Mensalmente o Espalha-Factos irá passar a destacar um autor por mês. Numa rúbrica intitulada “Autor do Mês”, serão publicados durante o mês, artigos relacionados com o escritor escolhido.  Viajamos até Penafiel por forma a conhecer melhor o autor do mês de abril: Nuno Nogueira Silva.

Espalha-Factos: Nuno, pode começar por nos falar um pouco de si mesmo.

Nuno Nogueira Silva: Não sei exatamente o que posso dizer sobre mim. Gosto de escrever, de ler, sou, como costumo dizer, um romântico, mas não é dos livros que sobrevivo. É um passatempo; uma forma que eu criei em mim de passar o tempo. Tive um amigo que me dizia muitas vezes: “É necessário encontrar algo para matar o tempo, enquanto o tempo não nos mata”. E se calhar eu fui um pouco por esta frase, desse meu amigo, que hoje não está connosco e criei um espaço para mim mesmo, para me cultivar e me ajudar a crescer. Os livros ajudam-me a crescer. De cada vez que eu leio é uma forma mais económica que eu tenho de viajar através das palavras de um ou outro autor (português ou estrangeiro). E depois há matérias que nos cativam no mundo literário. Enquanto pessoa penso que sou um comum dos mortais como todos os outros: trabalhando, vivendo, explorando o mundo, ligado à família, praticando desporto, portanto o que posso dizer é que sou completamente normal, como os outros.

EF: Há quanto tempo sonhava em ser escritor?

NNS: Bem, eu acho que nunca sonhei em ser escritor. Acho que nem hoje sonho em ser escritor. Eu comecei a escrever para o papel muito recentemente. A dada altura com a chegada das novas tecnologias (nomeadamente do computador, dos blogs e dos chats), eu senti necessidade de escrever por esses meios até porque perco muitas coisas que escrevo. Aliás muita coisa do que se pensa escrever e não se escreve perde-se e nunca mais se volta a reescrever de modo igual.
Lembro-me de uma história engraçada: a uma dada altura a meio da noite lembrei-me de uns tópicos para escrever, mas disse para mim mesmo “Não! Estou aqui tão bem enrolado no meio dos lençóis. Não me vou pôr a pé para fazer esses apontamentos”. E na manhã seguinte não existia a mesma frescura da ideia que pretendia transpor para o papel; e nunca mais consegui transcrever aquela ideia que se me deu naquela noite. Hoje quando penso em qualquer coisa, escrevo, para mais tarde me lembrar.
Há dez anos atrás criei um blog onde escrevi poemas, palavras soltas, reflexões, pensamentos, enfim, algumas primeiras frases. Esse seria o meu primeiro livro um dia mais tarde. Mas esse blog era uma forma de eu ter o meu canto com as minhas palavras, os meus pensamentos, os meus poemas. O blog chamava-se Caminhos Trocados, e a uma dada altura começou a ter um seguidor, depois dois, depois dez, depois vinte e assim foi crescendo. E todos me incentivavam a publicar o que eu lá publicava em livro. Eu nunca levei aquilo muito a sério, até que esses vinte seguidores começaram a crescer para quarenta, cinquenta e depois sessenta, que me incentivavam a que eu publicasse. A uma altura confesso que fechei o blog, tornando-o oculto ao público.
Mas comecei a pensar naquilo que os seguidores diziam. “Porque não publicar um livro?”. Confesso que desse blog, que seria o meu primeiro livro”, nunca o publiquei. E ainda hoje se encontra em rascunhos. E foi nessa altura que comecei a escrever o Amor Perfeito. Pensei para mim: “Pensamentos e poemas, ninguém vai ler. Mas já que tenho tantas pessoas a incentivar-me vou escrever então um romance.”

EF: Mas não coloca a hipótese de um dia vir a publicar esses poemas e palavras soltas?

NNS: Claro! Tenho isso tudo pronto para ser publicado. Terá o título de Cartas Perdidas. Mas digamos que o meu primeiro livro que projetei para publicar ainda não o fiz.

EF: A sua primeira obra Amor Perfeito, foi inspirada nalgum outro romance, ou num acontecimento pessoal?

