Depois de uma divertida aula de aprendizagem de italiano, integrado na iniciativa Italiano Per Principianti, a Festa do Cinema Italiano continuou a mostrar, neste quinto dia, mais filmes das variadas secções que compõem o certame. Um deles foi a comédia Zoran, o Meu Sobrinho Herdado, a primeira longa metragem do realizador Matteo Oleotto.

 Zoran, o Meu Sobrinho Herdado (Zoran, Il Mio Nipote Scemo) – Matteo Oleotto [2013] – 8.5/10

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Mais conhecido pelos seus trabalhos televisivos, Matteo Oleotto estreia-se nas longas-metragens cinematográficas com uma comédia melancólica original e provinciana, que brinca com estereótipos criativos e cinematográficos para nos proporcionar grandes momentos de humor à italiana. Com grandes doses de álcool à mistura (o filme passa-se numa terra onde o vinho é a religião fundamental e o mote de vida da população), Zolan, o Meu Sobrinho Herdado recebeu grandes elogios na última edição do Festival de Veneza. onde ganhou o Prémio da Semana da Crítica Internacional para Melhor Filme e Melhor Ator (para a formidável performance de Giuseppe Battiston).

O filme conta a história de Paolo Bressa (Battiston), um homem desprezível, detestável e oportunista, que passa a vida a beber e a massacrar os seus vizinhos e amigos. Ele passa os dias numa taberna perto da Gorizia, em fronteira com a Eslovénia. E um dia, tudo irá mudar, quando uma tia eslovena distante morre e ele fica responsável por cuidar de Zoran, o seu sobrinho com 15 anos, aparentemente atrasado e choninhas. A princípio, Paolo despreza o sobrinho e irrita-o constantemente, até descobrir o enorme talento do rapaz para o lançamento de dardos. Depois de mostrarem o talento de Zoran num clube de profissionais do tiro ao alvo, Paolo decide inscrevê-lo no campeonato mundial da modalidade, em Glasgow. Ao vencedor é atribuído o valor de 60 mil euros, e Paolo fará tudo para que Zoran possa ganhar, para poder surripiar o dinheiro do prémio.

É uma co-produção entre a Itália e a Eslovénia, e a história do filme está muito marcada pela presença da fronteira entre os dois países, e das consequências que as duas diferentes culturas irão provocar no desenrolar desta comédia. Com um humor negro cáustico que aproveita lugares comuns para os inovar (e para nos voltar a fazer rir com ideias que já conhecemos de fio a pavio), Zoran, o Meu Sobrinho Herdado é um filme surpreendentemente encantador, pela candura das suas personagens, pela auto-descoberta que faz cada uma delas, e pelas desventuras que se sucedem e que rodeiam a demanda pela tão ambicionada quantia monetária, que faz as delícias de Paolo e que altera a sua atitude com o sobrinho – moço esse que, no desenrolar do filme, iremos perceber não ser tão estúpido assim como o seu tio pretende afirmar.

Sendo uma maravilha de delícia visual e narrativa, com uma fantástica e orelhuda banda sonora, parece mal, pelo menos na perspetiva do senso comum, elogiar um filme cómico e colocá-lo no mesmo nível de qualidade que os filmes ditos “sérios”. Mas esta não é só uma fita humorística, refletindo angústias existenciais e pequenos dramas íntimos que se disfarçam entre um ou dois sorrisos quotidianos. Matteo Oleotto, numa ótima estreia na realização de longas, aponta o ridículo das suas personagens, misturando sátira com amor, tristeza e algum ambiente que vai beber ao estilo dos filmes western. Mas este filme é mais um western de “parvónia”, enquadrando-se no dia a dia da aldeia e das poucas coisas que por lá se sucedem, sem haver saloons, tiroteios ou enforcamentos diários. Contudo, não é por isso que deixa de ser um lugar muito interessante a nível cinematográfico (talvez seja muito mais relevante do que muitas aldeolas dos filmes de “coboiada”).

Paolo é o autêntico anti-herói, que quer ser irritante, mas que tem uma dimensão muito mais identificável connosco. E adquirindo beleza na sua simplicidade e na humanidade que transporta (e que nunca chega a ser excessiva, ou demasiado falsa e bonitinha), Zoran, o Meu Sobrinho Herdado constitui uma das grandes descobertas da sétima edição do 8 1/2, pontuado pela singularidade, pelos sentimentos bem equilibrados e jogados (porque há ainda uns pequenos romances e desencontros amorosos pelo meio da trama), e pela incrível dureza utilizada para se contar uma história que quer arrancar, dos seus espectadores, muito mais do que simples gargalhadas.