O Espalha Factos esteve na esplanada de um café no Jardim da Estrela numa tarde de Primavera que se afigurou ora soalheira, ora chuvosa. A conversar connosco, esteve Salvador Menezes, um dos seis membros do aclamado coletivo português You Can’t Win, Charlie Brown, que lançaram há pouco tempo o seu segundo álbum, Diffraction/Refraction. Falou-se do processo criativo, de como foi reimaginar um dos álbuns mais notórios de sempre (Velvet Underground and Nico), planos para o futuro, e muito mais. Tudo isto para ler já a seguir.

EF: Vocês são uma banda numerosa. Como é que é o vosso processo criativo? Criam as vossas melodias e composições em conjunto ou existe uma divisão de tarefas?

Salvador: Nem um nem outro. Depende sempre das situações, mas normalmente a ideia base vem sempre de um membro da banda. Imagina que o Afonso, o João ou eu fazemos uma base. Essa pessoa envia a base para o resto da banda e a partir daí explica um bocado o que é que estava a pensar para a música e o resto da banda adiciona as tais camadas ou elementos que faltam. Isto é a regra geral, se bem que neste novo disco acabou por funcionar de uma maneira diferente porque apesar de haver sempre uma pessoa que faz a base, depois acabámos por trabalhá-las mais em conjunto. Ou seja, encontrávamo-nos e discutíamos o que é que a música estava a precisar ali naquele sítio. Por isso acaba por funcionar mais ou menos das duas maneiras.

EF: Acham que as vossas músicas são o culminar da mistura das vossas influências e afluências musicais?

S: Acho que no fundo quando tu fazes qualquer coisa tu tens sempre para trás todas as influências quer más ou boas que foste aprendendo. Como nós somos seis há várias influências.

EF: São aquelas seis personalidades…

S: Exactamente. E isso aí acaba sempre por se mostrar. Tem-se sempre um bocado disso porque faz parte da tua evolução como pessoa e como músico.

EF: Com este segundo esforço [Diffraction/Refraction] nota-se que vocês acabaram por adicionar mais camadas, criando um som mais denso e tridimensional. Os elementos electrónicos também estão [ainda] mais proeminentes. Isso foi algo deliberado ou simplesmente acabou por ser uma evolução natural?

S: Nós nunca fazemos nada muito delineado. Nunca há uma intenção muito forte de dizer: “vamos fazer uma música assim“. Ela acaba por surgir naturalmente. Tudo o que acontece acaba por surgir naturalmente, nunca é uma coisa forçada e por isso é que essa evolução desde o Chromatic até a este disco foi uma coisa que não foi relativamente pensada. Nem sequer sentimos que estava a haver uma diferença entre um e outro. Foi uma evolução natural que nos levou para aquele caminho.

EF: E ficaram satisfeitos com o resultado?

S: Sim, sim! Bastante satisfeitos!

EF: Já agora, qual é o significado daquela capa que escolheram para o disco?

S: Não tem assim um significado em específico. Nós tínhamos uma ideia que mandamos ao nosso designer depois de termos acabado o disco. Queríamos uma capa mais simples, mais minimalista e mais séria que a outra. Achávamos que eram as palavras que descreviam mais ou menos este nosso novo trabalho e a partir daí o Pedro Gaspar, que é o nosso designer, e o João Paulo Feliciano (o dono da Pataca Discos) sugeriram umas obras do Rui Toscano que talvez funcionassem para aquilo que nós queríamos. Depois o Pedro fez a proposta de duas capas e nós depois tivemos a ideia de ter dois nomes, “Diffraction/Refraction” que dava um nome para cada lado da capa. E a ideia vem toda a partir daí.

EF: E por acaso, de certa, forma, até acabam por combinar com a sonoridade do álbum. Uma imagem límpida, cuidada…

S: Exato. Ele ouviu o álbum e tentou arranjar uma capa que ilustrasse aquilo que lhe tínhamos falado.

