40 anos depois do 25 de Abril, é importante notarmos tudo o que seria diferente caso este não tivesse acontecido. Na música, como em toda a produção cultural em Portugal, o cenário seria irremediavelmente diferente e certamente mais pobre. A Joana Andrade, a Alexandra Silva, o João Biscaia e o André Franco escolheram um álbum de cada uma das décadas que passaram que é uma prova viva disso. 
1974 – 1984 – À queima roupa, Sérgio Godinho

À queima roupa é o primeiro disco de Sérgio Godinho pós-25 de Abril. Não é à toa que começa com liberdade e, mesmo sem perder o lado romântico das suas canções, é um dos discos mais emblemáticos de um dos maiores cantores de intervenção portugueses. A liberdade está a passar por aqui. Cantemos com Sérgio Godinho!

http://www.youtube.com/watch?v=pixJHb4WR5s

1984 – 1994 – Dar e Receber, António Variações

António Variações é uma figura incontornável da música portuguesa. E por figura referimo-nos mesmo à sua imagem, uma pedrada no charco no Portugal democrático que em passinhos de bebé se aproximava, nos inícios dos anos oitenta, da cultura internacional.

Homem do Norte (Braga) com passagens por Angola, Londres ou Amesterdão, onde aprendeu o ofício de barbeiro, veio carregando consigo marcas culturais que não eram as dos portugueses e para as quais os portugueses olharam com estranheza.

O primeiro LP, Anjo da Guarda, lançado em 1983 foi um disco marcante – o primeiro, claro está – mas Dar & Receber tem caraterísticas únicas. O cantor e compositor encontrava-se já bastante doente (alegadamente vítima do vírus da SIDA) quando gravou o disco em apenas três semanas. Foi prouduzido por Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade e é um disco que foca temáticas nunca possíveis antes da revolução.

Canção de Engate ou …Que Pena Seres Vigarista  são temas que apelam claramente à liberdade sexual e ao amor livre, muito castigados pela “bíblia salazarista”. É também um disco de letras riquíssimas carregado de metáforas das dores agoniantes de quem se sabe à beira da morte e que bebe em Fernando Pessoa a inspiração para o tema Receber, com poema do próprio poeta.

É um disco que marcou uma geração e influenciou as gerações seguintes por misturar de uma forma única vários géneros musicais e contribuir para a renovação da música portuguesa, deixando um legado eterno.

1994 – 2004 – 3.º Capítulo, Da Weasel

Os anos 90 viram Portugal mudar completamente a sua fisionomia. O país dobrou uma esquina: a entrada na CEE estava consolidada, mas as desigualdades ampliavam-se; os divórcios aumentaram, enquanto a natalidade sofreu tendência oposta. O hip-hop chegou dos Estados Unidos, no princípio da década, e os Da Weasel fizeram dele o punk possível. Gostos discutem-se, mas o mérito tem de ser dado: as letras do Pacman preencheram o vazio de intervenção que faltava no panorama da música portuguesa, saturada de canções inconsequentes e telenovelescas. 3.º Capítulo talvez seja o melhor exemplo. Os Da Weasel já tinham algum estatuto, quando o álbum saiu, em 1997. “Todagente” é o hino condescendente que toda a gente precisava de ouvir. “Casos de Polícia” denunciava os abusos das forças policiais nas rádios nacionais e “Tudo na mesma” a realidade dura dos subúrbios. Fizeram a diferença. Isso é que interessa.

2004 – 2014 – Roque Popular, Diabo na Cruz

Um álbum que causou moderada mediação aquando o seu lançamento, Roque Popular é um registo que combina as novas tendências rock com os elementos mais tradicionais e típicos da cultura portuguesa. Todo o disco acaba por atuar como uma inteligente sátira aos costumes e tradicionalismos do nosso país. O seu tom geralmente bem humorado acaba por contrastar com as letras irónicas e ácidas. Se fosse antes do 25, Roque Popular passaria por algumas dificuldades quando confrontada com a Censura!