O espaço clandestino estava montado. Os vermelhos fortes dominam o palco do Teatro do Bairro (TB) numa sensação não de amor ou paixão, mas de obsessão e intensidade. Logo nos apercebemos que não viemos a um espetáculo de rosas, mas sim de picos. O rouge carregado contrasta com a escuridão que percorre os cantos de todo o resto da sala. Em baixo, em cima das mesas, que constituem o ambiente de café-teatro do TB, estão velas que nos parecem indicar o caminho. Iluminam, discretamente, o público que não será apenas um elemento acessório deste cabaret. O público também foi assediado por uma Maria Rueff inspirada e uma Sofia Portugal extremamente eficaz na sua performance. O toque alemão, esse, será o tempero ideal.

A voz do TB avisa os clientes, e o Cabaret Alemão começa. O foque de luz vai para Maria Rueff que dá a entrada, em alemão (a tradução é projetada), muito calmamente. Mas a calma não dura muito, felizmente. De rajada, todos ficam confusos. Rueff, Portugal e outros dois atores barafustam: será uma discussão? um debate? um discurso? uma declaração ao país? ou mais uma farsa? As respostas só começam a chegar muito depois. Agora é tempo para perceber a situação atual que catalisou este Cabaret Alemão: a crise que, por muito cliché que seja, é de valores – económicos e sociais. Assim, só naquele ambiente resguardado pelas ruas estreitas do Bairro Alto é que se podia fazer um manifesto, uma crítica social e política mais explícita do que se poderia pensar, muito reveladora. Tal como o cenário, a mensagem é forte tal como o ritmo que tanto nos faz amolecer como nos pica sem avisar.

BASTASofia Portugal e Maria Rueff em Cabaret Alemão

O barulho reina: não se perceber nada; a não ser o facto de esse ser o objetivo (as múltiplas vozes que mandam em nós e as quais já não conseguimos ouvir). Mas o silêncio vem. O cabaret, símbolo da rigidez aliada à sensualidade, torna-se aqui objeto de uma crítica feroz, fruto do acumular de situações, de frustrações e de camaleões sociais. “Pode ser perigoso estarmos aqui”, apontam as atrizes. Num diálogo direto com o público, previnem a assistência do que poderão ver naquele pequeno mas desafiador palco. Na projeção lê-se a palavra de ordem do manifesto: “basta!”

As atrizes aproveitam para apresentar a banda, mas são logo interrompidas por uma figura. Assim ao longe parece Angela Merkel, a atual chanceler alemã, mas deve ser uma ilusão de ótica, diriam os mais ingénuos. De cabelos curtos e amarelos, de estatura baixa mas rígida, de corpo definido com curvas de gordura e ainda de umas bochechas que apetecem apertar – é assim o corpo que avistámos ao longe onde se confunde com as trevas. Ou talvez isso seja só imaginação nossa.

Cá em baixo, as atrizes retraem-se no discurso revolucionário perante a figura que as observa. Altura para a satisfazerem. “Temos de nos fazer de coitadinhos”, gritam. E assim o fazem. Vem o fado na voz angelical de Sofia Portugal, vem a lamúria do povo, vem o lamento sem fim, vem a música portuguesa e os seus ‘ais’, uma sátira a tocar o humor negro que deixa o público sem ar (“atropelada / a perna ficou na estrada”), e o objetivo está cumprido. Lá em cima, a ‘velha’, como lhe chamam, está mais calma, pensam. “A culpa é nossa”, ironizam. Nossa, dos gregos, dos franceses, italianos, judeus, e de todos os ‘coitadinhos’ – tema que seria logo aproveitado para uma canção mais de intervenção do que para adormecer.

cabaret alemão“Coitados… coitados dos alemães”

Tempo para divagar sobre a Europa, e a melhor metáfora chega: Portugal, um vendedor ambulante, que chega à União Europeia – terra de automóveis e fábricas de grandiosa produção – com o seu vinho, o seu queijo, a sua cortiça… Rueff sugere até, atrevida, exportar Pessoa, “que ele tem muitas personalidades; pode ser que dê uma para cada alemão”.

Fala-se em alemães e ela regressa. Qual Adamastor, Merkel faz nova aparição lá bem no alto, no Olimpo, e deixa Rueff e Portugal sem reação. “Coitados… coitados dos alemães”, remedia Portugal. Apelida-os de bestas… por trabalharem muito. “Pobres e mal agradecidos” somos nós, os portugueses, está claro. E a lista de coisas alemãs que gostava começa a ser dita, terminando minutos depois. Rueff entra no jogo para cantarolar uma descrição dos alemães interpretando, segundo o sotaque empenhado, uma mulher do norte, sem medo. Depois do susto, respiram novamente, sem pagar imposto, uma vez que a tal figura – mítica – abandona a cena.

