Hoje celebra-se o Dia Internacional da Dança e o Espalha-Factos achou por bem comemorar esta data com a estreia de uma nova rubrica. Passo a Passo vai dar-nos conta, mensalmente, do percurso de importantes individualidades da dança, algumas não tão conhecidas. Desde coreógrafos até aos intérpretes, este novo espaço informativo fala-vos de uma das maiores e mais conhecidas coreógrafas de sempre: Pina Bausch.

Pilippina Bausch nasceu a 27 de Julho de 1940 na Alemanha. A terceira filha de August e Anita Bausch, desde pequena que  ajudou no hotel e restaurante que os pais tinham. A corrida das pessoas parecia-se com um espetáculo, o fascínio pela observação do quotidiano dos outros e as histórias de desconhecidos sempre a inspiraram. Talvez tivesse sido isso que a fez romper com a quarta parede do teatro e estabelecer uma forte relação entre artista e público.

Pina sobe pela primeira vez ao palco aos 5 anos, mas só aos 14 anos na década de 50 é que entra para a escola de Folkwang em Essen, uma escola de ensino artístico. Em 1958 recebe uma bolsa e atravessa sozinha meio mundo até Nova Iorque onde entra na conceituada Julliard School. Foi aqui que bebeu grandes influências de outros bailarinos e coreógrafos, como Merce Cunningham ou Martha Graham, que fundiu com a dança-teatro alemã. Como bailarina fez parte da companhia Metropolitan Opera Ballet, participou em trabalhos de Paul Taylor e colaborou ainda em dois projectos da companhia de dança de  Paul Sanasardo e Donya Feuer, entre muitos outros trabalhos.

Em 1973 Pina é chamada para dirigir a Wuppertal Opera Ballet, que renomeou de Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. Fundou um novo método de criação coreográfica em que questiona sistematicamente os bailarinos, cruzando-se ideias e memórias até se obter um produto final que resulta num espetáculo que traz o quotidiano ao palco: cabelos soltos, saltos altos, corridas, cadeiras espalhadas pelo espaço e cenário sempre relacionados com a natureza. “Na dança teatro de Bausch o corpo passa por novos desafios (…) O corpo se torna um espaço de resistência frente às diversidades e nega o carácter supra-humano em que a técnica, em geral, busca formatá-lo. Assim, o corpo e sentimentos representam no palco uma unidade; ambos são a expressão da fragilidade da existência humana” .

Pina Bausch apenas trabalhava com bailarinos que considera excepcionais e únicos. São poucos os intérpretes que conseguem executar as obras desta coreógrafa, porque cada papel era definido exatamente para uma pessoa especifica, tendo em conta o corpo e a experiência pessoal. Na sua companhia não há solistas nem hierarquias. Todos os bailarinos estão em pé de igualdade, tenham eles 20 ou 60 anos.

http://youtu.be/dWIs89Pub0w

Pina foi visionária sem saber: abalou a essência da alma humana, as ideias pré-definidas da individualidade, as hierarquias entre os homens, a desvalorização da diferença, a convenção do amor e do sexo. Ela acabou por revolucionar  a dança, não só pelas temáticas abordadas, mas também pelo desenho de movimentos, pela relação com o espetador e pela forma de expressar a vida. 

“A dança deve ter outra razão além de simples técnica e perícia. A técnica é importante, mas só um fundamento. Certas coisas só se podem dizer com palavras, e outras, com movimentos. Há instantes porém em que perdemos totalmente a fala, em que ficamos totalmente pasmos e perplexos, sem saber para onde ir. É aí que tem início a dança e por razões inteiramente outras, não por razões de vaidade. Não para mostrar que os dançarinos são capazes de algo de que um espetador não é. É preciso encontrar uma linguagem com palavras, com imagens, movimentos, estados de ânimo, que faça pressentir algo que está sempre presente. Esse é um saber bastante preciso. Nossos sentimentos, todos eles, são muito visíveis. Sempre tenho a sensação de que é algo com que se deve lidar com muito cuidado. Se eles forem nomeados muito rápido com palavras, desaparecem ou tornam-se banais. Mas mesmo assim é um saber preciso que todos temos, e a dança, a música, etc, são uma linguagem bem exata, com que se pode fazer pressentir esse saber. Não se trata de arte, tampouco de mero talento. Trata-se da vida e, portanto, de encontrar uma linguagem para a vida. E, como sempre, trata-se do que ainda não é arte, mas daquilo que talvez possa se tornar arte.” *

http://youtu.be/lDJFMvU2ZqY

Bausch casou-se com Rolf Borzik, um designer de cenários e figurinos que morre de leucemia em 1980. Um ano depois conhece Ronald Kay com quem terá um filho. Pina Bausch morre a 30 de junho de 2009, vítima de um cancro no pulmão causado pelos vários anos como fumadora. São inúmeras as suas obras e a maioria, senão todas, são conhecidas mundialmente: Sagração da Primavera, Nelken, Café MullerMasurca FogoPalermo PalermoÁrienOrféu e Eurídice e muitas outras.

Wim Wenders realizou em 2011 um documentário intitulado Pina. Esta homenagem conta com os próprios bailarinos da companhia de Bausch que contam não só as suas experiências pessoais enquanto interpretes, mas falam também da coreógrafa alemã, dos seus métodos e das suas manias.

http://youtu.be/ID1vsf4nJX4

*Expressões retiradas da obra Pina Bausch de Fabio Cypriano,  editora Cosac Naify