A produção franco-americana Laços de Sangue (Blood Ties), do realizador francês Guillaume Canet, é uma adaptação do romance francês do mesmo nome (Les liens du sang). O filme conta com um orçamento modesto mas sólido, um argumento do aclamado realizador americano James Gray e um elenco de peso, com nomes como Clive Owen, Billy Crudup, Marion Cotillard e Mila Kunis. Com estes recursos e mais, Canet traz-nos um filme cativante, denso e intrigante, que apesar de suas falhas proporciona bons momentos ao longo dos seus mais de 140 minutos.

Chris (Clive Owen) é um criminoso recém-libertado, que tenta reatar a sua relação com a mulher (Marion Cotillard) e filhos e reintegrar-se na sociedade com a ajuda do seu irmão, o polícia Frank (Billy Crudup). Inicialmente procurando viver uma vida honesta, Chris vê-se progressivamente afastado da lei, tomando parte numa série de crimes que o colocarão em confronto direto com aqueles que lhe são mais próximos.

Ao contrário do que se poderia esperar da maioria dos filmes de crime, Laços de Sangue não se rege pelo desapego emocional da longa-metragem que acompanha, e muitas vezes glorifica, a adoção de um estilo de vida niilista ou antiético. Ao invés disso, e indo ao encontro do seu título, o filme apresenta uma forte componente exploratória – a sucessão de eventos a que estão sujeitas as personagens abre espaço a uma subtil mas densa análise da vida e dos laços sociais de um criminoso: entre pai e filho, marido e mulher, irmãos, amigos ou namorados. A história de Chris documenta o difícil processo de reabilitação de um ex-prisioneiro, acompanhado pela tentativa de restabelecimento de ligações e o retorno a uma vida normal, tudo isto em meio a um universo de drogas, prostituição, roubos e mortes. E é daí que Canet deixa transparecer a verdadeira beleza do seu filme, proveniente tanto de uma realização extraordinária quanto de uma história de elevadíssima qualidade.

Blood-Ties (1)

Contudo, o filme peca pela sua falta de consistência: possuindo este uma interessante premissa e um desenvolvimento promissor, a verdade é que o final deixa muito a desejar, resultando num conjunto exacerbado de casualidades fortuitas, e encerrando a narrativa de forma excessivamente repentina. Adicionalmente, aquém do já referido enredo, o argumento oscila em demasia entre o moderadamente bom e o flagrantemente mau, e as atuações são igualmente incoerentes entre si. Clive Owen consegue uma performance bastante boa de Chris, e Billy Crudup está igualmente competente como o irmão e inimigo Frank, mas algumas interpretações, como da desajeitada Mila Kunis ou do desinteressante Mathias Schoenaerts, tendem a desapontar mais que maravilhar. De resto, destaque para Marion Cotillard, brilhante no papel de Monica.

Apesar de tudo isto, Laços de Sangue não é de todo um mau filme. À sua boa realização e história, acrescente-se ainda uma fotografia esteticamente irrepreensível e um trabalho de produção notável, que estabelece o contexto espácio-temporal com elevada eficácia. O filme pode não ser o mais emocionante ou preciso, mas mostra com clareza a capacidade dos seus atores, competência da equipa técnica e paixão do seu realizador, naquilo que são quase duas horas e meia muito bem passadas.

Nota Final: 7/10

Ficha Técnica:

Título: Blood Ties

Realização: Guillaume Canet

Argumento: Guillaume Canet e James Gray, com base na adaptação de Jacques Maillot do romace de Bruno e Michel Papet

Elenco: Clive Owen, Marion Cotillard, Mila Kunis, Billy Crudup, Mathias Schoenaerts

Género: Drama, Crime

Duração: 144 minutos