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8 1/2 – uma masterclass e o inédito de Orson Welles

O oitavo dia da Festa do Cinema Italiano contou com a presença do diretor de fotografia Vittorio Storaro, que deu uma masterclass no Cinema São Jorge, e a segunda passagem de Too Much Johnson, o filme inacabado do realizador de Citizen Kane que esteve perdido durante várias décadas, e que foi recentemente descoberto em Itália, na cidade portuária de Pordenone, e apresentado numa cópia digital restaurada pela George Eastman House, em Nova Iorque.

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Vittorio Storaro é um dos mais conceituados diretores de fotografia da História do Cinema. Trabalhou com vários realizadores, entre os quais se destacam Francis Ford CoppolaBernardo Bertolucci e Warren Beatty. Foi galardoado por três ocasiões distintas pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, com Apocalypse Now, O Último Imperador e Reds, tendo sido apenas nomeado pelo seu impressionante e extravagante trabalho na adaptação cinematográfica das histórias aos quadradinhos de Dick Tracy, um filme realizado por Beatty. Neste momento está a preparar mais um projeto com o cineasta Carlos Saura, e na sua passagem por Lisboa, falou do seu trabalho e do novo livro que elaborou, The Art of Cinematography, uma obra que destaca 150 diretores de fotografia essenciais para a Sétima Arte.

Numa masterclass apinhada e concorrida, Vittorio Storaro explicou as suas influências e o modo como criou momentos visualmente inigualáveis que marcam os filmes que têm a sua assinatura. Mas o seu objetivo primordial, patente também através do livro apresentado, foi dar a entender aos espectadores a importância que merece ser atribuída aos diretores de fotografia, criadores do impacto que os grandes filmes acabam por criar na nossa memória. Storaro defendeu que, tal como os argumentistas e os realizadores, os diretores de fotografia têm de ser reconhecidos como autores de Cinema – porque sem o trabalho específico que elaboram para cada fita, o Cinema seria muito diferente e não teria tanto interesse estético como as imagens dos trabalhos desta personalidade evidenciam (recordem-se os fabulosos momentos finais da odisseia de guerra e poder de Apocalypse Now, ou a poesia do império decadente de O Último Imperador).

A paixão de Vittorio Storaro pelo seu trabalho e pelo Cinema foi notória nesta apresentação interessante e reveladora do outro lado das câmaras, que tendemos, injustamente, a deixar de parte. Com simpatia e acessibilidade, Storaro contou os maiores segredos da sua Arte e da convivência com os realizadores com quem colaborou. Desde O Conformista aos trabalhos mais recentes com Carlos Saura, tudo foi explorado a pente fino, deixando a plateia deliciada com a sua sabedoria e as técnicas que este “autor da luz” utilizou para criar cenas intemporais e que marcam grandes inovações no Cinema.

Too Much Johnson – Orson Welles [1938]

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Depois da passagem pela Cinemateca, no dia anterior, o filme perdido de Orson Welles foi apresentado, com grande expectativa, na esplendorosa Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. E o que é que tem esta preciosidade, considerada perdida durante várias décadas, que se possa enquadrar com a programação da Festa do Cinema Italiano? Pois bem, o filme foi encontrado numa cidade italiana em 2008, numa cópia em bom estado de preservação (ou pelo menos, melhor do que se estava à espera), que foi encaminhada para os EUA em 2013, onde foi restaurada meticulosamente (tentando “salvar-se” as partes mais visivelmente degradadas deste filme). Foi pela primeira vez apresentada ao mundo no Festival de Cinema Mudo de Pordenone, em outubro passado, e nas exibições em Lisboa, teve um fabuloso acompanhamento musical, ao piano, por Filipe Raposo.

Não é uma obra cinematográfica propriamente dita, sendo mais uma experiência inacabada e uma cópia de trabalho que mostra como faltava ainda muita coisa por terminar (em várias cenas são-nos apresentados vários takes alternativos, por exemplo). E Orson Welles não queria lançar Too Much Johnson como um filme próprio, mas estava pensado ser o acompanhamento visual para um espetáculo teatral que o futuro cineasta estava a preparar com a Mercury Theatre. Mas a peça, que era uma nova encenação de uma comédia de William Gillette, escrita em 1894, nunca chegou a ser verdadeiramente concretizada. Mas felizmente, resistiu às armadilhas do tempo este testemunho da criatividade de um autor e da vivacidade e talento dos atores que o acompanharam no seu percurso artístico (sendo Joseph Cotten o mais famoso de todos os outros membros do grupo Mercury).

Too Much Johnson data de 1937, era em que o Cinema mudo já estava morto e enterrado graças ao aparecimento do sonoro (uma novidade ainda algo recente para aquela época). E o que Welles pretendeu foi homenagear as grandes comédias slapstick desse período do Cinema, com uma série de mecanismos humorísticos e fílmicos muito bem engendrados e planeados. A atenção ao pormenor do realizador é incrível: vemos todas as características das comédias mudas a “ressuscitarem” graças a este pequeno filme, e se não soubéssemos toda a sua história, diríamos que se trataria de um objeto contemporâneo dos êxitos burlescos e de comédia física dos atores que Mack Sennett transformou nas maiores estrelas do mudo.

A história deriva da mais convencional comédia de enganos, vigarices, amores e adultérios, mas não deixa de ser muito divertida e inventiva, possuindo gags eficazes e deliciosos. Estão aqui os alicerces da imaginação que levaria Orson Welles a começar, poucos anos depois, uma carreira ímpar na História do Cinema, que não se resume só, felizmente, ao seu filme mais popular e vulgarmente considerado como o melhor de todos os tempos. Mas por ser uma experiência tão invulgar e por se tratar mais de um filme em construção do que uma obra cinematográfica propriamente dita, é difícil, e injusto, avaliá-la como tal, e atribuir-lhe uma nota numérica revela-se uma tarefa árdua e impossível de resolver.

Too Much Johnson tem mais interesse para os cinéfilos e admiradores da obra de Welles, mas felizmente, não se trata pura e simplesmente de uma peça museológica que agrada só a ratos de biblioteca (ou de Cinemateca, neste caso). Há coisas que o grande público poderá gostar de ver, e apesar desta obra não primar pela coerência da sua estrutura (não nos esqueçamos, mais uma vez, que o filme está inacabado!), tem como principal característica o lado bonito da sua historieta de amores e desamores, e as consequências que os sarilhos da personagem principal (interpretada por Cotten) desencadeiam em todos os sítios por onde passa. É um filme experimental (nos takes que contemplamos, vemos Welles a tentar filmar de várias maneiras e com algumas variações em cada cena, para poder depois decidir qual é a filmagem que coincidiria melhor com os seus objetivos), algo amador, mas muito desconcertante (e isto pelo lado positivo), levantando o véu a mais uma faceta desconhecida de um génio do Cinema multifacetado, intemporal e sempre atual. Porque sem experiências como esta, o cineasta não poderia ter evoluído da mesma maneira, nem os seus filmes teriam sido feitos tal qual os conhecemos Hoje.

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