Aviso prévio: este artigo não foi visado pela Comissão de Censura. Nem poderia ter sido – foi já há 40 anos que a ditadura portuguesa, iniciada a 28 de maio de 1926, desapareceu.

A madrugada do dia 25 de abril de 1974 trouxe com ela a liberdade e fez apagar os traços do Lápis Azul da censura, que se faziam marcar nas folhas dos jornais, as quais eram diária e criteriosamente analisadas pelas Comissões de Censura. Extinguia-se, assim, a expressão “visado pela censura”, que figurava nas primeiras páginas da imprensa escrita.

A censura não se limitava a cortar palavras. Ela cortava ideias. Suprimiu notícias e livros; anúncios publicitários e pinturas nas paredes. «Em média, 27 artigos por edição tinham pelo menos um corte da censura», revela José Pedro Castanheira, jornalista no semanário Expresso e um dos oradores do segundo painel de convidados da conferência «A ditadura portuguesa. Porque durou, porque acabou», que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, nesta terça e quarta-feira.

48 anos de opressão

A violência repressiva e, “particularmente, a preventiva – aquela que é invisível” e omnipresente -, a fidelidade política das Forças Armadas em relação ao regime, a cumplicidade da igreja católica, o corporativismo – que controlava o operariado – e o projeto totalitário do regime são, para Fernando Rosas, os ingredientes que formam a receita da longevidade da ditadura salazarista. O Estado Novo “durou através da dominação das consciências”, afirma o professor de História Portuguesa Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa (UNL).

A Guerra

Portugal era “um país de retratos de grupo e imagens cinzentas, em que é rara a iconografia da denúncia” da repressão. A análise é de Jacinto Godinho, doutorado em Ciências da Comunicação pela UNL. Um tempo “que se conhece, mas que não se vê”, conclui.

Porque acabou?

“A guerra foi o factor determinante para o fim da ditadura” – quem  o diz é Joaquim Furtado, reconhecido jornalista e repórter – a figura que, na madrugada de 25 de abril, leu o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas no Rádio Clube PortuguêsJoaquim Furtado é responsável pela série documental A Guerra, transmitida pela RTP entre 2007 e 2013 e que retrata precisamente o período da guerra colonial, que Portugal viu acontecer entre 1961 e 1974.

Esta conferência resultou de uma parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian e a RTP, casa de nomes como os de Luís Marinho e Maria Flôr Pedroso, que participaram em algumas das palestras que decorreram ao longo destes dias 22 e 23 de abril. Reuniu universitários, investigadores e jornalistas, bem como os próprios atores políticos, sociais e culturais da época em estudo. Os momentos altos foram transmitidos pela RTP Informação.