Mariana Cáceres é estudante na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e a maior parte das suas ilustrações, excepto outras bem mais coloridas, compõem-se de personagens ausentes de expressão facial, desfragmentadas ou deformadas, permitindo ao espetador mergulhar num universo insólito, mas perturbadoramente atraente, capaz de fazer qualquer um sonhar de olhos abertos.

O Espalha Factos decidiu entrevistá-la para que pudesses conhecer um pouco mais acerca da ilustração nacional e de um estilo particular que Mariana desenvolveu sem pensar muito nisso, mas que lhe permitiu ter uma imagem de marca bastante forte, única e original.

Espalha Factos: Quem é a Mariana? Qual o percurso de vida, habilitações e outras curiosidades?

Mariana Cáceres: A Mariana Cáceres é só mais uma miúda com a mania que sabe desenhar e com demasiado tempo livre que aproveita as insónias para ilustrar. Nasceu em 1992 e já tem idade para ter juízo, no entanto continua a pensar que vai dominar o mundo com a sua coleção de canetas onde só metade delas é que funciona. Estuda Desenho na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e quando não está a ser sarcástica ou a brincar com o gato, está a escrever na terceira pessoa.

EF: A ilustração é uma paixão que vem muito de trás ou é o acaso feliz da vida?

MC: Lembro-me que comecei a ganhar o gosto de desenhar com  a minha avó, quando me fartei de ser gorda e passar a tarde a ver Sailor Moon ou quando já tinha papado todas as histórias da Disney. A partir daí desenvolvi cada vez mais o bichinho de desenhar o que via ou o que imaginava e desde então não consegui parar.

EF: Qual foi o teu primeiro trabalho na área da ilustração? Foi um processo complicado ou levaste-o “na descontra”?

MC: Penso que o meu primeiro trabalho a ‘sério’ na área da ilustração foi quando recebi o convite para criar os flyers para a Feira das Almas. Como é óbvio e sendo o meu primeiro trabalho estava ligeiramente nervosa mas foi algo que acabou por desaparecer passado pouco tempo, quando continuei a fazer os flyers para as seguintes edições até hoje. Não estava de todo à espera que a concretização dos mesmos despertasse tanto interesse nas minhas ilustrações, mas de facto foi o que me proporcionou um maior desenvolvimento e que me incitou a criar e envolver-me em novos projetos.

EF: Há quanto tempo ilustras para a Feira das Almas? Como surgiu exatamente a oportunidade e o que tem significado para ti?

MC: Eu já tinha colaborado com a Catarina Querido – a headmaster da Feira das Almas – anteriormente num outro projeto que acabou por não correr como desejado. Entretanto a ideia de criar a feira foi-me apresentada ainda numa fase inicial e muito experimental e eu alinhei em ajudar com os cartazes. Já passaram quase dois anos e muitas edições da feira que continua a crescer e a animar a Taberna das Almas. É um projeto do qual me orgulho muito de estar envolvida e de poder participar quer seja na realização dos flyers  ou a expor o meu trabalho ao lado de outros ilustradores.

EF: Qual é o teu ambiente perfeito para criar e, normalmente, como é que decorre o processo criativo?

MC: Visto que não posso desenhar só quando a suposta inspiração surge é também uma questão de método e disciplina, mas geralmente prefiro desenhar quando estou sozinha, enclausurada no meu quarto a ouvir música. As minhas ideias para os desenhos surgem ao acaso, a partir de músicas, livros, desenhos animados e uns quantos filmes. Conversas de amigos ou de desconhecidos que apanho no caminho até casa. Por vezes sinto que fico completamente vazia sem ideias, mas é tudo uma questão de concentração e privação de sono para voltar a funcionar.

EF:  A tua ilustração é peculiar. Num bom sentido, claro, como aliás considero a peculiaridade em si. Porque é um trabalho diferente, original, fresco. O estilo nasceu naturalmente ou a irreverência foi pensada em algum momento?