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EF: É também um álbum com melodias bastante meticulosas, bastante cuidadas. Consideram-se uma banda perfeccionista?

S: Sim, bastante. [risos]

EF: Demoram muito a fazer o disco?

S: Não… quer dizer, depende. A fazer o disco demorámos algum tempo, porque nós não fazemos só música, também temos o nosso trabalho e por isso só compomos nos tempos livres. A gravação em estúdio foi muito rápida, foram duas semanas, menos as vozes. Essas demoraram um bocadinho mais, mas como sabíamos que a pessoa que nos ia misturar o disco só ia ter tempo mais para o fim do ano, gravámos as vozes com mais calma. Mas na fase de composição tanto há músicas de 2011 (que foi quando saiu o Chromatic) e que compusemos logo, como há outras que só foram fechadas em 2013 quando já estávamos a acabar o disco. Por isso a composição do disco demorou dois anos até finalizar completamente as músicas todas, mas a gravação do disco foi bastante rápida.

EF: E o que é que vos inspira em geral quando estão a criar música? O que é que inspirou este álbum novo?

S: Não te sei responder a isso. [risos]

EF: Então é mais ou menos aquilo que vos dá na gana, não é? Vem do momento? [risos]

S: A inspiração é uma coisa muito difícil de explicar de onde ela vem. Se soubéssemos de onde é que ela vinha, íamos buscá-la mais vezes. Tens uma ideia e trabalhas a partir daí, mas não sabes bem de onde é que ela apareceu. [risos]

EF: E durante as gravações do disco, vocês não têm nenhuma história engraçada que queiram partilhar? Algum episódio insólito que tenha acontecido que acabou por ficar no disco?

S: Sim, temos vários. Na I Wanna Be Your Fog, por exemplo. Ouvem-se lá uns takes de percussão que foi o Tomás, o Afonso e eu que fizemos sem saber o que é que íamos gravar. Pegámos em várias coisas, até garrafas de cerveja e gravámos dois takes. E esses takes estão lá inteiros, não editámos, não fizemos nada, deixámos estar. Ouvem-se lá umas maracas, uns reco-recos, garrafas de cerveja, uns copinhos, um cowbell, ouve-se tudo lá e isso são uns dois takes juntos que foi do género, “‘bora experimentar pôr aqui mais qualquer coisa“. E experimentámos.

S: Também temos um engano do Tomás na Won’t Be Harmed, mas é muito subtil. Há uma parte na bateria – vai ser um bocado difícil escreveres isto [risos] – há uma parte na bateria em que o bombo está a fazer “pum, pum, tuca, tuca, pum pum, tuca tuca” e ele na gravação a certa altura está a tocar e a fazer os “pum pum” e escapa-lhe um dos bombos e ficou só “puuum“. E nós aproveitámos só esse bombo e a partir daí transformámos a música e o baixo e os outros instrumentos, estava tudo a acompanhar e criou-se ali uma transição nova a meio da música. E assim de repente, não me lembro de mais nenhuma.

EF: Ninguém caiu, ninguém se aleijou? [risos]

S: Não, não! Por acaso não. [risos]

EF: Ainda bem, felizmente! [risos] E o que é acharam da recepção do público nos concertos de apresentação? Como é que sentiram a recepção do público em relação aos novos temas nos espetáculos ao vivo que têm dado?

S: Tem sido muito, muito boa. Melhor do que estávamos à espera. Quer seja da crítica ou público, temos tido uma ótima recepção. Penso que o CCB foi um bom exemplo disso. Não esperávamos que ficasse tão cheio. Não achávamos que fôssemos uma banda que conseguíssemos quase encher o CCB. Esperávamos um bocado mais de metade da sala, mas nunca a quantidade que estava lá. E isso é importante porque dá-te vontade de fazer mais e melhor.

