O vencedor do Oscar da Academia para Melhor Documentário deste ano é uma apaixonante viagem ao mundo da música, partindo à descoberta das grandes vozes que estiveram envolvidas em muitas canções inesquecíveis… mas que, infelizmente, nunca receberam a fama que mereciam. Estreia esta semana em Portugal.

São histórias de vidas que se dedicaram à música e que têm no ato de cantar a sua maior paixão. Mas em vez de se focar nos protagonistas que adquiriram fama e glória no mundo da música, A Dois Passos do Estrelato centra-se nas mulheres que fizeram História na arte dos back vocals, as vozes de apoio que deixaram a sua marca em várias gravações incontornáveis e que fazem, em muitos casos, os momentos mais memoráveis das canções que interpretaram. É uma parte sempre desprezada e ignorada do trabalho musical, e este documentário, realizado por Morgan Neville, pretende reavivar o talento destas poderosas artistas, imprescindíveis para vários dos músicos conceituados que são entrevistados ao longo de quase hora e meia de filme (onde encontramos Bruce Springsteen, Stevie Wonder, David BowieMick Jagger, entre outros), e que prestam homenagem às cantoras injustamente desconhecidas do grande público, ou pelo menos, inferiorizadas.

Através deste olhar para as personagens “secundárias” da música, e para as histórias que contam na primeira pessoa, conseguimos entender melhor a grande importância que elas têm para o impacto das bandas e dos concertos na opinião pública e na forma de se ouvir e compreender esta forma de arte, pelos críticos, pelo público e pelas próprias pessoas que fazem da música a sua profissão.

Grande parte da beleza de A Dois Passos do Estrelato reside nas lindíssimas vozes das lendárias cantoras de apoio, que contam pormenores curiosos sobre o percurso das suas carreiras, os dramas vividos nas sucessivas tentativas de procurar e alcançar a fama, e todas as razões que as levaram a gostar de cantar. O filme é o testemunho de uma cultura, de um modo de vida afro-americano, muito marcado pela importância das igrejas durante os primeiros anos de vida destas artistas, que cultivam o canto nos seus modos de evangelização, e que fazem dos coros gospel a sua imagem de marca – e que é um estilo de música ao qual ninguém pode ficar indiferente, independentemente das crenças e ideias de cada um.

Mudaram a História da música, com a sua vivacidade física e vocal, improvisando sempre com garra e inspiração e dando uma nova cor e magia ao trabalho dos personagens “principais”, que ficaram fascinados com estes talentos e entenderam o poder dos back vocals para os seus concertos. Springsteen já não consegue passar sem elas (veja-se a fabulosa cena de um concerto do autor de Darkness in the Edge of Town que encerra o filme, em que o vemos em “dueto” com uma das suas cantoras). Mas por outro lado, acompanhamos as tentativas falhadas de algumas cantoras em lançarem-se a solo… muitos anos depois de já estarem estabelecidas como artistas de apoio. São lições de vida que, por mais que sejam exaustivamente retratadas, nunca deixam de ser essenciais.

stardom

Se o documentário merecia o Oscar, aí estaríamos a entrar numa zona de debate perigosa, que pode colocar em risco a liberdade de escolha (muitas vezes pouco livre, admita-se) da Academia. Mas a escolha é justificada: percebe-se, ao ver A Dois Passos do Estrelato, o que encantou os membros que decidem quem leva para casa os tão cobiçados prémios do Cinema. Pode não ter a profundidade moral e psicológica de O Ato de Matar (que por sinal, também estreia esta semana), e possui uma atmosfera muito mais acolhedora e simpática, mais amiga do ideal muitas vezes maioritariamente aceite na Academia.

Mas o que tem o filme de especial para estar nomeado para tanto prémio? É que, além de proporcionar notáveis momentos musicais, Morgan Neville traça, com a evolução das estrelas deste documentário, e da queda de muitas delas, um paralelo com a evolução da mentalidade americana, condizente com as alterações sociais e políticas que se sentiram no país com o alvoroço das décadas de 60 e de 70. Há muito para saber, com as experiências de vida de mulheres como Darlene Wright (ou Darlene Love, como é conhecida pelo seu nome artístico), autênticas forças da natureza que levam, na bagagem da memória, os acontecimentos e oportunidades que as tornaram as “aquisições” preferidas desses músicos famosos, ansiosos por meter uma musicalidade mais profunda e potente às suas melodias.

Apesar de pouco ou nada encontrarmos aqui de cinematográfico, tem de ser elogiada a junção destes enormes talentos que, espera o realizador e suas entrevistadas, levarão os espectadores a partirem em busca do lado desconhecido da música que sempre quiseram deixar de parte. E partindo do passado e de exemplos musicais “orelhudos” que todos nós conhecemos (não será a parte de back vocals de Walk on the Wild Side, de Lou Reed, tema que abre o filme, o momento que mais pessoas se recordam?), Neville reúne velhas amigas e colegas de trabalho, que contam os dramas, as comédias e os paradoxos das suas carreiras artísticas, num misto de reality show e de reportagem televisiva que, é certo, não deixa de captar o espectador, que se apercebe da complexidade que faz o establishment do negócio da música.

A Dois Passos do Estrelato vive mesmo destas artistas, e da voz maravilhosa que têm para mostrar ao mundo (e nunca perdem uma oportunidade para tal – ainda bem, porque só se fica a ganhar, especialmente ao nível espiritual). As suas ambições, medos e felicidades são outra componente fundamental para captar o espectador através de uma perspetiva mais emocional – e não há nenhum mal nisso. Não precisa de ser o melhor documentário do mundo, bastando a sua aura muito própria e única que o consegue distinguir dos demais exemplos que seguem as mesmas (e já batidas) regras formais, com nada de Cinema e muito de televisão. E sai ainda mais valorizado porque dá voz a quem já merecia ser ouvido há muito tempo. Um filme que é um autêntico desfile de estrelas – e não são apenas as mais “famosas” que fazem parte desse estrelato.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: 20 Feet From Stardom

Realizador: Morgan Neville

Elenco: Darlene Love, Merry Clayton, Lisa Fischer, Mick Jagger, Bruce Springsteen, Sting

Género: Documentário, Música

Duração: 91 minutos