recorrentes e irritantes nos métodos mais convencionais de se filmar um romance em Cinema.

Sem ser simplório ou banal, A Lancheira apela ao que de mais belo e maravilhoso há no Cinema e na poesia que nos transmite. Consegue ser tocante sem, de facto, provocar lágrimas ou tristeza, e o final da história pode ser o mais humanamente evidente – mas não é por isso que não nos deixa de emocionar. É possível ainda ficarmos espantados com as coisas “velhas” e que são os temas clássicos da Arte. Basta saber contá-los de novas maneiras, ou com novos espíritos artísticos e criativos. E este filme é capaz disso, sendo agradavelmente mainstream e não perdendo, contudo, as suas características próprias.

Vemos a vida urbana indiana com um toque cinematográfico e apaixonante, à medida que um conflito de gerações se adensa e se toca, ao mesmo tempo. E as imagens promocionais podem não ser as mais indicadas para captar o público, mas sem dúvida, será uma das estreias mais bonitas deste mês. Um sólido filme romântico e filosófico, com magníficos atores, que mostra como a esperança está onde menos se espera.

8/10

Ficha Técnica:

Título: Dabba / The Lunchbox

Realização: Ritesh Batra

Argumento: Ritesh Batra

Elenco: Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui

Género: Drama, Romance

Duração: 104 minutos