No quarto dia da Festa do Cinema Italiano continuou a mostra de filmes das secções Competitiva e Panorama no Cinema São Jorge, foi ainda exibido um clássico absoluto, As Mãos Sobre a Cidade. Com mais de 50 anos, é uma obra prima que, felizmente, não envelheceu uma ruga.

O Árbitro (L’Arbitro) – Paolo Zucca [2013] – 8.5/10

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Primeira longa metragem de Paolo Zucca, O Árbitro pega numa história trabalhada anteriormente numa curta metragem homónima, do mesmo realizador. A longa serve como um prólogo ao jogo da curta, contrapondo a difícil ascensão de um pequeno clube de futebol de uma aldeia italiana (que se reforça com a reentrada de um antigo jogador) com a carreira de um árbitro, Cruciani (Stefano Accorsi) que se deixa tentar pelos valores da corrupção. O paralelo que se faz entre estas duas histórias (e também com todas as pequenas subplots que nos vão sendo contadas, que desenvolvem a relação conflituosa entre os habitantes da pequena localidade com os seus rivais futebolísticos) marca não só uma crítica fenomenal ao sistema desportivo, mais dominado pelas influências que pelo talento dos jogadores, e cuja corrupção e batotice não acontece apenas nos grandes clubes.

A inclusão inicial de uma citação de Albert Camus (“Tudo o que sei sobre a vida, devo-o ao futebol“) pode ser considerada uma pista para a dissecação social e humana que Paolo Zucca executa nesta comédia satírica a preto e branco. Se o jogo das emoções, ambições e traições que contemplamos envolve muito mais do que o “show de bola” que podemos ver pormenorizadamente (e extremamente bem filmado) nos momentos finais da trama, então O Árbitro é o retrato de todas as componentes que rodeiam o futebol, sem serem necessariamente aquilo que mais interessa para o funcionamento do jogo… mas para a boa regulação de todos os grandes poderes que o circundam e se aproveitam desta imagem de marca das massas.

Tem um humor cáustico e estilizado que os atores tão bem sabem acompanhar e manusear, à medida que exemplificam a importância, por vezes excessiva (mas não menos realista – e hilariante!) que aquelas vidas simples e pacatas dão ao espetáculo do futebol, provavelmente a única coisa que ainda consegue animar as suas existências no meio da calma do campo. Há um certo espírito humano bonito que nos faz lembrar os clássicos cómicos italianos, centrados nas atitudes dos personagens, nas suas peculiares formas de expressar, e nas suas características que nos fascinam e nos provocam sonoras gargalhadas.

As duas histórias centrais de O Árbitro não são executadas ao acaso, e a sua junção entre os amadores e os profissionais será justificada pelos rumos certeiros e incisivos que foram dados à narrativa, demonstrando o melhor e o pior de dois mundos futebolísticos, em fases alternadas dos acontecimentos que se sucedem às personagens centrais da fita. Todas elas são peças de um intrincado puzzle que, quando são unidas, fazem uma amostra inigualável, em termos cinematográficos, do que é isso do futebol. Por isso, esta é mais do que uma comédia: Paolo Zucca demonstra as armadilhas do Poder com os truques da simplicidade, com uma sátira genial e essencial, que ridiculariza o mundo do desporto e expõe, através de perspetivas nunca tão abordadas, os problemas desta área recreativa… e empresarial. Uma das obras mais singulares desta sétima edição do 8 1/2.

As Mãos Sobre a Cidade (Le Mani Sulla Città) – Francesco Rosi [1963] – 10/10 

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Venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1963, e agora regressa numa cópia digital impecavelmente restaurada pela Cineteca Nazionale de Roma, apresentada pela primeira vez no ano passado, no mesmo certame que atribuiu a Francesco Rosi o galardão máximo da competição. Le Mani Sulla Città foi o filme que substituiu Roma, Cidade Aberta, o título restaurado que estava inicialmente previsto ser exibido neste dia. Tal não foi possível, mas a organização fez uma ótima segunda escolha: enquanto que o conceituadíssimo filme de Roberto Rossellini é já mais conhecido no nosso país, o filme de Rosi é uma pérola algo escondida do Cinema italiano, mas que possui uma atualidade fortíssima que o público português deveria conhecer.

É uma história de corrupção, política e especulação imobiliária (com demasiados paralelos à realidade portuguesa e aos diversos escândalos que envolvem a nossa classe política), que mistura personagens reais e outras fictícias – que, no fundo,  são tão assustadoras quanto os factos que nos são apresentados. Rod Steiger (de Há Lodo no Cais e Aguenta-te Canalha!) é Edoardo Nottola, um autarca inescrupuloso que vê o seu plano corrupto danificado, quando se dá a queda acidental de uma parte de um prédio da sua empreitada, construído numa zona não muito apropriada. Graças às influências dos grandes grupos económicos, a construção foi feita, mesmo que ela tivesse riscos para a população (e a má qualidade da construção, que provoca o acidente, põe pessoas inocentes em causa).

