Estreia finalmente em Portugal o chocante documentário que retrata como poucos filmes o lado mais negro do ser humano: O Acto de Matar.

Esta longa metragem produzida por três países diferentes (Reino Unido, Noruega e Dinamarca) foca-se nos acontecimentos passados na Indonésia entre 1965 e 1966, quando o grupo de extremistas levou a cabo uma enorme perseguição aos comunistas e chineses que lá habitavam.

O realizador Joshua Oppenheimer partiu ao reencontro dos membros deste verdadeiro ‘esquadrão da morte’ para os entrevistar e lhes propor que reproduzissem os seus atos. O resultado são diálogos de cortar a respiração e imagens verdadeiramente assustadoras. Entre os entrevistados está Anwar Congo, um dos principais líderes deste movimento, um homem que matou cerca de 1000 pessoas com as suas próprias mãos e que nunca se viu perante qualquer tribunal, levando uma vida mais que normal. É neste momento que começa a evidenciar-se o quão incómodo vai ser o filme.

Uma das primeiras cenas de O Acto de Matar mostra Anwar Congo num dos locais onde efetuou a maioria das suas matanças. A pedido do realizador, Congo conta detalhadamente como era feito tal ato e alguns dos seus métodos. A forma como o ex-gangster (como o próprio se apelida) o faz é tão banal que se torna chocante e imoral, pois não parece haver qualquer vestígio de vergonha ou de culpa no seu sorriso.

Juntamente com Anwar são igualmente chamados ao filme outros ex-assassinos como Herman Koto ou Ibrahim Sinik, que também não parecem carregar muito peso na consciência. É através deste pequeno grupo que se começam a reproduzir não só as suas ações mas também os seus pesadelos, o que eleva o documentário a um novo nível, mais sombrio e surrealista. A fotografia de O Acto de Matar nestas cenas torna-se mais cuidada, de modo a satisfazer os desejos dos ex-membros do esquadrão de morte que querem encenar as suas matanças ao estilo dos seus filmes preferidos, desde os film noir aos musicais.

As encenações das torturas são assustadoras e não deixarão ninguém indiferente. Ora com bonecos ora com pessoas, os assassinos de outrora vão-nos mostrando os seus métodos de torturar e matar comunistas. E, quando lhes são mostradas as filmagens, todos se mostram orgulhosos. Em paralelo a isto, é-nos retratado o dia a dia de Anwar, Herman, etc. e o quão normal ele é. Mesmo com o passado que carregam e com o sangue que têm nas mãos, todos levam uma vida em família e alguns concorrem a cargos importantes na Indonésia.

Um dos aspetos a louvar em O Acto de Matar é o seu caráter intervencionista. Num mundo onde o cinema sucumbiu aos blockbusters e aos filmes sem mensagem, o documentário de Joshua Oppenheimer é uma inconfortável demonstração do quão longe vai a crueldade humana e de como se molda o pensamento da população (vejam-se as cenas em que se mostram os antigos filmes de propaganda anti-comunista) e aponta o dedo ao Ocidente que se mostra tantas vezes despreocupado nestas situações. Mesmo no final do filme, alguns dos autores do genocídio começam a reformular o seu pensamento em relação ao que fizeram e, pela primeira vez, apresentam-se arrependidos, o que mostra o efeito que O Acto de Matar teve nas suas vidas.

É preciso ter um estômago forte para se assistir a O Acto de Matar. É algo que nunca se viu e vai aterrorizar os mais sensíveis, mas não deixa de ser uma demonstração do poder do cinema e daquilo de que é capaz o ser humano.

9/10

Ficha Técnica:

Título: The Act of Killing

Realizador: Joshua Oppenheimer

Elenco: Anwar Congo, Herman Koto, Ibrahim Sinik

Género: Documentário

Duração: 159 minutos