No ano em que se comemora o 40.º aniversário da Revolução dos Cravos, são muitas as iniciativas e as memórias que começam a surgir para mostrar a importância do 25 de abril na sociedade portuguesa atual. Aqui, sugerimos 8 filmes portugueses que, sem a liberdade que trouxe o fim da ditadura e o início da democracia no país, não poderiam ter sido elaborados – quer pelos temas que abordam, quer pela linguagem cinematográfica que possuem. Percorremos quatro décadas de Cinema português, e quatro décadas de criatividade e brilhantismo, com oito dos mais notáveis títulos feitos em Portugal. 

Brandos Costumes [1975]

É um filme realizado por Alberto Seixas Santos, no filme que o lançou como um dos mais célebres cineastas portugueses das últimas décadas. Exemplo da radicalidade e experimentalismo, o filme retrata a vida quotidiana de uma família portuguesa de classe média, que fala ao mesmo tempo da ascensão e queda do regime salazarista, que por quase cinquenta anos dominou Portugal e a mentalidade dos portugueses. A vida familiar cruza-se com o sistema político, numa obra fulgurante que, pelas temáticas que trata e pela abordagem utilizada, seria um projeto totalmente censurado pelo Estado Novo. E por pouco poderia ter sofrido as consequências da ditadura: a rodagem terminou em 1974, e Brandos Costumes acabou até por fazer uma espécie de previsão de todas as atribuladas mudanças que se sentiram ao longo desse ano…

Deus, Pátria, Autoridade [1975]

O realizador Rui Simões percorre mais de quatro décadas de ditadura para ilustrar a evolução do regime e os seus efeitos na sociedade portuguesa, estando ao mesmo tempo muito condicionado pelas atribulações que se viveram no ano em que foi filmado. Partindo de um famoso discurso de Salazar, de 1936, Deus, Pátria, Autoridade ilustra todas as características do conservadorismo em que se apoiou o Estado Novo, passando pela propaganda, pela ideologia de cariz fascista, o excessivo apoio da Igreja, a Censura e a Guerra Colonial. O título do filme faz uma alusão ao lema da ditadura, alterando a “família” por um conceito muito mais apropriado àquilo que o sistema punha em prática: a força da autoridade e do medo que o Poder conseguia exercer nas pessoas. Pode parecer um objeto documental estranho e demasiado politizado nos nossos dias (por não ser tão objetivo como deveria ser – não esquecer que a obra foi feita nos meses mais preocupantes do pós-25 de abril), mas não deixa de ser uma peça fundamental para se conseguir perceber duas épocas: a do fascismo e a dos primórdios da democracia em Portugal.

Manhã Submersa [1980]

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A estreia de Lauro António na realização é a adaptação do romance homónimo de Vergílio Ferreira, um retrato autobiográfico sobre o poder dogmático da religião católica e da instituição clerical na vida portuguesa nas primeiras décadas do Estado Novo. É uma crítica dura, triste e trágica aos males do salazarismo, e ao medo que o catolicismo conseguiu impor nos últimos anos do seu “império” enquanto força apoiante do sistema político em vigor. Lauro António aponta os podres de uma época, num dos filmes mais notáveis (e subvalorizados) do Cinema português. Além de ser um grande documento histórico, é uma grande obra de Arte.

Balada da Praia dos Cães [1987]

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Um dos maiores sucessos de bilheteira do Cinema português na década de 80, e um dos filmes mais populares do seu realizador, José Fonseca e Costa, numa adaptação do romance homónimo de José Cardoso Pires. Passado no princípio dos anos 60, este é um policial obscuro e desconcertante, sobre um inspetor da PIDE que investiga um brutal assassinato de um opositor do Estado Novo evadido da prisão militar do Forte de Elvas. Mas mais tarde, a investigação irá ganhar contornos muito mais complexos… Balada da Praia dos Cães é não só singular pela abordagem única a uma obra ímpar da literatura portuguesa, como também por ser uma das poucas ocasiões em que podemos ver o ator Raul Solnado a desempenhar um papel dramático (sim, o humorista que, anos antes, se popularizara graças à Guerra de 1908), naquela que é, provavelmente, a sua melhor prestação. Obra impiedosa sobre o sistema policial da ditadura, esta co-produção entre Portugal e Espanha, que consegue adaptar a escrita incómoda e filosófica de Cardoso Pires para criar uma fita tão diabólica como a história original.

O Sangue [1989]

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A primeira longa-metragem do realizador Pedro Costa foi um murro no estômago para o Cinema português, tornando-o num dos nomes mais influentes desta Arte. Aclamado pela crítica, mas não pelo público, O Sangue é uma obra que segue uma estrutura que o cineasta não mais voltaria a seguir, nos seus filmes seguintes, e conta a história dramática de dois irmãos, numa terra de província, pela altura do Natal, e um segredo que os une – e que tem a ver com as constantes ausências do pai de ambos. Numa intriga de mistérios, desilusões, separações e persistências, O Sangue é um conto moderno que reflete preocupações da atualidade com uma atitude inovadora e que, pelos seus contornos tão pouco usuais, e por nada ter de vulgar ou corriqueiro, não seria um título bem aceite, se tivesse sido feito no tempo da Censura.

Cinco Dias, Cinco Noites [1996]

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Mais um filme de José Fonseca e Costa e mais uma adaptação: desta vez, é do livro de Manuel Tiago, pseudónimo do líder histórico do PCP, Álvaro Cunhal. O filme fala das saídas clandestinas de Portugal que ocorreram durante muitos anos do Estado Novo. Prisioneiros políticos fugidos à “justiça”, pessoas que queriam escapar aos horrores da Guerra do Ultramar, e tantos outros que utilizaram os mesmos métodos e contactaram as mesmas pessoas que a personagem de Paulo Pires, na sua jornada em busca da liberdade fora do país. Obra exemplar na sua execução, Cinco Dias, Cinco Noites tem boas interpretações e um sentido crítico e histórico apurado, na recriação destas situações problemáticas que, infelizmente, eram constantes durante os tempos opressivos da ditadura. Uma pérola a descobrir.

Juventude em Marcha [2006]

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Pedro Costa mistura ficção e documentário num filme que se passa nos subúrbios de Lisboa, e que lida com questões essenciais no panorama social contemporâneo (questões essas que, no Estado Novo, dificilmente o Cinema conseguiria pegar). Costa volta a filmar no Bairro das Fontainhas, retratando as mudanças vividas pelas comunidades que lá habitam, através de Ventura, um imigrante cabo-verdiano que acompanha a evolução do Bairro para a modernidade e a destruição dos vestígios do passado, dando início a uma nova vida e ao fim da comunidade que tinha crescido no meio das dificuldades que por lá se sentiram durante tantos anos. Um filme diferente e mais um título aclamado do cineasta.

Tabu [2012]

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É um dos filmes portugueses mais internacionais dos últimos anos. Miguel Gomes consagrou-se no panorama cinematográfico atual com esta história sobre o presente e a memória do passado, uma história de amor silenciosa… apenas no lado estético da narrativa. Confrontamos a nostalgia de outros tempos, em África, e a banalidade e o caos da atualidade lisboeta, numa profunda homenagem à Arte cinematográfica com uma originalidade mágica e misteriosa, que apesar de não falar de patriotismos, nos leva a compreender, através do exemplo de todas as personagens, que possuem mentalidades e vivências distintas, a complexidade de Portugal e dos portugueses, que tantas boas histórias têm para contar. Tabu veio dar um novo impulso ao Cinema português que, sem a liberdade, não seria nada a mesma coisa.