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NNS: Não. Quando nós escrevemos é muito difícil não existir um cunho nosso, ou seja parte de alguma experiência ou emoção nossa, sejam estas pontuais ou vividas. Muitas das vezes para poder encarnar na personagem, sinto necessidade de ir buscar acontecimentos e até músicas diferente por forma a sentir na pele aquelas emoções que quero escrever. E nada melhor para isso, por vezes do que a música pa

ra nos ajudar a expressar os nossos sentimentos.

EF: O Nuno realmente considera-se então um romântico.

NNS: Definitivamente acho que sou um romântico incurável. Aliás é assim como muitas pessoas me veem. Mas aqueles que me conheciam fora do que escrevo não me viam dessa forma, portanto ficaram surpreendidos com o que eu escrevia: palavras românticas e tocantes.
A única pessoa que me conhece desta forma é a minha mulher. Começamos a namorar há sensivelmente 19 anos. Na altura ela estava em Paris e nenhum de nós tinha nem Internet, nem telemóveis; nessa altura eram um taboo. E a única forma que tínhamos de comunicar um com outro era pelo telefone, ou por cartas. Escrevíamos um ao outro todas as semanas, e conseguimos num espaço de seis a sete meses trocar entre nós 36 cartas. Um exemplo de um romance à moda antiga (risos).

EF: Em relação às outras três obras lançadas a seguir a Amor Perfeito, podia-me falar um pouco delas?

NNS: São três etapas diferentes. Depois de publicar Amor Perfeito, criou-se um “bicho”. Um “bicho” que é preciso alimentar. Aliás dois “bichos”: os leitores que me pedem cada vez mais palavras; e o próprio “bicho” do autor, aquele vício de escrever que é preciso continuar a desenvolver.
Criações e Pessoa foi um livro pedido para um concurso, daí elaborei um livro sobre Fernando Pessoa. Como não ficou entre os três primeiros lugares não foi publicado, por isso resolvi publicá-lo por iniciativa. E publiquei-o de um forma diferente: em vez de o publicar em livro, o que o torna muito restrito, quis ir um bocadinho mais longe através da Internet. Foi também portanto uma publicação em eBook, que não é táctil, mas que ao mesmo tempo também permite a leitura. Qualquer pessoa pode fazer o download de uma obra através da Leya ou da Amazon, e independentemente de onde a pessoa esteja no mundo, consegue ler uma obra minha, enquanto se fosse só em livro isso seria impossível. Uma das razões é relacionada com os custos (nomeadamente com os custos de encomendas). Em eBook há um preço estipulado e é a esse preço que se tem acesso à obra.
A Bailarina e o Robô Japonês tinha um projeto estipulado: eu escrevia e o meu filho tratava da ilustração. Mas ele não tem jeito nenhum (risos), portanto ficou só em livro.
250_9789899863927_o_inicio_da_iii_guerra_mundialUma obra que me deu algum fascínio de escrever foi efetivamente o Um Romance No Inicio Da III Guerra Mundial O Fim Da Europa, que me obrigou bastante a pesquisar profundamente sobre uma Europa em crise e a fazer um cálculo de uma teoria da conspiração relativamente à forma como será projetada a Europa nos próximos anos. Efetivamente, nesse romance, em 2020, a Europa deixa de ser a Europa unida que é hoje; seja de uma forma ou de outra esta acabará por se desmantelar pela forma como está estruturada.

EF: Já que esteve a falar um pouco dos eBooks, considera-os neste momento como uma vantagem para o livro, ou poderão destruir a forma tradicional como vemos um livro?

NNS: Os eBooks poderão ser um meio para atingir um fim. Mas nunca vão substituir os livros. Neste momento 99% das pessoas continua a preferir um livro a um eBook. Dentro desse de 1% estão pessoas que têm já um leque de eBooks; ninguém costuma levar um eBooks para a piscina ou para a praia. Há quem o faça, mas ainda não é muito usual. Os livros continuam e vão continuar a ser a melhor forma de ler. Porém este novo meio não deixa de ser um meio para atingir um fim, porque poderemos ter uma obra nossa disponível em qualquer parte do mundo, poderemos fazer uma publicidade muito mais ampla. Enquanto meio de transporte para um livro um eBook torna-se muito mais barato.

EF: Como se sente até agora em relação ao seu percurso como escritor? Está satisfeito ou acha que ainda tem uma longa estrada a percorrer?

