40 anos passados desde abril de 74, 40 anos de liberdade e de democracia. O que a revolução trouxe, o que permaneceu, o que mudou e o que permanece por mudar. Embrulhe-se tudo isto numa caixinha de música e eis Depois da Revolução, o mais recente espetáculo em cena no Teatro do Bairro, em Lisboa.Uma série de figuras em palco, harmoniosamente combinadas e unidas pelas suas vozes. Não há nomes nem distinções. Nem são precisas. Eles são um só. São o povo português. Começamos por ouvir frases típicas do quotidiano, desabafos e lamentações que escutamos diariamente em conversas num qualquer café. A vida continua (cada vez mais) difícil, mesmo depois de todos os anos passados desde o 25 de abril. Mas não, esperem: já não é o povo português em palco agora. Ou será? É o povo inglês após a revolução industrial? É o povo francês após a revolução de 1789? Poderia ser qualquer um deles, em qualquer uma dessas épocas. Há algo de transversal a todas as revoluções e àquilo que as motiva – ao povo. O povo é sempre o povo: incompreendido, explorado, desamparado, desiludido mas que, apesar de tudo, mantém sempre a esperança num futuro melhor, numa revolução. Esta peça procura seguir precisamente essa voz, tão ouvida mas tão pouco escutada: a voz do povo.

António Pires chega-nos com um espetáculo musical que não pode ser chamado de revista, mas também está muito longe de ser um espetáculo de Broadway ou um cabaret. Em palco temos quatro atores que se misturam e confundem com um coro, composto por 12 ótimos cantores, e uma banda, que os acompanha musicalmente. As harmoniosas vozes interpretam, em consonância, canções originais – a criação artística e musical esteve a cargo de Luís Bragança Gil – mas também, hinos de grandes vultos da música de intervenção, como por exemplo Os Vampiros, de Zeca Afonso.

Depois da revolução

O texto de Luísa Costa Gomes é um bom complemento à natureza essencialmente melódica da peça, mas um dos aspetos mais fortes acaba por ser a coreografia: a incorporação de movimentos do trabalho camponês e operário, do custoso suor do labor, em sincronizadas danças, de uma forma tão pura e simples, funciona engenhosamente bem. Assistimos portanto a um excelente trabalho a nível técnico.

Criativamente, várias ideias foram desenvolvidas de uma maneira muito interessante e, em diversos momentos, somos levados a soltar boas gargalhadas, graças a algumas pitadas de humor inteligente – a hilariante e provocadora cena da divisão da Esquerda ou a jocosa cena que retrata a “solidariedade” são alguns exemplos.

Particularmente bem conseguida está a representação do medo, do modo como se desenvolve e cresce dentro de nós, de forma subtil, oculta, mas incrivelmente poderosa. O espetador consegue, ele próprio, sentir o poder do medo, sentir o medo, em todas as suas nuances, a apoderar-se de si. O medo captura e enclausura-nos até nos convencermos de que não existe volta a dar. Mas existe; existe sempre. Como se fariam as revoluções, se assim não fosse?

Depois da Revolução

Na sua essência, Depois da Revolução é (literalmente!) um suspiro cantado. Passando por diferentes revoluções da História mundial, o musical constrói um paralelo com a situação atual da sociedade portuguesa. Ao deslocar-se até ao Teatro do Bairro para ver esta peça, o espetador irá seguir e partilhar os anseios, os desgostos e as desilusões do povo, testemunhar teatralmente o seu desamparo e acompanhá-lo na busca de um rumo, da verdade, de um caminho mais sorridente.

No momento em que se assinalam os 40 anos daquela que foi das revoluções mais significantes de sempre no nosso país, que transformou radical e irreversivelmente a vida de todos os portugueses, Depois da Revolução é a peça para assistir e, simplesmente, refletir.