Este drama irónico e cínico, sobre a política dominada por interesses mafiosos no sul de Itália, tem uma atualidade tão grande que, se fosse hoje novamente realizada, não se precisaria alterar nada no argumento: todas as frases, palavras, vírgulas e afins condizem perfeitamente com as máfias que nos rodeiam hoje, e com a turbulenta e não menos corrupta situação social e económica que estamos a atravessar. Os grupos privados sobrepõem-se aos interesses e serviços públicos, que deveriam ser as principais funções do Estado, em vez destas medidas de obras públicas manhosas e duvidosas que, em Portugal, são o pão nosso de cada dia.

Há quem resista ao “invasor” corrupto e malicioso, e esta facção está representada nas minorias e na voz que proclama as críticas que se fazem ao governo. É a voz de De Vita, um deputado que esquece a sua cor política e percebe que os problemas que Nottola e companhia estão a causar são muito mais importantes do que as simples concorrências partidárias que se contestam em todas as sessões da assembleia. Foi o único papel no Cinema de Carlo Fermariello, que era um político na realidade, e percebia muito bem a pouquíssima ficção que transporta este conto burocrático, político e moral.

Apontando intrincadamente o ridículo do escândalo político, e as suas consequências para a sociedade, Le Mani Sulla Città é um exemplo puro de Cinema político, e provavelmente, um dos melhores filmes sobre a sociedade e seus mecanismos de funcionamento. Francesco Rosi sabe interessar-nos pela história, e ao mesmo tempo assusta-nos com o rumo das personagens, com a banda sonora arrepiante, com a montagem prodigiosa e com as coisas que impedem que a justiça funcione… e que estão mais próximas de nós do que imaginamos à partida, fruto de um sistema viciado que gira sempre à volta do dinheiro.

Pode parecer ter um sinal de esperança, mas no final, tudo volta ao mesmo, apesar de nem todos alinharem na dança de cadeiras do poder e de falsas aparências que vemos acontecer. No fim de contas, continuamos a não saber em quem podemos confiar, nós, piões inocentes de uma partida de xadrez descontrolada e desequilibrada. Com enormes interpretações, esta é uma lição de integridade, oposta à sede de liderança, não se afastando, contudo, da realidade e não partindo para idealismos exacerbados. Infelizmente, tudo o que vemos em Le Mani Sulla Città é uma história verídica, onde a moralidade parece não existir nestas mãos que controlam a cidade e fazem dela o que bem entenderem. Para elas, este filme parece ter um happy ending. Para nós, é apenas a continuação da tragédia quotidiana em que vivemos. Uma película urgentíssima que mereceu mesmo ser ressuscitada.

O Intrépido (L’Intrepido) – Gianni Amelio [2013] – 8/10

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A mais recente obra de ficção do realizador de Lamerica e O Ladrão de Crianças foi incluída na secção Panorama, e vai voltar a ser exibida em Lisboa no dia 16 às 22 horas, e depois passará com o Festival por Coimbra e Porto. É talvez uma das histórias mais bonitas e invulgares desta edição do 8 1/2, não deixando de refletir, contudo, os problemas reais do presente. Antonio Albanese é Antonio Pane, um homem desempregado que ganha a vida… a substituir outras pessoas nos seus empregos, em dias que elas não podem exercer a sua profissão. Ele faz de tudo e mais alguma coisa, todos os dias, e apesar de não estar na melhor situação, consegue sempre olhar para o lado positivo das coisas e mostrar um grande sorriso nos lábios, mesmo que tudo à sua volta esteja prestes a ruir e que as desgraças caiam em cima da sua cabeça.

É esta personagem exemplar, para as dificuldades do dia a dia, que gere toda a ação de L’Intrepido. É uma personagem politicamente incorreta para a sociedade egocêntrica e oportunista em que se insere, proporcionando sequências narrativas humanas e originais que podem comover os mais fortes. Tem os seus desequilíbrios, mas é a prova de que Gianni Amelio ainda pretende filmar boas ideias e histórias criativas, depois de ter feito tantos e bons filmes.

Uma obra contagiante, encantadora e cheia de vida, que reflete a importância de resistir face à tristeza, mesmo que a pressão social só dê mais motivos para se perder o sorriso que temos nos lábios. Porque em todas as situações, a felicidade está sempre perto, à espera de ser encontrada e apreciada.