EF: E como foi a experiência de tocar na íntegra o álbum Velvet Undergroud and Nico no Lux? São fãs da banda?

S: Sim, sim! Essa experiência, no fundo, serviu para trabalharmos mais em conjunto. Foi um desafio e nós gostamos sempre de desafios. Normalmente não costumamos rejeitar estas coisas, gostamos sempre tentar perceber se a banda consegue ou não ultrapassar estes desafios, e deu-nos um gozo gigante. Demos dois concertos, um em Lisboa no Lux e outro em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor e foi muito bom.

EF: O álbum acaba por fugir um pouco àquilo que é o registo habitual da banda. Houve alguns desafios envolvidos na recreação das músicas?

S: Todas as músicas deram trabalho. Nós quando começámos a fazer estas versões dos Velvet, dissemos “vamos fazer isto como uma banda normal. Vamo-nos juntar os seis e fazer isto em ensaios“. E começámos a fazer e as músicas não estavam a soar nada bem. Como o Afonso costuma dizer, estavamos a soar a “banda de casamento” a fazer versões de Velvet Underground. Porque tu quando fazes versões dos Velvet e começas a tocar com vozes muito bonitinhas e com guitarras bem tocadas e afinadas de repente aquilo não vai soar bem e nós ficámos um bocado assustados, mas depois conseguimos arranjar uma maneira de dar a volta.

S: Tivemos de trabalhar de outra maneira. Não podemos trabalhar em ensaios porque percebemos que não estávamos a conseguir, não estava a soar bem e tivemos de mudar de estratégia. Cada um gravou as coisas em casa e íamos trocando uns e-mails com umas ideias, íamo-nos juntando na casa do Afonso e íamos vendo umas coisas. Nós gravámos o disco todo primeiro antes de o aprender a tocar. Gravámos música a música e íamos a casa do Afonso, que no fundo, foi o produtor das versões que não existem [em físico]. Quer dizer, nós a certa altura chegamos a lançar duas versões para o público.

EF: Houve algum tema que se mostrou particularmente teimoso ou desafiante?

S: Não… Todas elas funcionaram bem, acho eu. Cada uma funcionou à sua maneira.

EF: Visto que recriaram o álbum inteiro, acabaram por ficar a conhecê-lo ainda melhor. Existe alguma favorita, pessoalmente?

S: Eu tenho uma favorita, sim. Para mim é a Black Angel’s Death Song. Para mim é a nossa versão mais bem conseguida. Mas ao vivo, por exemplo, a Heroin, apesar de não estar muito diferente da original, ao vivo tem uma força que é impressionante. Ficamos até espantados quando estamos a tocar, sentimos mesmo uma força enorme. E a culpa não é nossa, é dos Velvet. [risos]

EF: Sim, é uma música incrível. O álbum inteiro é espetacular… E se vocês pudessem repetir a experiência qual seria próximo álbum que os You Can’t Win, Charlie Brown reimaginariam a seguir?

S: Isso é muito complicado dizer… Para já, entre os seis, para escolher um álbum ia haver batatada [risos]. Nesta situação até foi o Pedro Ramos que escolheu e nós dissemos “Tudo bem! É melhor assim. Todos gostamos deste álbum!” E foi muito bem escolhido.

EF: E no teu caso específico?

S: No meu caso específico?… Não sei, um álbum de Tom Waits talvez poderia ser engraçado. Podia ser Talking Heads… até chegámos a falar disso nessa altura. Beatles não digo porque os Julie & The Carjackers já fizeram o Revolver, nem Beach Boys porque os Minta [and Brook Trout] já fizeram (o aclamado Pet Sounds, de 1966).

EF: Já agora, que andas a ouvir mais recentemente? Algumas recomendações para os leitores do Espalha Factos?

