A oitava incursão cinematográfica das famosas personagens criadas por Jim Henson consegue mesmo ser uma das melhores: Marretas Procuram-se volta a colocar no grande ecrã toda a magia característica deste universo, acrescentando piadas mais modernas e números musicais arrojados e divertidos, que atribuem novos contornos e gargalhadas para as novas gerações.

Além de ser uma sátira com algo de genial à sua condição de sequela (da sequela, da sequela, da sequela…) do filme original que transportou, pela primeira vez, os Marretas do pequeno para o grande ecrã, Marretas Procuram-se tem a história repetida tantas vezes em comédias e dramas dos mais variados tipos: Cocas e a sua companhia teatral contratam Dominic Badguy (Ricky Gervais), um manager que os convence a fazer uma tournée pela Europa. Ao mesmo tempo, Constantine, um criminoso muito semelhante a Cocas, foge da prisão e toma o lugar do líder dos Marretas, fazendo com que o outro sapo seja capturado. A partir daqui, sucedem-se uma série de peripécias cómicas, musicais e sentimentais (e aqui é que não podemos esperar grande originalidade), que aproveitam os lugares comuns para lhes atribuir um toque especial.

Marretas Procuram-se não tenta infantilizar demasiado os bonecos de Jim Henson, como fez o seu predecessor, de 2011, até à exaustão. Há uma tentativa de regresso às origens, às mais implacáveis e subtis referências humorísticas à cultura e sociedade americanas, patentes no fabuloso número musical de abertura que abre a obra (meu Deus, eles tiveram a coragem de fazer piadas com a própria Disney, que produziu o filme!). E se a música do primeiro capítulo desta “ressurreição” das lendárias figuras populares já era deliciosa, aqui volta a ter a sua graça e o seu encanto muito próprio, por “culpa” de Bret McKenzie (da brilhante série Flight of the Conchords), que mais uma vez compôs as canções hilariantes e geniais que nos fazem bater o pé e sorrir descontroladamente.

O filme pretende não desiludir, apesar de ser, assumidamente, a repetição de um conceito e de uma marca que todos conhecemos, e da qual criámos uma imagem inalterável (aliás, nessa música inicial ouvimos algo como: “We’re doing a sequel/ That’s what we do in Hollywood/And everybody knows/the sequel’s never quite as good”). E aqui não há lugar para desilusões: Marretas Procuram-se faz “tudo outra vez”, mas isso não o impede de ser um festim de alegria, música e fantasia irónica, que sabe que é um filme para toda a família, tratando os espectadores com dignidade e grande divertimento (ou seja, não se trata de um filme miserável e desinspirado, e potencialmente aborrecido e entediante para maiores de… três meses). Todos encontrarão coisas para adorar neste filme.

E claro, como não podia deixar de ser, um filme que tenha os Marretas como protagonistas terá, obrigatoriamente, de incluir muitos e bons special guests. Aqui, vão desde Gervais a Tina Fey, passando pelas participações mais reduzidas (mas não menos inesperadas), de personalidades tão diversas como Ray Liotta, Danny Trejo, Christoph Waltz, Salma HayekLady Gaga e tantos outros. Talvez com algumas delas encontremos aqueles momentos mais ridículos e estereotipados que dão um certo exagero “exagerado” às tentativas de humor levadas a cabo pelos convidados. Mas no fim de contas, conseguem estar todos muito bem, e condizerem perfeitamente com o espírito da fita.

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Tem uma história clássica de enganos, que aproveita os estereótipos para nos fazer rir, com inteligência e delicadeza (entre os quais, destaquem-se os clichés pateticamente hilariantes que se colocam a diversas nacionalidades e línguas do mundo). E talvez a narrativa possa também proporcionar algumas pequenas surpresas, para além daquelas que o vastíssimo e riquíssimo leque de piadas nos consegue proporcionar. Podem esperar ainda a recuperação de temas intemporais que fazem a mitologia “marretiana”, desde o amor entre Gonzo e a sua querida galinha, e o casamento eternamente inconcretizável entre o sapo Cocas e Miss Piggy. É um feito cinematográfico do qual, certamente, Jim Henson ficaria orgulhoso, porque segue da melhor forma o seu legado e as suas ideias inovadoras que marcaram a cultura americana e o modo de se fazer comédia na indústria do entretenimento.

É melhor que o filme anterior e, provavelmente, um dos melhores títulos do franchise, por recuperar o espetáculo e a originalidade dos Marretas sem se esquecer das suas raízes, possuindo todas as características que um filme dos Marretas deve ter para poder ser, além de uma fita com essas personagens e histórias muito próprias, uma boa obra. E perdoam-se as mensagens sentimentalonas típicas (para agradar a miúdos e graúdos mais sensíveis), ao mesmo tempo que se saúda a revisitação ao lado Broadwayesco da série televisiva e dos grandes números musicais.

Marretas Procuram-se reaviva a nossa fé nos clássicos e o ceticismo que se propaga quando se pretende ressuscitar algum legado demasiado importante para a nossa cultura. Divertido e espirituoso, é no fim de contas, uma comédia simplesmente espantosa, que não pretende ser o melhor filme do mundo, mas cumprir com o espectador o “pacto” que muitas outras “ofertas” deste mercado do Cinema tendem a esquecer: a de fazer render o dinheiro que se investiu numa ida ao Cinema, um recurso cada vez mais caro e pesado para os orçamentos familiares. Porque, se se juntarem alguns euros para se gastarem num filme assim, será totalmente um investimento proveitoso.

Marretas Procuram-se mostra como a “idade” deu a este universo o direito de poder rir-se de si próprio, e dos convencionalismos que criou à volta da série televisiva e dos vários filmes que maravilharam os espectadores nas últimas décadas. Os portugueses podem optar por duas versões do filme, que estarão disponíveis nas salas: a original legendada em português, a que o Espalha-Factos assistiu, e a versão com a dobragem nacional. Não sabemos como foi feita a adaptação das vozes para português, mas se os Pais tiverem crianças que já saibam ler, não hesitem em adquirir bilhetes para uma qualquer sessão em língua inglesa, onde poderão ouvir atores e bonecos com as vozes pelas quais tão bem os recordamos.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Muppets Most Wanted

Realizador: James Bobinn

Argumento: James Bobin e Nicholas Stoller, a partir do universo criado por Jim Henson

Elenco: Ricky Gervais, Tina Fey, Ty Burrell

Género: Aventura, Comédia, Crime

Duração: 107 minutos