Formados no final de 2012, os Wolf Lips são a banda de rock «sem merdas» de Vera Rodrigues (voz), Mário Fonseca (guitarra), André Cabrita (baixo) e Vasco Ramos (bateria). Fizeram parte dos Novos Talentos FNAC 2013 e estão prestes a lançar o seu primeiro EP, Hardcore, que apresentam como «um cartão de visita urgente de quem quer defender a dama do rock e acredita nas guitarras como um instrumento de salvação do mundo.» O Espalha Factos esteve à conversa com a vocalista e o guitarrista da banda e descobriu que estes quatro músicos não têm papas na língua e querem, no mínimo, dominar o mundo.

Como é que surgiram os Wolf Lips?

Vera Rodrigues: Eu tive a ideia. Queria uma banda de rock puro, nada de muito elaborado. Alguma coisa entre o rock que se faz atualmente e o dos anos 70. Falei com uns amigos – o Vasco, que é o baterista, e com o André, que é o baixista. Tivemos um guitarrista numa primeira fase que não deu resultado, e uma semana antes de começarmos a gravar [o single Hardcore], entrou o Mário.

Mário Fonseca: Sim, foi um desafio. A uma semana da gravação a Vera telefonou-me completamente em pânico porque não queria perder a marcação do estúdio. Ela enviou-me as músicas, eu ouvi e gostei, e comecei logo a fazer umas coisas.

V: Ao princípio não sabíamos se ia ser permanente ou se era só para safar a gravação. Depois como ele gostou, compreendeu mesmo o feeling da banda e fez os arranjos exatamente como nós tínhamos idealizado, pensámos que ia resultar e ele acabou por ficar.

Vocês já tinham experiência passada no mundo da música?

V: Tive uma banda também com o Vasco e com o André, mas foi uma brincadeira. Era uma coisa mais folk. Mas nunca achei que era exatamente aquilo que queria e nunca esteve planeado para sair da garagem. Fui também promotora de bandas. Andava a comer pelas beiradas, como costumo dizer, antes de fazer o que queria, que era ter a minha própria banda.

M: Eu já viro frangos há muitos anos. Em vários estilos – tanto sou guitarrista barulhento como no dia a seguir estou no piano a acompanhar alguém a dizer poesia. Mas os meus projetos anteriores foram mais ou menos como aquele anúncio da TMN da banda que não saía da garagem. Tal como a Vera disse, nunca eram mesmo o que queria.

V: O André é o mais experiente, já anda nisto há vinte anos, teve imensas bandas e tocou com várias pessoas. O Vasco também teve algumas bandas, mas coisas que nunca saíram da garagem. Esta é a primeira banda de todos que está a ter alguma visibilidade.

Segundo anunciaram na página de Facebook, o vosso EP, Hardcore, já está gravado. Para quando o lançamento?

M: Acabámos de o gravar há um mês, estamos agora a tratar da parte gráfica.

V: Íamos fazer uma edição de autor mas entretanto tivemos uma proposta de uma editora, a Raging Planet, e claro que aceitámos. Têm um catálogo de bandas com as quais nos identificamos. É uma editora indie, portanto vai de encontro ao ideal que temos para a banda.

M: Por isso o EP atrasou, mas sairá em breve. Será um cartão de visita e o formato será uma coisinha bonita.

 http://youtu.be/HrpDDbLnMuo

Têm andado a fazer concertos com bandas como The Quartet of Woah, Besta, We Buffalo. Eles estão a ajudar-vos a crescer? Há bandas portuguesas atuais que vos influenciem?

V: Nesta indústria da música quando uma pessoa quer fazer algo fora daquilo que é o sistema é muito difícil. Os Quartet of Woah têm um percurso muito interessante nesse sentido. Eles conseguiram vincar-se enquanto, para mim, a melhor banda de rock em Portugal hoje em dia, à parte de todo o sistema. É isso que eu também quero para a minha banda. Claro que quando o guitarrista deles nos propôs fazermos um concerto em conjunto nós dissemos que sim. É uma banda que nos inspira por estas razões e pela sonoridade, eles são excelentes músicos. Honestamente eu não revejo o estilo de música que fazemos nas bandas atuais que estão a ter alguma visibilidade em Portugal. Mas claro que há bandas que respeito e de que gosto imenso, como os You Can’t Win, Charlie Brown, os peixe : avião.

M: Por exemplo no meu carro tenho neste momento a tocar o Fast Eddie Nelson.

V: Ele é uma excelente referência. Tocámos no palco dele no ano passado na festa do Avante! e realmente é uma boa influência. Ele toca mesmo aquele rock sem merdas que é absolutamente genial. Parece que estamos num bar no Arkansas.

Quais são os vossos objetivos para o futuro?

M: Dominar o mundo, claramente. (risos)

E antes disso?