S: Eu ultimamente tenho andado a ouvir muito, muito pouca música. E isso até me assusta um bocadinho [risos]. Alias, no último ano foi quase só ouvir o disco. Quando estamos a compor, no meu caso, deixo de ouvir outra música para me concentrar a 100% naquilo. Mas este ano… não sei… tUnE-yArDs, por exemplo, foi uma das últimas bandas que me impressionou, assim que eu me lembre de repente. Gosto muito de St. Vincent também. Apesar de achar que o álbum anterior está melhor, este novo não está mau. Espero conhecê-la no Primavera Sound. [risos]

EF: Vocês estão inseridos numa grande onda de nova música portuguesa. Têm aparecido coisas bastante interessantes. Gostaríamos de saber qual é o próximo passo a nível de internacionalização, por exemplo. Já foram ao SXSW, já andaram em digressão com os PAUS fora do país. O que é que achavam de assinar por editoras estrangeiras?

S: O que achávamos? Achávamos bem. [risos] Isso é sempre um objetivo, ter uma editora internacional que nos distribua a música internacionalmente. Mas nós nunca pensamos muito nisso. As coisas nesta banda têm acontecido não por pensarmos muito nelas, mas porque elas vão aparecendo e nós vamos agarrando, o caso dos Velvet é um exemplo. E no fundo as coisas têm vindo sempre a acontecer e nós ou pegamos ou não pegamos e avaliamos se é bom para a banda. Sabemos que é difícil isso acontecer e não andamos atrás disso todos os dias, mas se por acaso isso algum dia acontecer vamos tentar pegar numa oportunidade e ver o que acontece.

EF: Considerariam a hipótese de se sediarem noutro país?

S: Eu acho isso um bocado impossível. [risos] É óbvio que impossível é uma palavra muito forte, depende sempre do que nos fosse proposto, mas a verdade é que todos temos cá outras coisas. Não é só a música. Eu saí do trabalho para vir para aqui agora, por exemplo. Os outros a mesma coisa, estão todos a trabalhar. Eu sairia do meu trabalho se tivesse uma boa proposta mas a verdade é que eu não consigo viver da música e há contas para pagar. Por isso…

EF: Pois… e o que é achas desta cultura “festivaleira” que tem estado cada vez mais proeminente? Gostas de ir a festivais? E de tocar?

S: Sim, sim. Gosto de ir a festivais. E tocar ainda mais, porque posso tocar e ver tocar, é tudo num só.

EF: E agora ainda por cima, temos visto um aumento na qualidade e oferta dos cartazes, o surgimento de novos franchises. Consideras isso bom?

S: Acho isso muito bom. Sendo músico, a promoção da música para mim será sempre um aspecto positivo.

EF: E agora há cada vez mais festivais de música portuguesa…

S: Sim, sim. Existe o Bons Sons, e também já fomos confirmados para o Fusing na Figueira da Foz. Nota-se que as pessoas gostam de ir e aderir a esses festivais. É sempre uma boa oportunidade para mostrares a tua música aos outros.

EF: Só mesmo para terminar: dois discos muito aclamados, tocaram Velvet Underground, já tiveram um CCB cheio para vos receber, em breve irão tocar no Primavera Sound em Junho… Já começaram a delinear os próximos passos da banda?

S: Para já, estivemos a ensaiar as músicas que temos. Demos recentemente três concertos no Music Box e ensaiamos todas as músicas menos uma do Chromatic. Estávamos mais focados nos ensaios. Vamos também ter uma coisa ou outra que não posso divulgar, a acontecer em breve… mas o próximo disco, eu por exemplo, já ando a pensar nele. Mas ainda não peguei na guitarra, nem no baixo, por isso ainda não passa da cabeça, porque estou a tentar perceber que vai sair de lá. E os outros também estão a fazer o mesmo.

EF: Então é seguro dizer que podemos aguardar novidades nestes próximos tempos?

S: Bem, pelo menos uma música ou outra vão começar a surgir o mais rapidamente possível. Se as ideias saírem…

*Fotografias por Raquel Dias da Silva