Mais um mês, mais uma edição da rubrica Boca de Cena. Desta feita, o Espalha Factos elege João Perry como o próximo artista cujo percurso será traçado aqui nestas linhas. No alto dos seus 73 anos, João Perry é um autêntico patriarca do teatro nacional e uma das caras mais reconhecíveis e adoradas da televisão. Atentemos à história do homem que por duas vezes recusou a direção do TNDMII, instituição onde está atualmente, neste mês de abril, em destaque com o espetáculo O Regresso a Casa.

Natural de Lisboa, João Perry (nome artístico de João Rui Morais Sarmento Paquete) nasce a 21 de julho de 1940, oriundo de uma família ligada ao teatro. Estando sempre muito ligado com a cultura do palco e sendo um profundo admirador do mesmo já em tenra idade, a sua transposição da plateia para o outro lado não tardou a ocorrer. Em 1953 entrou no espetáculo Rapaziadas, no Teatro Nacional, ainda com os seus 12 anos de idade: o início de uma carreira cheia de sucesso e notoriedade que deu ainda mais passos com Três Rapazes e uma Rapariga, peça de 1957 que pôs o ator a trabalhar com Vasco Santana.

Perry passou por África e tentou a sua sorte em França, de onde acabou por regressar para ingressar numa carreira nacional ao longo dos mais variados géneros do vasto mundo do Teatro. Desses trabalhos destacam-se Romeu e Julieta, em 1961; Joana de Lorena, em 1964, ou o Homem que Fazia Chover. Em 1960 estreava-se com Raça, o seu primeiro trabalho no ecrã prateado. Com estes trabalhos, Perry foi criando à sua volta uma certa reputação, quer pela qualidade dos trabalhos em que participava, quer pelo seu talento nato para encarnar as personagens lhe eram atribuídas.

João Perry a festejar o 25 de abril com Mário Cesariny

João Perry a festejar o 25 de abril com Mário Cesariny

Chega a década de 70 e o desejo de conhecer mais e de evoluir como agente do teatro levou a que o ator partisse rumo a Nova Iorque para estudar. Estávamos em 1971, ano onde se estreou também como encenador com a peça Stolen Words, pelo La Mama Experimental Theatre Club, um registo pessoal e inspirado em Pessoa. O regresso a Portugal surgirá eventualmente por sua vontade. Segundo o próprio, o facto de não gostar de competição e audições foi um factor predominante para esta decisão.

Em 1972, entra em Fragmentos de um Filme Esmola, a Sagrada Família, projeto de João César Monteiro que apenas se finalizará em 1977. Entretanto foi desenvolvendo trabalhos com companhias alternativas de teatro, entre as quais, o Teatro Experimental do Porto; Teatro Estúdio de Lisboa; Os Comediantes; Os Cósmicos ou o Grupo 4. Em 1978, João Perry torna-se membro efetivo da Companhia de Teatro do Teatro Nacional onde irá entrar em diversos espetáculos como Zerlina (1988), Sonho de Uma Noite de Verão (1996) – peças que também encenou – e uns anos antes, com Passa Por Mim no Rossio, cuja prestação como Almada Negreiros se tornou agora lendária.

A década de 80 foi dedicada ao cinema: Crónica dos Bons Malandros (1981), Sem Sombra de Pecado (1982) Um Adeus Português (1985) foram destaques. Em 1982, João Perry figurou também no elenco da primeira novela portuguesa de sempre, Vila Faia. A exploração do meio televisivo prolongou-se nos anos 90, com a participação em várias novelas como A Barqueira do Povo e Riscos. Em 1997, o ator sai do Teatro Nacional D. Maria II para exercer funções no Teatro Aberto. Nesta instituição, destacam-se trabalhos como (Selvagens) Homens de olhos tristes. Em 2000, o país comove-se com José Eduardo, personagem que interpretou em Ajuste de Contas, uma produção da RTP sobre a Guerra do Ultramar.

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“O Preço” (2013), um dos espetáculos mais recentes de Perry

Segue-se um período dedicado à televisão que acaba por culminar num contrato de exclusividade com a TVI, em 2008. Presença regular nas produções da estação de Queluz, o ator acabou por se consagrar como uma das caras mais conhecidas e familiares do público português. Novelas como A Outra, Deixa Que Te Leve ou Sentimentos, figuram no currículo do ator e na memória dos portugueses pelas personagens carismáticas e marcantes que interpretava. Em 2002 é-lhe atribuído o Globo de Ouro para Melhor Ator de Teatro na peça A Visita (2001).

Dono de uma voz reconhecível, João Perry gravou vários anúncios publicitários e inúmeros trabalhos de narração, entre os quais se destaca As Ilhas Desconhecidas, documentário açoriano de 2008 realizado para a televisão. Apesar de toda a sua notoriedade, o ator sempre se reservou a nível pessoal, tendo feito raríssimas aparições públicas. Segundo o próprio, “mostrar-me não é um propósito meu, é um acidente“.

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João Perry em cena como Max (O Regresso a Casa, 2014)

Atualmente desempenha o papel de Adelino Ferreira na produção da SIC, Sol de Inverno, e pode ser encontrado na Sala Garrett no novo espetáculo do TNDMII, O Regresso a Casa, encenação do notório texto de Harold Pinter onde interpreta Max, um velho patriarca de família que lida com o regresso do seu filho mais velho a casa. Podes ler a nossa crítica aqui.

Com 61 anos de uma carreira viva e cheia de variedade, João Perry tornou-se um ícone, uma instituição, uma cara adorada por um vasto público e um dos grandes símbolos do Teatro Nacional. Conhecido por ser reservado, a verdade é que esse mesmo aspeto só serve para nos concentrarmos em valorizar verdadeiramente o seu trabalho, seja na televisão, seja na tela, seja no palco. Dono de um grande talento, João Perry é sem dúvida, um dos grandes atores portugueses de todos os tempos. Aqui fica a nossa homenagem