O IndieLisboa avança na sua programação com salas cheias, sessões esgotadas, e cinema fresco, experimental e multifacetado. Hoje analisamos duas longas-metragens da competição internacional depois de um movimentado fim-de-semana de cinema independente em Lisboa. São ambos olhares distintos sobre fenómenos distintos, no entanto ambos produtos de um mundo globalizado e profundamente desigual, onde a constante é o sofrimento e a exploração do homem.

Los Ángeles – 8/10

Damian John Harper traz ao IndieLisboa a sua primeira longa metragem, Los Ángeles. O filme é a história de um jovem e de uma mãe, Mateo e Lídia, de suas respetivas famílias e da sua comunidade no meio extremamente pobre do sul do México.

Para estas famílias a única solução e condição para a sobrevivência é o trabalho de solidariedade, um trabalho tanto da comunidade como da família, com o único objetivo de pagar o transporte clandestino dos seus filhos pela fronteira dos Estados Unidos, depositando neles toda a sua esperança e aguardando mensalmente as remessas de dólares americanos daqueles que já partiram.

Estas comunidades, organizadas para garantir a sua subsistência, enfrentam a presença violenta dos gangs transfronteiriços que se estendem das comunidades de origem a cidades como Los Angeles, criando redes das quais se torna difícil e principalmente perigoso sair. A grande cidade californiana é apenas uma promessa de melhores tempos, de melhores vidas, uma miragem para todos os intervenientes neste sistema viciado e perverso.

Los Ángeles

Los Ángeles tem um argumento fantástico, e é um retrato de uma realidade com enorme significado para Damian John Harper, que trabalhou como etnólogo no sul do México antes de iniciar a sua carreira no cinema. O filme nasce da relação de um realizador americano sem complexos ou preconceitos com estas comunidades e com as pessoas que são os seus verdadeiros intervenientes.

Há uma constante sensação em todo o filme de proximidade de uma tragédia, num notável trabalho de um realizador  que dá os seus primeiros passos. Mateo e Lídia lidam com um mundo de problemas e situações extremamente desafiantes e complicadas, conseguindo manter nas suas vidas uma extraordinária normalidade e funcionalidade, prova de uma resistência imensa.

Uma óptima estreia de um realizador para manter debaixo de olho.

Amor, Plástico e Barulho – 7,5/10

Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira deram a cara no IndieLisboa na primeira apresentação europeia de Amor, Plástico e Barulho e das suas carreiras.

Esta tríade Amor, Plástico e Barulho, pode bem ser o contraponto da visão do emergente movimento cultural e artístico brasileiro à origem identitária positivista do seu país, Ordem e Progresso.

O filme mergulha no mundo da música Bregue, um género musical com distribuição alternativa, de base profundamente popular, e conotada com a classe social baixa ou média-baixa. Somos levados ao dia-a-dia, ao modo de viver dos artistas deste tipo de música, com vida itinerante e sem lugar para família ou raízes.

Jaqueline (Maeve Jinkings) e Shelly (Nash Laila) da banda Bregue Amor com Veneno, respetivamente cantora e dançarina, são personagens em trajetória inversa num mundo de sucesso instantâneo e descartável, em que a fama vive do momento e em que nada está garantido. Maeve tem uma prestação extraordinária no papel de representante de artista a caminho do esquecimento. Estas mulheres sonham com o estrelato e com a fama, que significa quase tudo no mundo do Bregue, mas são obrigadas a lidar com a faceta mais cruel desta indústria, que consegue ser popular na sua raiz, mas impessoal e assustadoramente precária.

Amor, Plastico e Barulho

O pano de fundo, sempre presente, é-nos mostrado com mestria pela realizadora, recorrendo a insert shots certeiros das desigualdades profundas da sociedade brasileira, seja expondo os contrastes e contradições fruto do capitalismo desenfreado e do caos arquitetónico em que se transformaram as cidades em permanente metamorfose no Brasil, seja por inclusão do kitsch característico e identitário deste tipo de cultura, e dos comportamentos humanos inacreditáveis provocados pelo consumismo de massas das grandes superfícies comerciais.

Nestes pequenos momentos encontram-se pistas para o passado da realizadora como artista plástica, com destaque para um delicioso pormenor que indicia uma transformação na personagem Shelly, feito a partir de um recurso plástico já utilizado em artes profundamente distintas como no contemporâneo de Pina Bausch, em que a personagem adormece coberta por uma toalha com a representação do seu “eu” futuro, uma mulher diferente, loira e despida.

Amor, Plástico e Barulho, um testemunho assustador de um dos fragmentos da sociedade brasileira, tão invisível para o mundo como para o sector social mais desenvolvido no próprio Brasil que a escolhe ignorar.