O documentário retrata um dos períodos criativos mais inovadores da cultura brasileira, contrapondo a frescura das letras e melodias dos membros deste movimento com a dureza da ditadura brasileira, que criou barreiras para a liberdade de expressão e de criatividade de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé e Maria Bethânia. E finalmente, Tropicália estreia esta semana em Portugal, nas salas e também em DVD e nos videoclubes da televisão por cabo, numa iniciativa que pretende atender às novas necessidades de expansão do mercado cinematográfico.

Tropicália é a história muito bem documentada e construída do movimento artístico brasileiro homónimo e dos seus protagonistas, contado pelos seus testemunhos e por uma vasta coleção de imagens de arquivo (onde se inclui um excerto de uma emissão do célebre Zip-Zip, que abre o filme, onde vemos Gilberto Gil e Caetano Veloso a falarem sobre o final do tropicalismo). Viajando pelas bandas (como Os Mutantes), os rostos, as polémicas e as lutas da Arte contra a forte pressão daquela época, em que o Brasil esteve dominado por uma ditadura opressiva feroz, Tropicália é uma fascinante viagem pelo mundo da música e do Cinema (por não só referir os momentos de vanguarda que o tropicalismo trouxe a essa arte, como também porque este documentário sabe funcionar como objeto cinematográfico, ao contrário de tantos outros, que confundem a televisão com esta linguagem).

Foi um dos movimentos mais importantes do século passado, cuja irreverência e rebeldia se divulgou pelos quatro cantos do mundo (e ainda mais quando Gil e Caetano tiveram de se exilar na Europa), aproveitando a vaga de frescura e inovação que caracterizou toda a década de 60, passando pela influência de bandas como os Beatles e os Rolling Stones e as novas mentalidades que começavam a surgir, e cujas mensagens políticas e sociais nunca pararam de circular, mesmo que as oposições as tentassem calar a todo o custo.

É um documentário inventivo, que brinca com o próprio papel da televisão neste capítulo da História da cultura brasileira, porque a caixinha presenciou muitos momentos fulcrais desta era conturbada, recheada de tensões e contradições, acompanhadas pela evolução da Arte e da importância cada vez maior da Música Popular Brasileira (vulgo MPB). E contando os factos com a ajuda das pessoas que os viveram, contrapondo várias camadas de passado cultural e histórico, Tropicália explica o que foi o movimento para quem não o conheceu, mas não deixa, ainda assim, de ser uma pérola para os melómanos, que poderão encontrar aqui muitos novos acontecimentos e situações que tinham permanecido inéditos, ou que não são muito conhecidos.

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A posição estética alternativa defendida pelos vários artistas que vemos atuar, no passado, e que contemplamos a recordarem esses tempos, no presente digital e não ditatorial, ajudam-nos a compreender melhor a influência do movimento nos costumes brasileiros, e na radicalidade que propunha a um país que se queria fechado a novas ideias, impedindo a criatividade de poder ser utilizada da melhor forma por estes artistas, cujas belíssimas canções acabaram por, felizmente, ultrapassar as barreiras políticas impostas nos anos finais da década de 60. E durante boa parte do filme, os rostos da contemporaneidade são-nos escondidos. Há aqui uma intenção, sim: a de nos centrarmos no tropicalismo sem ser, a princípio, para ter sentimentos nostálgicos. Porque feliz ou infelizmente, nada do que aqui ouvimos e sentimos pode ser chamado de arcaico ou datado: este tema e esta forma de cultura nunca esteve tão atual como agora.

Tropicália é o testamento de um movimento que decidiu arriscar, mas que se desiludiu consigo próprio poucos anos depois de ter nascido. Vários artistas tentaram continuar a propagar a frescura dos ideais do movimento, mas o sucesso foi escasso, ou mesmo nulo. Isto mostra a importância das circunstâncias do Brasil para a formação desta nova forma de se ver as Artes: conseguiria Caetano Veloso criar a música inspiradora (e o álbum da qual faz parte), que deu nome ao movimento, se nada tivesse corrido como planeado? O tempo em que foi preciso haver rebeldia foi bem aproveitado, para assim poder continuar a inspirar os novos rebeldes dos tempos atuais (mesmo que muitos ainda achem que tudo está bem e nada parece ir contra o bem estar da sociedade).

A história do tropicalismo confunde-se com a História brasileira, e com os problemas constantes e intermináveis do show business (como por exemplo, a dificuldade dos artistas se destacarem da música mais comercial e mainstream, mesmo que isso vá contra os interesses daqueles que os financiam – o pão nosso de cada dia desde sempre neste mercado). E Marcelo Machado, realizador de Tropicália, sabe manejar muito bem todas as vicissitudes que nos são contadas pelas mais variadas perspetivas, enchendo o documentário com curiosidades e um interesse cinematográfico peculiar, que deveria ser uma lição para muitos filmes do género que chegam às salas sem terem qualquer pendor que os possa ligar à Sétima Arte.

Uma época inacreditável e desconcertante, cheia de energia e grandes talentos, que retrata a ânsia que os brasileiros sentiam para terem de volta a liberdade e a democracia que a ditadura lhes roubou, tornando o ato de pensar como algo semelhante a um crime grave para a pátria. A história do tropicalismo não poderia ter sido melhor retratada e recordada, revisitando o seu nascimento e a sua morte algo prematura. Mas o seu legado ultrapassa qualquer limite temporal, por ser um exemplo para a modernidade e ao qual ninguém pode ficar indiferente. Os sentimentos de revolta de Tropicália fascinam os espectadores e fazem-nos pensar também no valor que damos à cultura no nosso país. É que muitas vezes esquecemos que a Arte pode ser muito mais do que aquilo que move as sociedades: também tem a força de poder mudar o Mundo.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Tropicália

Realizador: Marcelo Machado

Argumento: Marcelo Machado, Vaughn Glover Di Moretti

Elenco: Gilberto Gil, Caetano VelosoTom Zé

Género: Documentário, Música

Duração: 87 minutos