José Cid, com uma tripulação de excelentes músicos, comandou o público da Aula Magna por uma viagem interplanetária embalada ao som do rock sinfónico de 10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte.

Meia hora depois do combinado alinham-se em palco Samuel (bateria), Pepe (baixo), o maestro Carlos Vintém (teclados, sintetizadores e pianos), José Perdigão e a cantora lírica Carmo Godinho (vozes) e ainda Chico Martins (guitarra eléctrica e acústica , às vezes ao mesmo tempo).

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Na plateia uma ansiedade latente. O público, de todas as idades, aguarda ansiosamente ouvir o álbum conceptual de José Cid, bem diferente da vertente mais popular que lhe é por todos conhecida.

O Tio , qual Captain Kirk, anuncia a partida para uma viagem que tem como destino o icónico disco de 1978, 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte mas sem antes passar por outros importantes corpos celestes da década de 1970: uma revisitação a Vida (Sons do Quotidiano) de 1977 e Onde, Quando, Porquê Cantamos Pessoas Vivas, último LP do Quarteto 1111.

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Vida (Sons do Quotidiano) inicia-se com a narração de um parto por cesariana, com os sons claros de uma vida que começa. Na tela que serve de cenário ao concerto surge também projectada a imagem de José Cid na sua meninice. A mensagem é de esperança e reforçada por uma criança que passa pelo palco colhendo as primeiras palmas do público. O tema é dedicado a Mário Martins, “o melhor produtor de sempre“, nas palavras de Cid.

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A viagem interestelar segue entretanto para Onde, Quando, Porquê Cantamos Pessoas Vivas, de 1973, com fabulosa letra de José Jorge Letria. O som é de uma qualidade arrepiante, a vibração de Cid contagiante e ao fim desta música a cheia plateia da Aula Magna está já toda de pé a aplaudir e começa a desenhar-se o caminho épico que o concerto haveria de cumprir.

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Antes do aguardado momento da noite, José Cid convida o público para quatro temas de Vozes do Além, disco sinfónico a gravar em breve e a editar em 2015, com poemas de Natália Correia e Sophia de Mello Breyner, que se centram na questão da reencarnação, da vida post mortem, dos eventuais reencontros no além. O som, ora mais melancólico, ora mais sinfónico, vive muito dos teclados, do coro de vozes e da virtuosa guitarra de Chico.

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E eis que é chegado o momento em que o capitão Cid pergunta:”Estão prontos para a viagem? Aí vai!“.

E fomos. Começa a ser narrada a história do Último Dia na Terra, O Caos e Fuga para o Espaço, com descargas instrumentais cósmicas, vozes por vezes litúrgicas acompanhadas por imagens projectadas das ilustrações de Isabel que acompanham a edição original do vinil com a selo da Orfeu.

Com uma iluminação quente mas que por vezes fazia perder o impacto das imagens projectadas fomos seguindo viagem chegando a Mellotron, o Planeta Fantástico, com a secção rítmica a brilhar.

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Na faixa-título foi a plateia, em transe, que acompanhou Cid, Perdigão e Carmo no refrão profundo projectado no ecrã e entoado várias – demasiadas – vezes pela plateia (“Podes ver 10.000 anos depois no ecrã do radar entre Vénus e Marte um planeta vazio à espera que o descubram onde recomeçar outra civilização“).

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Em A Partir do Zero e Memos começamos a assentar os pés na terra, sem no entanto deixarmos de sentir a transformação causada por aquela experiência cósmica. O mundo já não é o mesmo lugar.

José Cid despede-se desejando uma boa viagem para qualquer que seja a galáxia. O público entoa os “ooooohs” religiosamente e há quem peça para que tudo seja tocado de novo. Apesar da dureza dos ensaios e de uma caganeira que teve durante a semana, confessa Cid, há espaço para repetir O Caos e 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte.

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Aos 72 anos o comandante, seja no prog, seja na pop, revela ainda uma capacidade de execução brilhante e uma voz magnífica. Um verdadeiro viajante no espaço e no tempo que entra na nave onde melhor lhe convém.

Fotos: Bruno Mendes

*Este artigo foi escrito, por opção da autora, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945