MC: As minhas ideias para os desenhos surgem ao acaso, assim como o estilo de ilustração. Claro que não surgiu do nada mas sinceramente não me lembro nem de quando nem como aconteceu, simplesmente agarro-me a certos elementos do desenho com os quais fico orgulhosa. Posso descrever o que tento criar como uma parafernália de ideias desorganizadas que tenho na cabeça com conversas insólitas das velhas quadrilheiras à janela misturado com músicas que o meu Ipod escolhe minuciosamente quando me encontro num dia mau. Também considero importante e faço questão de seguir atentamente e de tomar como referência o trabalho e desenvolvimento de outros ilustradores a partir dos quais me inspiro para criar.

EF: Em que outros ilustradores te inspiras?

MC: Hmm gosto muito do Pat Perry, Shaun Tan, Mcbess e Aryz.

EF: As personagens que crias são totalmente despersonalizadas, com o olhar vazio, às vezes não têm boca. É intencional?

MC: Não creio que sejam completamente despersonalizadas somente porque não apresentam olhos e por vezes boca. Diria até que é através da ausência desses elementos que estas chamam à atenção de alguns curiosos e ganham vida, por assim dizer.

EF: Também tens tendência para a deformação. Há ausência de proporcionalidade e, muitas vezes, desfragmentas ou deformas. Que mensagem queres que passe? Porque essa desfragmentação e deformação passam um lado frágil das personagens, estão mais expostas, mas são também mais esquizofrénicas. Não sei se me estou a fazer entender.

 MC:  Sempre tive uma obsessão qualquer por desenhar ossos e fragmentar personagens, possivelmente faço-o como forma de compensar a quantidade de vezes que faltei às aulas de anatomia, o que me influenciou a criar personagens invertebradas ou com ossos deslocados. A fragmentação tem como propósito salientar a fragilidade das personagens sim, mas como referi anteriormente é só mais um elemento com o qual fiquei orgulhosa e faço questão de repetir como se fosse uma imagem de marca das minhas ilustrações.

EF: Reparei que tens barcos em algumas das tuas ilustrações. E a natureza também está presente em muitas. Alguma explicação para a predominância destes dois elementos?

MC: Hmm não necessariamente, a história dos barquinhos de papel é demasiado extensa por isso limito-me a dizer que sou completamente vidrada em origami apesar de não ter muito jeito para a coisa. É um elemento que acabo por inserir quase sempre que tenho a oportunidade como forma de assinatura. Quanto à natureza é só mais um daqueles elementos que acabo por repetir em determinadas ilustrações até me fartar.

EF: A primeira vez que vi o teu trabalho foi no dia 14 de fevereiro, no Out of the Box. Fiquei bastante bem impressionada! Como é que foste lá parar?

MC: A proposta para expor na primeira edição do Out of the Box surgiu através da Phizz que tem só os melhores sets de sempre e claro, aceitei o convite de imediato.

EF: Uma das ilustrações que vi lá e que mais me atraiu foi aquela em que o cubo de rubik está presente e que relembra o cartaz do evento. Mas quando questionei a organização, disseram-me que a ilustração já existia há muito tempo, que foi uma coincidência feliz teres um desenho que, de certa forma, serviu de inspiração para as sessões de noites fora do baralho. Destino?

MC: A ilustração já tem algum tempo sim, apesar de continuar a ser uma das minhas preferidas. Foi das primeiras a conter os tais barcos, neste caso não sendo um frágil de papel mas sim ‘a sério’. Foi um mero acaso a ilustração conter um quebra cabeças em nada relacionado com o evento, não deixando de ter a sua piada claro.

EF: Afastando-me um pouco do teu trabalho e aproximando-me do resto da arte em Portugal, o que é que achas do panorama actual? Quer em termos de artistas, quer no que diz respeito ao seu financiamento, que diga-se de passagem não é muito…

MC: Penso que existem muito bons ilustradores, artistas e tudo mais por os nossos lados mas é só, a falta de financiamentos e os nada incríveis recibos verdes provocam-me enjoos que me incitam a pesquisar por voos baratos para sítios onde valorizem devidamente qualquer trabalho artístico/criativo.

EF: Quais as perspectivas para o futuro? Algum projeto especial em mente?

MC: Muitas ilustrações, montes de projetos e umas quantas fanzines.

EF: Obrigada. Alguma mensagem para os nossos leitores?

MC: Tenham uma alimentação saudável, sejam responsáveis e não bebam se vão conduzir.