Cabaret Alemão impõe agora a reflexão ao público. O silêncio reina na sala acolhedora. O público entreolha-se como se não soubesse o que fazer. Espera-se. E enquanto se espera, pensa-se. Após o momento de reflexão, Rueff torna-se a estrela do cabaret com uma das intervenções-chave da noite: “antes não se falava de economia”, diz, ao mesmo tempo que são enumeradas siglas e acrónimos que se referem aos inúmeros mecanismos do capitalismo atual. Logo a seguir, crítica feroz aos políticos – “tudo gente que dá tudo pelo povo” – e a sociedade que os criou. A paródia à economia continua, desta vez aos bancos, às associações internacionais que gerem a economia mundial, e os disfarçados fascistas – que temos de beijar – do mundo capitalista. “Será que dão valor à vida?”, questionam-se. Altura para um momento mais leve com mais uma aparição de Angela: esta pede a ementa, mas a sua comunicação com o empregado de mesa acaba por ser desastrosa, mas divertida para o público.

“A estabilidade é instável”cabaret_alemão_TdB_press-2

Porém, estava para chegar o verdadeiro cabaret: a sensualidade caraterística de um Moulin Rouge, por exemplo. Então, entram uma Rueff e uma Portugal bem diferentes, mais expostas ao público, que procuram a emancipação da mulher verdadeira, e não a falsa emancipação que aconteceu, dizem. Portugal começa: “quando era pequena alguém me disse – ‘podes ser tudo o que quiseres’ – o que foi logo um problema; mas então alguma vez eu não podia?”. Segue para a descrição do dia-a-dia da mulher num brilhante jogo entre texto e expressão corporal que deixa qualquer um sem folgo. “A ideia da emancipação era esta? Nós não queremos fazer tudo”, remata.

À medida que o espetáculo evolui vamos percebendo melhor a posição ali manifestada. Através da dança sensual e do canto prolongado, Rueff e Portugal dão-nos shots de realidade aos quais não conseguimos fugir. No ecrã aparece uma imagem que nos parece um buraco negro. Talvez seja ilusão nossa, mas servia de bela metáfora para o sugar constante dos poderosos. “A estabilidade é instável”, diz Rueff algures, entre o amor romântico e a fatalidade do ser humano. Arrebata-nos, seja o tema de caráter mais político, seja o tema de maior caráter pessoal e introspetivo. A paródia atinge o nível mais alto quando, no meio do discurso de Rueff, as alucinações aparecem na forma de falas de vizinhas: “Ó Dona Rueffa, você anda com o Quim Barreiros, relata Maria Rueff falando de uma situação imaginária para denunciar – subtilmente – preconceitos.

Os momentos de palco são substituídos por um momento de improviso junto da plateia que está sentada como se fosse um café. É aí que se ouvem as melhores frases do stand up de Rueff: “senti que podia viver o Erasmus fora de tempo”; “como se dá o número a dois homens?”; “voto de pobreza e de silêncio”; ou até um manifestar de ternura, da parte de Maria Rueff, pela apresentadora Teresa Guilherme que estava na plateia, mas “isso agora não interessa nada”.

cabaret alemão

“Tudo o que é dito ao lado, é posto de lado”

Para finalizar o Cabaret Alemão, a parte mais séria do espetáculo unifica-se. A fusão entre a crítica social e a crítica política atinge o seu auge quando a polissemia da palavra ‘valores’ rapidamente nos leva para a economia, ao mesmo tempo que nos questiona sobre os nossos próprios valores. E este é só um dos exemplos. Boas ações (na bolsa?), bom fundo (de investimento?), retorno, e outras palavras continuam a polissemia safada. “Não há tempo”, cantam as duas. A correria é constante e já não há quem viva lentamente porque não se pode. E até os problemas técnicos entram na peça: uma distorção do som repentina dá aso ao comentário provocador de Rueff – “estamos a ser censurados!”

Mas finalmente a velha, a ‘outra’, a Angela, a Filomena, ou o que lhe quiserem chamar, aparece e tudo se percebe: não passa de uma portuguesa – peculiar – que veio à capital porque ganhou a lotaria e vai viajar. Após tratarem da tal senhora, Rueff e Portugal afirmam sem medo e com rigidez: “reina a aldrabice / tudo mente, tudo engana / é tudo ratazana”. E Rueff chega-se à frente para finalizar o texto: “é proibido rir, pensar, viver, respirar”. “Não é bem proibido. É mal visto. Não é visto. Tudo o que é dito ao lado, é posto de lado”, termina.

Em Cabaret Alemão, seja no guião, seja por improviso, as referências à atualidade são constantes, e é isso que o torna tão rico, cheio de sumo para espremer pela nossa mente. Desde os Mirós, passando pela situação na Ucrânia, até à celebração dos 40 anos do 25 de abril – tudo em Cabaret Alemão espicaça, e a ironia nunca deixa o palco; assim como o humor físico bem trabalhado, e nunca desperdiçado, por ambas. Cabaret Alemão não foi uma coisa de dois dias. Nota-se o trabalho de pesquisa, os pormenores (só assim teria sido possível o ‘número’ sobre os verbos que na língua alemã vêm sempre no fim) que preenchem um cabaret regenerador. Os timings roçam o perfeito, e o texto de Luísa Costa Gomes é tão corrosivos que nos deixa com mais dúvidas do que respostas. A realidade mistura-se com a ficção, e tudo se torna mais saboroso de ser digerido. Leva tempo, mas vamos lá.

Nota: 10/10

Entrevista de Maria Rueff e Sofia Portugal ao Espalha-Factos.