O Espalha-Factos esteve presente na apresentação do novo livro da poetisa, ensaísta e tradutora mexicana, Blanca Luz Pulido, intitulado Caderno de Endereços: Antologia de poemas 2005-2012. O evento teve lugar no passado dia 16 de Abril, pelas 18:30h, na Casa da América Latina, e contou com a presença da poetisa colombiana Lauren Mendinueta. Nuno JúdiceAna Luísa Amaral também estiveram presentes e declamaram poemas da antologia juntamente com Blanca.

De modo a melhor conhecer a autora e a essência deste livro, o EF esteve à conversa com Blanca Luz Pulido

EF: Libreta de direcciones ou Caderno de Endereços é uma antologia poética que abrange sete anos, de 2005 a 2012 mais precisamente. Como descreve o seu desenvolvimento enquanto poetisa e também a nível pessoal durante este espaço de tempo?

Blanca Luz Pulido: Penso que publiquei três livros ao longo desses anos. Este surgiu primeiramente de uma antologia que publiquei anteriormente por altura do Festival Internacional de Poesia, em Costa Rica. Foi editado em 2007, se não me engano, e fui convidada para me apresentar nesse festival com outros poetas. Contudo, no ano passado foi-me proposto um projecto pela editora mexicanMantis Editores que consistia em traduzir obras para para português. Eu escolhi este mesmo livro pois Caderno de Endereços parecia-me representar uma espécie de “mostruário” através de outros livros meus e acabou por se tornar numa antologia muito pessoal. É marcada não só por um assunto linear e cronológico mas também por um leve brincar com os temas que queria sublinhar como sendo importantes para mim. É o caso dos objectos materiais que utilizo, digamos assim, para interrogar a realidade de uma forma simples mas que se revela mais complexa quando realmente observamos atentamente. Se existe algum desenvolvimento na minha poesia, centra-se especialmente no modo como este abordar das coisas simples e que sempre me interessaram se intensificou.

EF: O nome desta antologia, que também dá exactamente nome a um dos poemas, está relacionado com o abismo no tempo que sentimos quando nos deparamos com objectos do quotidiano, como é o caso de um velho Caderno de Endereços que contém memórias antigas. De onde surgiu esta ideia para o título do livro e porquê?

BLP: O próprio livro está organizado por ordem alfabética como se os poemas fizessem parte de um verdadeiro Caderno de Endereços. Penso que todos eles possuem uma ligação, uma espécie de harmonia entre eles e pretendia com isto que eles próprios tomassem um arranjo mais livre. Mas em relação à pergunta, de onde sai essa obsessão pelos objectos do quotidiano… todos vivemos rodeados de objectos no dia-a-dia, servimos-nos deles, mas dificilmente nos apercebemos de que a vida é feita especificamente desses objectos do quotidiano, de pequenos instantes. O passado que surge materializado naquilo que nos rodeia tem uma importância imensa…

EF: Como é o caso de um antigo Caderno de Endereços.

BLP: Sim, ou por exemplo, quando partimos um copo. Ou quando olhamos para uma porta mas não nos apercebemos que toda a vida é isso mesmo, atravessar portas.

EF: Em relação ao seu percurso académico e profissional, estudou tradução de português na Universidade de Lisboa e traduziu escritores portugueses como Nuno Júdice. Como define a sua ligação com Portugal e com a língua portuguesa?

BLP: Eu era nova, adolescente, e uma amiga recomendou-me os fados de Amália Rodrigues

EF: O seu poema “Cansacio” é até uma homenagem a Amália Rodrigues e à sua canção “Cansaço”.

