A rubrica “5” pretende trazer aos leitores cinco factos cinematográficos de 15 em 15 dias. O tema desta semana centra-se nos sets mais inesquecíveis da história do cinema que ainda podem hoje ser visitados.

Todos nos lembramos de alguns cenários e locais  onde o cinema já nos levou. A sétima arte é uma janela para outros mundos, e coloca no nosso imaginário alguns locais fantásticos, assustadores, majestosos ou simplesmente belos.

Mas alguns destes mundos ou recantos com que o cinema nos maravilhou existem na realidade, tendo sido construídos durante a produção dos filmes tanto em estúdios como pelo mundo fora. O “5” desta semana é uma janela muito real para o nosso imaginário.

Os Sets de Guerra das Estrelas (Deserto da Tunísia)

A saga Guerra das Estrelas foi filmada em variadas localizações espalhadas por vários continentes, contudo o deserto da Tunísia foi o escolhido para fornecer a paisagem árida necessária em várias cenas de quase todos os episódios.

Existem exemplos de atitudes distintas relativamente aos sets criados em zonas remotas e fora dos grandes estúdios. No caso de Guerra das Estrelas foi seguida a tradição de deixar os elementos do set tal como se encontravam no fim da filmagem, que lá permanecem até que o homem ou a natureza os destrua. E, infelizmente, é isso mesmo que está a acontecer no deserto da Tunísia.

Star Wars Set

Das várias localizações dos sets – a ilha de Djerba, o oásis de Tozeur, a cidade de Medenine e Matmata – as que existem em Tozeur são as mais ameaçadas. As cenas de exteriores da casa de Lars, e o set de Mos Espa com a arena de Pod Racing estão em risco de ser engolidos pelas gigantes dunas e pelas duras condições impostas pelo clima do deserto tunisino. É possível ainda visitar os sets em quase todas as localizações, mas uma gigantesca duna está a poucos metros de Mos Espa, estando previsto o desaparecimento deste set muito brevemente.

A Cinecittá (Roma)

Nesta cidade do cinema não está apenas um, mas vestígios de vários sets de alguns dos mais importantes filmes da História do cinema.

La fabricca dei sogniA fábrica dos sonhos, nome que celebrizou os colossais e lendários estúdios nos arredores de Roma, foi obra do regime fascista italiano, e esteve encerrada no pós-guerra, sendo negado acesso às suas instalações e financiamento aos realizadores italianos. Este facto terá contribuído paradoxalmente para o florescer do movimento Neo-realista por nomes como Rossellini (Roma, Cidade Aberta), Visconti (A Terra Treme) e De Sicca (Ladrões de Bicicletas), entre outros.

Mas o cinema italiano regressou das ruas, e o olhar da câmara que o neo-realismo virou para a sociedade voltou-se de novo para os estúdios. A fábrica dos sonhos captou o olhar da máquina de produção de Hollywood devido ao custo reduzido de produção e às suas fantásticas condições, produzindo filmes como Quo Vadis, de Mervyn Loy (1951), Cleopatra de Mankiewicz, ou Ben Hur, de Wyler (1959).

Cinecitta

A Cinecittá viria também a ser a “casa” do incontornável Federico Fellini, que lá realizou, entre outros, La Dolce Vita (1960), (1963) e Amarcord (1973), assim como de outros grandes realizadores italianos das décadas de 60 e 70, como Antonioni, Visconti, Scola e De Sica. Simultaneamente, dezenas de spaghetti westerns foram filmados na Cinecittá, como os notáveis Por Um Punhado de Dólares (1964) ou Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone.

A Cinecittá é parte da alma da sétima arte. Privatizada nos anos 90 e tendo recentemente sido anunciados planos para a converter num parque de diversões, encontra-se hoje fortemente ameaçada, apesar da forte contestação de trabalhadores do cinema, realizadores e atores. É ainda possível visitá-la, estando ao alcance do metro de Roma.

Hobbiton de O Senhor dos Anéis (Matamata, Nova Zelândia)

Mesmo os espectadores menos atentos se lembram da pequena e pitoresca localidade de Hobbiton, no Shire, casa dos pequenos heróis do épico de J. R. R. Tolkien.

Uma quinta nos arredores da vila rural de Matamata na Nova Zelândia foi o local escolhido pela equipa de Peter Jackson como ideal para a construção do set que serviu para ambas as trilogias, O Senhor dos Aneis e O Hobbit.

Hobbiton

A quase totalidade dos sets usados na trilogia foi desmantelada imediatamente após produção, com esta espantosa exceção. A pequena vila de Frodo, Sam, Merry e Pippin que fora inicialmente construída para O Senhor dos Anéis, foi abandonada e permaneceu visitável mas sem recheio até ao início das filmagens de O Hobbit. Encerrada durante a produção da segunda trilogia, está agora aberta ao público, sendo uma atração turística bastante visitada na Nova Zelândia.

A Mansão de Psycho (Hollywood, Los Angeles)

A casa em que Alfred Hitchcock filmou Psycho, construída nos estúdios da Universal, é talvez um dos mais reconhecíveis sets da história do cinema.

O realizador americano foi obrigado a financiar pessoalmente uma parte do seu filme devido à desconfiança da Paramount, que o considerou impossível de filmar e demasiado repulsivo.

Psycho Mansion

A inspiração para a construção da mansão do perturbado Norman Bates foi um quadro de Edward HopperThe House by the Railroad. Originalmente apenas fachada, foi construída sem o seu lado direito, já que este não seria necessário para a filmagem de Psycho. Apenas em 1964, quando a Universal abriu os seus estúdios ao público, é que a casa foi construída na totalidade.

Produções subsequentes levaram a outras alterações na mansão, como Psycho II em que foi movida para um local conveniente, e Bates Motel para a qual foi remodelada, voltando depois a ser restituída a sua aparência original em 1994. Foi renovada em 1998, mas encontra-se hoje degradada, tendo já motivado uma petição para o seu restauro e preservação. O tour dos estúdios da Universal inclui visitas a este famoso set.

A Town of Spectre de O Grande Peixe (Millbrook, Alabama)

Em O Grande Peixe (Big Fish) o contador de histórias Edward Bloom conta-nos a sua fantasiada história de vida perante a desconfiança e o desconforto do seu filho já adulto.

A Tim Burton coube a árdua tarefa de transportar para o ecrã da forma mais fiel possível o romance de Daniel Wallace e os locais singulares que Edward descreve. O realizador americano não optou pelo caminho mais fácil e tentou usar o mínimo possível de manipulação digital.

Spectre, Big Fish

Assim sendo, a escondida e fantástica localidade de Spectre, que Edward (Ewan McGregor) visita nas suas aventuras, foi construída numa ilha entre Montgomery e Millbrook, no Alabama. Para além da sua estranheza natural, à medida do relato fantasioso de Edward, Spectre está em ruínas, com alguns edifícios destruídos pelo fogo e pelo tempo.

A ilha onde se situa o set é propriedade privada, sendo necessária permissão para a visitar.