No terceiro dia da Festa do Cinema Italiano, continuou a competição, mas também pôde ser visto um documentário na secção Altre Visioni, e um filme humorístico que é dos últimos grandes sucessos cinematográficos do país.

Nós não somos como James Bond (Noi non siamo come James Bond) – Mario Balsamo, Guido Gabrielli [2012] – 8/10

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É a história verídica de dois amigos de longa data, Mario e Guido, sendo que este documentário é realizado pelo primeiro. Eles contam as peripécias que levaram à sua grande amizade, à medida que tentam encontrar solução para um sonho que queriam ter concretizado em 1985, quando fizeram juntos a sua primeira de muitas viagens pelo mundo. Esse sonho era conhecer James Bond, ou melhor dizendo, Sean Connery, o primeiro ator que interpretou a icónica personagem. As alegrias das memórias do passado servem para aliviar as amarguras do presente, e da doença que afeta cada um dos amigos, em 2011. Revivendo os velhos tempos e a rebeldia que construíram durante tantos anos de amizade, em Non siamo come James Bond, Guido e Mario tentam resolver o sonho em conhecer Bond, mas agora, querem  também perceber o que é preciso fazer para se ganhar a imortalidade.

James Bond é o homem sempre disposto a tudo, invencível, destemido e conquistador, e esta dupla, numa cruzada íntima e bem humorada, quer tentar descobrir como a ficção consegue suplantar os problemas da realidade, numa jornada que nos causa algumas dúvidas quanto à sua total veracidade. Mas isso faz parte do jogo desta pequena pérola documental, onde dois homens reais tentam suplantar as durezas do mundo que os rodeia através da imaginação das aventuras do agente 007, e de um filme da sua saga em particular: Ordem para Matar, de 1963.

A relação nem sempre amistosa entre Mario e Guido acaba por ser o ponto de maior destaque do documentário, tal como as diferenças entre os dois amigos, que se acentuam nas situações de maior tensão e na forma de pensar a vida, a morte e o impacto da doença. É este projeto, meio utópico e meio surreal, que lhes dá um entusiasmo novo pela vida, estimulando-os intelectualmente e não se deixando abater pelos problemas. No filme, vemos também as próprias reações deles no que toca àquilo que estão a elaborar. É um filme dentro de um filme, que explora a beleza da ficção, mas dá uma importância especial à realidade, que é muito mais bela que a mais perfeita das ficções cinematográficas.

Consegue ser um exercício construtivo de desmontagem do real e do irreal, uma obra bonita e uma história de lição de vida. O que o espectador aprende com Non siamo come James Bond é que, afinal, os dois amigos estavam enganados em relação a uma coisa: a personagem criada por Ian Fleming pode ser imortal, mas a singular amizade da dupla também fica, desta maneira, para a posteridade. Volta a passar no Festival no dia 18, às 19:30, na Sala 3.

Posso parar quando eu quiser (Smetto Quando Voglio) – Sydney Sibilia [2014] 8/10

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E na noite de sábado foi exibida mais uma hilariante comédia e um dos mais recentes sucessos de bilheteira nos Cinemas italianos. Primeira longa metragem de Sydney Sibilia, Smetto Quando Voglio é uma história sobre traficantes de droga improváveis: jovens geniais licenciados que, como tantos outros em vários países europeus (Portugal, infelizmente, incluído), não vêm nenhuma saída profissional possível, no meio do caos económico que estamos a viver. Este grupo de nerds, nada preparados para as circunstâncias da vida real, fora das bibliotecas e dos livros que as povoam, decide usar os seus dotes cerebrais para as áreas científicas para elaborar uma smart drug nova, que não consta, por não existir até ao momento, na lista de ilegalidades promulgada pelo Ministério da Saúde.

Mais do que uma comédia eficaz e muito bem trabalhada, Smetto Quando Voglio mostra-nos como pode ser tão fácil contornar as leis, e descobrir os grandes buracos e falhas legislativas dos sistemas que detêm o poder nas sociedades. Brincando com o lado dramático da questão (a cada vez menor empregabilidade que se consegue adquirir com o ensino superior feito) através dos geniais diálogos proferidos pelo magnífico leque de atores (numa autêntica “metralhadora” viva de piadas que já não se vê muito desde os tempos das grandes fitas screwball americanas e das comédias de enganos à europeia – que começam a ser cada vez mais escassas), que nos conseguem pôr um sorriso no rosto, sem deixarmos de pensar, contudo, que estamos a lidar com um assunto preocupante.

Os atores são muito engraçados e combinam um timing perfeito entre si, numa trama politicamente incorreta que desperta para o nosso lado mais consciente sobre aquilo que está à nossa volta. Seria bom que uma comédia como esta pudesse levantar questões para a vida real, e dar a uma peça de Cinema como esta o valor de debate que possui e que deve mesmo ser transmitido e discutido.

Pode ser visto como uma espécie de recriação cinematográfica do modelo da série televisiva Breaking Bad às avessas, com um lado fortemente satírico e com o estranho e complexo mundo das smart drugs como mote. Pode parecer um filme simplório, mas a única simplicidade que aqui podemos encontrar não é desagradável, ou descontextualizada. Smetto Quando Voglio é mais um filme que deveria estar nas “outras” salas de Cinema do país: faz-nos pensar no verdadeiro valor das licenciaturas, e na forma como nos esquecemos, por vezes, que nunca um bom conhecimento teórico do mundo é unicamente suficiente para o poder compreender.