No antepenúltimo dia da sétima edição da Festa do Cinema Italiano, homenageou-se Antonio Tabucchi, e dois filmes muito diferentes foram exibidos nas salas do Cinema São Jorge. Mas ambos têm um objetivo em comum: mudar a forma como o Cinema é visto, e o significado que os espectadores atribuem às imagens em movimento.

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Antes das sessões do dia, foi apresentado um livro inédito, lançado a título póstumo, do autor de Afirma Pereira e de tantos outros romances emblemáticos: Para Isabel tem a chancela das Publicações Dom Quixote (a editora de sempre de Antonio Tabucchi em Portugal), e em sua honra foi preparada uma sessão de lançamento digna da grandeza do escritor, onde houve até uma brilhante leitura encenada de um excerto do dito romance com direito a… solos de saxofone! Falou-se da ligação de Tabucchi com o Cinema, e foi ainda apresentado o documentário de 2003 Tristano e Tabucchi, uma reflexão sobre o processo de criação e escrita do romance Tristano Morre, que o autor publicaria no ano seguinte.

Rua Castellana Bandiera (Via Castellana Bandiera) Emma Dante [2013] – 8/10

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O primeiro de três filmes a serem projetados nesse dia foi este, enquadrado na secção Panorama. Um conto claustrofóbico e perturbante, onde duas mulheres são postas à prova… devido à sua própria teimosia. Vejamos: a estreia na realização da elogiada encenadora Emma Dante, com a adaptação do livro homónimo que escreveu, começa com situações banais entre dois mundos muito distintos que, minutos mais tarde, irão colidir de uma forma arrepiante. Com uma narrativa digna de Hitchcock (na forma de se conduzirem os elementos que elevam a tensão do filme, não no estilo cinematográfico – felizmente…), Via Castellana Bandiera é uma visão aparentemente minimalista, mas metaforicamente humana e universal, sobre os efeitos de uma pequena situação ridícula em toda uma comunidade, onde uma série de consequências desconcertantes e imprevisíveis são desencadeadas devido a uma disputa que não tem qualquer tipo de fundamento.

Grande parte da ação do filme passa-se numa rua, e nessa rua, centra-se em dois carros, que estão um contra o outro. Cada uma das condutoras não quer deixar a outra passar – e isto vai criar uma disputa que alguns vizinhos seguirão atentamente. Alguns aproveitarão o sucedido para fazerem uma aposta enganosa, e outros envolvem-se demais no caso, deixando-se levar pela escalada de dramas que se irão suceder. Parece pouco? Emma Dante transforma isto tudo em algo do outro mundo, que desafia aquilo que queremos ver em Cinema, e muitas das convenções que já estão estabelecidas, até à exaustão, na contemporaneidade.

Está filmado em estilo documental, e aqui esse mecanismo não é utilizado só “porque está na moda” fingir que é tudo uma ilustração da realidade – com o lado sufocante e angustiante que  Via Castellana Bandiera desenvolve, esta faceta é muito bem utilizada e combina da melhor forma com as intenções desta história tão absurda e, ao mesmo tempo, tão cativante. Porque todas as histórias individuais das personagens (e as tensões entre os dois grupos representados) não passam apenas de uma camada superficial para dar espaço ao conflito inexplicável entre duas mulheres, que testam a sua persistência até aos limites do impossível. E para retratar isso como pretende, Emma Dante faz tudo como se fosse uma analista da vida animal… visto que aqui, as consequências tornam proporções de caráter realmente animalesco.

Este é um perfeito exemplo de como uma história pode partir de um conceito simples, banal e corriqueiro, e não deixar, contudo, de ser única, subtil e inovadora. Com toques de violência psicológica e dos grandes close-ups dos western spaghetti de Sergio Leone (nestes quadros, só faltam mesmo os sons de Ennio Morricone), Via Castellana Bandiera é a estreia auspiciosa e brutal na realização cinematográfica desta encenadora, que soube brincar com o modo teatral de se contar uma história, ao aproveitar o clímax que só em palco se consegue obter, combinando-o com a claustrofobia que só o grande ecrã sabe provocar.

A Minha Turma (La Mia Classe) – Daniele Gaglianone [2013] – 9/10

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Quando se junta um ator famoso (Valerio Mastandrea) a um grupo de estudantes reais de italiano, que abrange as mais diversas faixas etárias, culturas e escalões sociais, o resultado pode parecer previsível… ou talvez não. O que Daniele Gaglianone nos proporciona é um ensaio fabuloso sobre a desconstrução do real cinematográfico, e dos vários níveis de ficção que uma história pode embarcar. Numa luta constante entre a encenação e o documentário (ou provavelmente, será uma coisa ainda mais complexa do que isso), La Mia Classe questiona o poder do Cinema e atribui-lhe novas componentes, brincando com a perspetiva do espectador num estilo que nos faz lembrar a proeza, meio documental e meio ficcional, que Abbas Kiarostami alcançou com o seu admirável Close-Up, de 1990.

Mas o realizador italiano vai mais além da quebra dos limites descoberta por Kiarostami, porque o filme desenvolve-se em duas fases: numa, acompanhamos o dia a dia dos estudantes e as aulas, mais ou menos bem humoradas, que são leccionadas pelo seu professor bem disposto e preocupado com os problemas dos seus alunos; noutra, vemos o trabalho de bastidores, e as contradições que esta suposta “realidade” dentro da narrativa influenciam as decisões tomadas na ficção que está a ser filmada. Mas se a parte dita “real” também é ficcionada… onde pára mesmo a veracidade, nesta experiência alucinante de voltas e reviravoltas cénicas e labirínticas? E há ainda outro problema – segundo o cineasta, houve elementos reais que acabaram por ser parecidos com alguns caminhos seguidos pela fita, aumentando ainda mais a contradição entre as personagens ficcionais, as “realistas” e as completamente verdadeiras.

A verdade, aquela que não temos qualquer dúvida que É a verdade, encontra-se nos depoimentos dos alunos, e nas histórias tristes que nos contam, sobre as suas vidas nos seus países de origem, e as coisas boas que a imigração lhes conseguiu trazer, tal como as dificuldades que sentem com a língua e outros aspetos relacionados com a Itália. Debatem-se, nas aulas, questões sociais e domésticas importantes a ter em conta, para os “forasteiros” poderem viver com dignidade neste país que os acolheu.

Mas, quando já estamos a acreditar em alguma coisa, La Mia Classe contra ataca, e recorda-nos que tudo aquilo foi filmado e manipulado. Podem existir histórias reais, mas elas foram recriadas para o ecrã. E os dilemas meta-ficcionais da produção, que se adensam à medida que começam a surgir maiores encrencas à volta dos atores-alunos, tornam o percurso mais acidentado e turbulento, condicionando com mais força a ficção, dentro da ficção, envolvida numa tripla ficção que se quer chamar de realidade… ficcionada. Não sabemos o que dizer ou o que pensar, mas sentimo-nos agradavelmente traídos com toda esta ilusão dupla, tripla, ao quadrado, ao cubo, o que seja. Brincaram connosco, a partir da facilidade com que caímos em cada ratoeira preparada por Daniele Gaglianone. E são estas características tão fascinantes que tornam este projeto, tão arriscado e tão invulgar, num dos títulos essenciais desta edição do Festival.