O IndieLisboa comprova a diversidade da sua competição internacional, e apresenta agora a coragem do cinema experimental após um olhar profundo sobre a sociedade e o mundo. Mouton e Historia del Miedo, ambos experiências cinematográficas, continuam a provar que o cinema se inventa e reinventa a cada ano e a cada festival. O cinema independente está vivo e está em Lisboa.

Mouton 6,5/10

Definir e classificar Mouton é um desafio, comparável apenas ao de o compreender. Gilles Deroo e Marianne Pistone partem neste filme à descoberta de algo, mas fazem-no não a partir de um esforço apenas de construção de um argumento ou de uma estética , mas desafiando-se a eles mesmos e ao espectador em todos os componentes do filme.

Começando talvez pelo mais fácil, existe um certo purismo na abordagem dos realizadores, um certo travo documental no tratamento de imagem, na profunda aceitação do real e do que acontece a cada momento em frente da câmara. Assim como na escolha dos protagonistas, uma escolha casual, como um encontro que estava destinado ou que simplesmente aconteceu.

Mouton, interpretado pelo jovem local David Merabet, trabalha como aprendiz de cozinheiro em Courseulles-sur-Mer, uma localidade pequena e costeira da Normandia. A história de Mouton é-nos contada por fragmentos da sua vida, momentos que são partilhados na sua simplicidade e aleatoriedade, gerando sentimentos de monotonia e melancolia profundos a que o espectador ou se rende, ou resiste, tornando a sua experiência porventura penosa.

Mouton

Se há filme em que o cuidado subtil com o conteúdo e o arranjo do que está em cada plano e cena é evidente ao público, talvez pela cadência lenta do filme e pelo estado de rendição a que o espectador é obrigado, é com certeza este. O conceito fugidio de mise-en-scéne é frequentemente traiçoeiro e subjetivo na sua interpretação, mas é tudo neste filme. Há algo indefinido que se conjuga entre a cinematografia, a composição, a cenografia e a iluminação que coloca os que se decidiram render no centro de uma digna experiência cinematográfica.

Mas o desafio para alguns, em que infelizmente me incluo, não fica por aqui. A segunda parte do filme precipita-se depois de um acontecimento bizarro que obriga à partida de Mouton, filmado de forma incómoda, desconcertante, acompanhada por uma narração até então ausente. O que se segue são fragmentos desconexos da vida de Courseulles-sur-Mer após a partida do protagonista, momentos e personagens cuja relação com a história pregressa não é evidente. Ocorre um sentimento de perda e aleatoriedade que foi para mim definitiva.

Nem a terceira parte, que ensaia uma ligação ao protagonista usando reflexões sobre uma carta que lhe tardou a ser enviada após a sua partida, consegue mitigar a dissociação sentida após a quebra inicial.

Historia del Miedo 7/10

Está é uma história sobre o medo. Um visitar de um estreante nas longas-metragens, Benjamin Naishtat, ao poder da sugestão numa sala escura, e às variadas formas de gerar um sentimento numa audiência, fazendo desse ensaio cinema.

A decisão definidora deste filme é a de um realizador que deixa de explicar e passa a sugestionar. Historia del Miedo torna-se filme apenas a partir do sentimento que consegue ou não criar no espectador. É aqui que é assumido o risco óbvio, o de não impressionar a totalidade de uma audiência. Todos reagimos de forma distinta à sugestão, principalmente quando ela deixa de ser surpresa e teima em não se consubstanciar.

Historia del Miedo

Todo o filme é uma sucessão de momentos tensos, em que uma comunidade argentina se depara com um clima de insegurança manifestado em pormenores, pequenos distúrbios da ordem original. O realizador mune-se de pequenos incidentes nunca explicados, gerando um medo essencialmente pelo desconhecido, pelo incerto, num grupo de habitantes, de diferentes origens e relação muitas vezes apenas casual ou inexistente.

Naishtat merece certamente reconhecimento pela ideia original que faz nascer Historia del Miedo, seguindo um caminho e um estilo que começou a percorrer nas curtas-metragens. No entanto, a dedicação total deste filme a este exercício cinematográfico não deixa incólume algo mais extenso como uma longa-metragem.

A pureza de uma ideia que poderia funcionar na perfeição num formato mais pequeno vai erodindo o efeito surpresa, e a audiência, qual experiência pavloviana, começa a modular as suas reações sentimentais e os seus sobressaltos e medos, tornando-se na segunda metade do filme porventura mais relutante em ser, no fundo, enganada pelo que vê no ecrã.