Um filme com um espírito interessante, mas que acaba por ser mais um exemplo enfadonho da repetição exaustiva de uma fórmula recorrente dos dramas modernos de Hollywood: O Que a Maisie Sabe chega esta semana às nossas salas.

Esta é uma adaptação contemporânea do romance homónimo de Henry James, em que vemos um divórcio desenrolar-se e os pais Susanna (Julianne Moore) e Beale (Steve Coogan) a afastarem-se mais da sua filha de seis anos, Maisie (Onata Aprile), através da qual percecionamos o drama mundano que se gira naquele pequeno núcleo familiar. E enquanto os pais se distanciam, Maisie começa a ficar dependente dos novos companheiros de ambos: Lincoln (Alexander Skarsgård), o namorado da mãe, e Margo (Joanna Vanderham), a antiga ama que se tornou a mulher de Beale.

É o típico drama familiar à americana que, tal como milhentos outros exemplos dos últimos anos, tenta seguir o rasto emocional e trágico de Kramer Contra Kramer, distorcendo apenas os contornos originais da narrativa – mas sem conseguir afastar-se com sucesso do original. Aqui dá-se mais importância aos padrastos e à visão da criança em relação aos acontecimentos tristes que se sucedem e a dividem em relação aos pais.

Contudo, depressa se caem em facilitismos: se Onata Aprile é uma ótima escolha para o papel (destacando-se muito pela positiva em todas as cenas que não envolvem choro, gritinhos histéricos e outras conveniências lacrimejantes), infelizmente ela não servirá para mais do que, pura e simplesmente, atribuir uma carga emocional forçada que poderá fazer as delícias de quem gosta deste tipo de mecanismos dramáticos estereotipados e usados até à exaustão.

Portanto, isto constitui, de facto, uma reviravolta que destrói as intenções iniciais: se começava a ser interessante, e até refrescante, olhar o divórcio mais pelos olhos da miúda (uma visão diferente da do olhar adulto, já que ela consegue apanhar mais coisas do que os crescidos possam pensar), ela acaba por ser posta de lado, em parte, para seguir os caminhos mais cansativos, vulgares e óbvios que este género de histórias costumam seguir.

Mesmo que exista um reflexo das novas relações parentais do século XXI (com todas as intrigas criadas por Susanna e Beale para se destruírem mutuamente), da construção relevante da decadência do ex-casal e da crescente deterioração da relação entre pais e filhos, O Que a Maisie Sabe não consegue ser mais do que um drama técnico e mecânico, cuja escassa beleza própria advém das soberbas performances. Steve Coogan, por exemplo, volta a surpreender como ator dramático, e Julianne Moore mostra continuar a ter a garra que sempre a caracterizou.

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Poderia ser um objeto mais aconselhável e melhor estruturado nas suas formas básicas, para se conseguir sobressair mais, com a sua história simples e que possui uma humanidade avassaladora. Mas lá está: O Que a Maisie Sabe condena-se a si própria por causa da demasiada previsibilidade da narrativa (sim, tudo irá acabar como os espectadores já estão a prever desde os primeiros três quartos de hora de filme), da onda insuportável de clichés e elementos excessivamente felizes e descontextualizados que começam a surgir em determinado ponto da história (totalmente made in Hollywood), e da condensação demasiado televisiva e nada cinematográfica que se dá ao ambiente e ao desenrolar da ação.

Para se fazer um drama moderno e credível não basta só meia dúzia de bons atores com carinhas larocas, e a menção estampada nos créditos iniciais, com grande pompa, que estamos perante um filme que tem um romance conceituado como base narrativa. Nada disso desculpa O Que a Maisie Sabe de ser um telefilme demasiado longo e por vezes monótono.

Sendo uma variação dos clássicos americanos familiares e uma visão ilusoriamente cinematográfica de um célebre romance adaptado à modernidade (em que as famílias estão até mais deterioradas do que Henry James poderia alguma vez prever), o que safa o filme é que se consegue vê-lo com prazer, a apreciar o pouco que tem de interesse no seu conteúdo.

Mas talvez esta obra seja pretexto para se voltar ao clássico protagonizado por Dustin Hoffman e Merryl Streep, e cujas características o tornaram tão especial para os anos setenta, e para a visão do Cinema das relações humanas e familiares: as “fofices” não são forçadas, nem os happy endings surgem do nada, nem há espaço para epílogos desnecessários e que só servem para encher chouriços, criados com o objetivo de não se deixar nenhuma ponta solta que possa “incomodar” o espectador que não deseje pensar no que está a ver. Pode não ser um filme perfeito, e com o tempo algum do seu impacto perdeu-se… mas não há dúvida que tem muito mais engenho, emocional e construtivo, a lidar com a delicadeza do divórcio e das suas consequências para os membros da família.

Se todos os planos são previsíveis (o que nos faz questionar constantemente: para que é que foram precisas duas pessoas para realizar isto, se no final o produto saiu sem qualquer imaginação ou interesse nesse aspeto?), O Que a Maisie Sabe é uma aposta ótima para sábado ou domingo à tarde na programação dos canais televisivos generalistas. Mas ao possuir um leque de notáveis interpretações, e algumas cenas mais bem escritas do que outras, que refletem da melhor maneira as perturbações sentimentais da menina em relação ao “desaparecimento” dos pais, consegue sair mais valorizado entre os filmes mais comuns e banais que abordam estas questões sociais.

É por isso, uma obra que representa a secção de maior “qualidade”, entre a variedade de títulos que costumam passar ao fim de semana nas referidas estações. Mas vê-lo na sala escura será completamente indiferente, porque o formato assenta muitíssimo melhor dentro da massificação de certos conteúdos televisivos.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: What Maisie Knew

Realizador: Scott McGehee, David Siegel

Argumento: Carroll Cartwright e Nancy Doyne, a partir do livro homónimo de Henry James

Elenco: Onata Aprile, Julianne Moore, Steve Coogan, Alexander SkarsgårdJoanna Vanderham

Género: Drama

Duração: 93 minutos