BLP: Sim, sim, é verdade! Não sei como me esqueci de o ler na apresentação (risos). Mas sim, é mesmo uma canção esse poema. Outros escritores, que não conhecem Amália, não conseguem bem perceber em que consiste. Penso que a minha ligação com a poesia, com a música portuguesa, tem uma história muito longa, já data de 1999, exactamente quando estudei em Lisboa. Consegui estudar na Universidade Clássica, um curso de cerca de oito meses para tradutores estrangeiros, e antes frequentei um curso intensivo de Verão para ter condições de estudar aqui. Adorava a Amália Rodrigues, apesar de não compreender grande coisa do que ela cantava. Sentia a emoção, percebia algumas palavras. Também já escutava música brasileira e isso facilitou-me o caminho de aprender a língua portuguesa. É uma língua difícil, parece fácil mas não é, apesar das semelhanças com o espanhol que se revelam enganadoras.

EF: Então a sua ligação com a língua portuguesa passa muito pela musicalidade.

BLP: Sim, para mim a poesia é música. Mesmo um verso livre, verso branco, tem música interior. Cada poema cria a sua própria forma e a sua própria musica. Liberdade na poesia consiste em encontrar a música de cada poema.

EF: Quais são então as suas influências literárias no panorama português?

BLP: Desde Pessoa a Ruy Belo, passando por Eugénio de Andrade Carlos de Oliveira. Sinto que ainda não li tudo o que tenho de ler pois gosto muito da poesia portuguesa no geral. A musicalidade, o rigor, a profundidade nas capas da realidade que não estão bem oleadas à primeira vista. Uma certa atenção e até sensualidade, gosto muito! A poesia que comecei a ler em 2000 quando estive cá em Portugal, poetas portugueses, poetas amigos meus no México, que escrevem muito sobre o quotidiano mas com um olhar que atravessa o próprio quotidiano… comecei a ser influenciada por eles. Poemas que parecem muito sensíveis, transparentes, mas que escondem assuntos, temas, obsessões particulares.

Neste assunto, gosto muito dos poemas de Nuno Júdice. Há um poema dele de que gosto muito que refere que o poeta é “um trabalhador do tempo”, uma metáfora interessante… para mim o poeta é um trabalhador da língua. Quem é o poeta não deve importar, mas sim o poema em si próprio. Um professor meu referiu um dia uma coisa muito interessante que sempre guardei comigo, uma espécie de lema. O poema deve ser algo que podemos encontrar no chão, sem data, sem nome de autor. Não interessa a personalidade do poeta mas que o poema tenha sempre algo a dizer.

EF: E no panorama mexicano e internacional?

BLP: Tantos! Gosto muito dos poetas mexicanos do circuito contemporâneo, poetas muito interessantes como Xavier Villaurrutia, Carlos Pellicer, José Gorostiza. E da minha geração, Antonio Deltoro, Alicia García Bergua, Tedi López Mills, Pura López-Colomé. Também gosto de poesia francesa, espanhola. A minha poesia tem muitas influências, é como um rio, vai fluindo e é difícil identificar exactamente quando comecei a ser influenciada por algo.

EF: Por último, qual é a sua relação com o seu país natal e como é que esta se traduz na sua escrita?

BLP: É mesmo a raiz da minha poesia. Reflicto o meu país em muitos dos meus poemas mas a poesia para mim, a poesia que me interessa realmente, reflecte muitos lugares. Considero que a poesia deve ligar os sentimentos, os pensamentos de todos os homens. Uma poesia muito local não me atrai. O meu desejo passa por reflectir as preocupações modernas, contemporâneas, de muitas pessoas e não ficar cingida a Portugal, ao México ou a qualquer outro pais.

EF. Podemos então encarar o México como um ponto de partida mas nunca como uma fronteira.

BLP: Exacto, e isso está também ligado às viagens, que é o tema de muitos poemas. Uma viagem abre as portas da imaginação, possibilidades de ver a vida de outra forma, traz outra luz, outro ambiente, outra geografia. Não é fácil penetrar num sítio para além de um modo turístico e conseguir captar a sua essência mas penso que toda essa geografia do mundo deve entrar na poesia para abrir a paisagem transmitida ao leitor.

*Este artigo foi escrito, por opção da autora, segundo as normas do acordo ortográfico de 1945