Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

Miguel Gomes ainda não conta com muitos títulos na sua carreira, mas não deixa de ser um dos melhores realizadores nacionais da última década. Para além dos interessantes A Cara que Mereces (2004) e Aquele Querido Mês de Agosto (2008), o realizador ofereceu-nos em 2012 Tabu, um dos mais reconhecidos filmes nacionais no estrangeiro e, sem margem para dúvida, uma das mais originais e extraordinárias obras da filmografia portuguesa.

Tabu é um filme narrado em duas partes. A primeira, intitulada Paraíso Perdido, apresenta-nos Aurora (Laura Soveral), uma octogenária que gasta a sua reforma nos casinos enquanto alucina e sonha acordada. Já às portas da morte, Aurora pede à empregada Santa (Isabel Cardoso) e à vizinha Pilar (Teresa Madruga) para encontrarem a única pessoa que lhe faz falta: Gian-Luca Ventura (Henrique Espírito Santo). Quando Pilar e Santa encontram Gian-Luca, deparam-se com um velho senil abandonado num lar de idosos, que lhes conta a sua história de amor com Aurora em África, antes da Guerra Colonial. Começa assim a segunda parte do filme, chamada Paraíso.

O filme é acompanhado por uma total melancolia ao longo das suas duas horas de duração. Sempre a preto e branco, através de uma fantástica fotografia, Tabu é um surpreendente retrato sobre a vida, especialmente do seu lado mais triste e saudoso. Há um prólogo, antes de se entrar verdadeiramente na história, narrado pelo próprio Miguel Gomes, onde vemos uma pequena história de amor em África que acaba em tragédia. Funciona quase como um aviso: isto não é um filme alegre. Quando entramos finalmente na primeira parte deste Tabu, sentimos a tristeza de todas as personagens, graças às boas interpretações de Teresa Madruga e Isabel Cardoso. Ambas transportam nas suas expressões faciais e pequenos gestos o tal Paraíso Perdido.

Se até aqui já se havia percebido que não estamos perante um filme qualquer, a segunda parte é a verdadeira confirmação do talento e originalidade de Miguel Gomes. Toda a sequência de Paraíso é narrada unicamente por Gian-Luca Ventura. Não há diálogos, apenas a voz quente de Henrique Espírito Santo sobre os impressionantes planos que o realizador nos oferece e os sons da água, vento e da banda rock de que o narrador fez parte. Os atores Carloto Cotta e Ana Moreira encarnam os corpos jovens de Aurora e Gian-Luca, em duas performances muito interessantes e difíceis de atingir, visto que nunca ouvimos nada da boca delas, ficando os seus sentimentos interiores entregues à mímica. E há que dizer que ambos os interpretes estiveram à altura do desafio.

Um dos aspetos mais impressionantes de Tabu é a forma como foi filmado. Miguel Gomes inovou ao recuperar técnicas mais antigas, como as cenas filmadas em Moçambique no segmento Paraíso, que o realizador fez questão de rodar em 16mm, dando-lhe aquele ar mais antigo e nostálgico. O argumento, embora simples, é muito poético, e quando chega o monólogo de Gian-Luca Ventura em Paraíso torna-se muito agradável de se ouvir. Há ainda uma excelente banda sonora que acompanha a história até ao seu final, porventura muito ambicioso e não menos tragicamente comovente.

Tabu ganhou o prémio Sophia para Melhor Filme do Ano e Melhor Montagem, na primeira cerimónia dos prémios da Academia Portuguesa de Cinema, e ainda arrecadou os prémios Alfred Bauer e FIPRESCI no Berlinale 2012. É um filme que prova que em Portugal também se faz cinema inovador e deverá encher de orgulho qualquer cinéfilo português por ter um homem como Miguel Gomes a realizar no nosso país.

Ficha Técnica:

Realizador: Miguel Gomes

Argumento: Miguel Gomes e Mariana Ricardo

Elenco: Laura Soveral, Teresa Madruga, Ana Moreira, Carloto Cotta, Henrique Espírito Santo

Nota: 9,5/10