NNS: Definitivamente acho que ainda tenho uma longa estrada a percorrer. Como disse inicialmente, quando comecei a escrever as minhas pequenas frases, surgiu uma pequena ideia que era “Aos 50 anos deixo de trabalhar e vou só escrever!”. Mas só aos 50 anos (risos), nunca antes. Porque acho que preciso de crescer e de aprender, e acho que nessa altura acho que vou ter mais tempo para o fazer. Ou pelo menos pensava eu.
Eu acho que o meu melhor livro nunca vai ser publicado. E eu digo isto porque o meu melhor livro é sempre o próximo. E depois de o “próximo” estar escrito, o próximo será sempre o melhor. Isso é uma forma que eu tenho de me desafiar e ao mesmo tempo de crescer em termos literários. Se o melhor livro nunca vai sair, esta é uma forma de me cultivar e de me desafiar.
Aos 50 anos queria começar a escrever para ter tempo: tempo de pesquisar muitas vezes as histórias, personagens, locais por forma a tornar a história muito mais percetível aos olhos do leitor. Eu dou por mim a perder muito tempo de investigação muitas vezes.
Tenho um saco cheio de projetos que vão aparecendo diariamente.

EF: Pode-nos dar umas pistas relativamente aos seus próximos projetos?

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NNS: Tenho vários e todos os dias nasce mais um. Tenho 3 ou 4 livros iniciados.
Um deles, praticamente concluído, é uma história infantil que é O Carro que não Sabia Andar. Mais um desafio do meu filho. Todos os carros supostamente sabem andar e portanto cria-se uma metáfora por um carro não saber andar. Temos também as Cartas Perdidas que seria supostamente o meu primeiro livro e que ainda coloco a hipótese de o publicar. Outro é o Caminhos Trocados, mais um romance, que é um género no qual me sinto mais à vontade, a falar sobre o amor, os sentimentos e as pessoas. Ainda tenho um outro projeto a nascer embora ainda esteja muito no esboço relacionado com o desaparecimento do MH370.
Ainda assim acredito que muito daquilo que se escreve nem sempre tenha que ser publicado, muitas vezes escrever é uma forma de nos mantermos em forma. Há muitos atletas que diariamente treinam, no entanto nunca vão a uma competição. Escrever é um treino. E eu treino com esses pequenos desafios que crio a mim mesmo.
Se um autor conseguir encontrar as personagens perfeitas e se introduzir na pele delas pode criar um bom livro e este pode, ou não fazer sucesso.

EF: Tem algum autor que o tenha inspirado ou de que goste particularmente?

NNS: Sim. Eu tenho alguns autores que me marcaram enquanto leitor. Um deles foi Paulo Coelho. Acho que me identifico muito com ele. Não digo que ele escreva na 1ª pessoa, mas ele faz com que sintamos a necessidade de vestir a pele das suas personagens.

EF: Na sua opinião como acha que está neste momento a literatura em Portugal?

NNS: É assim, a crise pesa um bocadinho no campo da leitura. As pessoas ou não têm paciência ou não têm dinheiro para comprar livros. Não termos um grande incentivo à leitura nas escolas primárias. A leitura vai sendo incutida nas crianças de forma muito lenta, quando deveria ser muito maior esse investimento, por forma a criar um hábito. Mesmo assim algo que não acontecia há dez anos atrás era um autor deslocar-se a uma escola para se apresentar a si e às suas obras, entrar em contacto com os alunos e até incentivá-los à leitura ou até a serem mais tarde escritores. Essa barreira já foi um bocadinho quebrada, tanto pela necessidade de os autores se darem a conhecer, como pelas escolas que também procuram introduzir o hábito da leitura; e para isso nada melhor que apresentar esses criadores de histórias.

EF: Algum conselho para os aspirantes a escritores?

NNS: Primeiro têm que gostar muito de escrever. Têm que o fazer para eles próprios. Têm que gostar de viver a escrita em cada capítulo da forma mais intensa possível. Segundo não pensem que tudo aquilo que escreverem deve sair publicado; o mais certo é que não será. Na maior parte das vezes que se tenta marcar uma reunião com uma editora, não é possível, porque muitos têm uma agenda cheia, com cinco anos à frente em relação ao ano em que estamos. Portanto nós também estamos um bocadinho atrasados em relação à disponibilidade da agenda das editoras. Por último escrevam sempre o melhor livro depois de terem escrito o primeiro livro. Isto para se aperfeiçoarem e conseguirem surpreender-se até a vocês próprios; quem sabe outra pessoa também se surpreenda e queira ler o vosso livro.