V: O objetivo é conseguir vingar dentro do nicho onde estamos inseridos. Ser ouvidos. Adorava exportar a minha música. Cá em Portugal honestamente há pouca coisa que queira fazer – não há muitas rádios com visibilidade onde possamos tocar, além de que cada vez há mais nichos alternativos a ser criados em redes sociais, mais eficazes que os meios de comunicação tradicionais. Não quero ser injusta, há pessoas que nos apoiam imenso e que compreenderam muito bem a nossa música: por exemplo o Paulo Garcia e o Ricardo Mariano da Radar, a Joana Dias da Antena 3.

M: E essas pessoas não só gostam como nos têm acompanhado à medida que vamos fazendo lançamentos, e vão dando a opinião.

V: Mas claro que gostava de dar concertos, porque acho que aquilo que penso está espelhado em muita gente do país, em variadíssimas de cidade cheias de cultura, principalmente no Norte do país. Acho que o norte tem um grande potencial e talento, tem muita juventude e pessoas que procuram coisas diferentes.

Já estão a pensar em gravar um álbum?

M: Sim, já há uma ideia concreta. Temos músicas para isso, estão cada vez mais com uma identidade definida. Estamos com maior entrosamento na banda, está tudo a seguir um rumo muito saudável. Agora vamos rodar as músicas na estrada e ter novas ideias para perceber o que funciona melhor em concerto.

V: Aliás a Raging Planet quer um álbum até ao final do ano, mais ou menos. Vamos tentar cumprir esse prazo.

wolf lipsVocês gravaram o primeiro single (Hardcore) ao fim de apenas sete meses de existência e com muito poucos concertos no historial, e conseguiram imediatamente boas críticas e uma presença nos Novos Talentos FNAC 2013. Como é que explicam este percurso tão rápido da banda?

V: Foi rápido e, como eu disse ao Nuno Markl [no programa 5 Para A Meia Noite], foi tudo atirar o barro à parede. Nós não tínhamos absolutamente nada, só vontade. E eu tenho lata para ir falar com as pessoas diretamente. Foi exatamente assim que fiz, e fiz praticamente tudo pelo Facebook. Sou desempregada, mas, ao contrário do que a Isabel Jonet diz, eu passo muito tempo lá a promover o meu próprio empreendedorismo.

M: É preciso acreditar mesmo no produto que tens, para o enviar às pessoas.

V: Sim, claro. E óbvio que tive reações péssimas. Contactei por exemplo um radialista que fora da rádio tem uma editora. Ele disse-me claramente que não ia passar a minha música porque um ano antes no festival Paredes de Coura, quando eu ainda não tinha banda própria, falei mal de uma banda portuguesa da editora dele que estava a ouvir. Fiz isto num post no meu facebook privado. É assim que isto funciona.

Esse sistema de “amiguismos” é a razão para terem ainda poucas atuações ao vivo?

V: O mercado em Portugal está muito saturado. Se formos ver o cartaz de um festival, ou até de espaços noturnos com música ao vivo, são constantemente os mesmos a tocar nos mesmos sítios. Ou então são bandas desses músicos, ou representadas por eles. Além de que as bandas em Portugal que têm alguma expressão são imitações de Vampire Weekend misturado com Tame Impala, a cantar em português com letras ridículas. Ou é isso ou é o Trovador. Portanto sim, também vem daí. Para além disso, nós ainda não planeámos os nossos concertos porque eu estive parada até março, tive um cancro. Mas estamos agora a planear, a tentar conciliar datas.

Vera, depois da tua doença estás neste momento a organizar um evento informativo sobre o cancro. Em que é que vai consistir?

V: Tenho estado a prepará-lo com o Artur Peixoto, da Everything is New. É um evento informativo e educativo que vai acontecer em junho, em princípio no dia 28. Já temos várias bandas de destaque confirmadas, mas ainda não posso falar sobre elas. Vamos ter também vídeos que estão a ser feitos pelo Carlos Afonso [autor da personagem Bondage, repórter das Noites Marcianas]. As pessoas vão ter, para além de música, vários espaços que vão desde a medicina tradicional às terapêuticas adjuvantes e instituições voluntárias, no fundo tudo o que está relacionado com cancro e tudo o que um doente oncológico (e não só) pode precisar de saber. Queremos ter também uma unidade móvel de rastreio.

M: A intenção não é a recolha de donativos. Queremos é difundir a informação.

V: O que eu percebi com esta minha viagem pelo cancro foi principalmente a falta de informação que eu tinha. E a minha ideia é fazer disto um evento jovem, porque é difícil um evento sobre o cancro ser apelativo a um público jovem e a famílias. Quero que seja ao ar livre e que as pessoas possam ir, divertir-se, ouvir música, comer e beber, e ao mesmo tempo levem informação realmente útil para as suas vidas e as vidas de familiares. Quero que não se esqueçam do que estava no evento e do que lá foram fazer.