Não poderia haver melhor maneira para começar a sétima edição da Festa do Cinema Italiano: Viva a Liberdade é uma genial comédia satírica, sobre política e ambições individuais, e que todos os portugueses devem ver o mais depressa possível.

Viva a Liberdade  (Viva La Libertà)- Roberto Andò [2013]

Parece ser uma história clássica de enganos, mas tem contornos modernos (e que se adequam perfeitamente à realidade portuguesa, e a toda a política no geral): Viva a Liberdade fala-nos de Enrico Oliveri (Toni Servillo), o secretário de estado do principal partido da oposição italiana, que vê a sua popularidade cair a pique a cada nova sondagem que é apresentada pelos media, com as eleições cada vez mais próximas. Por causa disto, torna-se depressivo e, de um momento para o outro, desaparece sem deixar rasto. Para não deitar tudo a perder, a comissão de campanha decide substituir o candidato pelo seu irmão gémeo, Giovanni (também interpretado por Servillo), um filósofo que esteve durante muito tempo num hospital psiquiátrico, e que adora dizer o que lhe vai na alma. A partir daqui, as consequências serão provocadoras… e hilariantes.

Sátira política acutilante que pega em mecanismos narrativos clássicos para refletir os problemas sociais e políticos da atualidade, Viva a Liberdade tem o poder, o seu peso e a falta dele como mote central para uma série de situações escritas de forma inteligente, engraçada e profunda. Foi muito bem salientado, na apresentação do filme, exibido na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, que estamos perante uma espécie de Habemus Papam político. Contudo, não é só ao filme de Nanni Moretti que esta comédia vai buscar inspiração: também se sentem os toques criativos e humorísticos de Bulworth – Candidato em Perigo, a arrasadora crítica de Warren Beatty ao establishment político norte-americano.

É uma obra invulgar que brinca com os protocolos e os exageros formais da política, e a organização do Festival acertou em cheio, ao escolher este como o filme de abertura da sétima edição: numa época em que a instabilidade sociopolítica não pretende parar de crescer, seria bom que todos os portugueses pudessem tomar contacto com este filme… e claro, todos os políticos deste país, e do mundo inteiro, têm muitas lições a aprender com esta comédia autenticamente revolucionária, que não precisa de golpes de estado nem de corrupção do poder para mudar mentalidades: aqui, a Palavra é a maior Arma de todas.

Toni Servillo é genial nesta dupla interpretação, que é talvez uma das melhores do seu currículo, e que reforça em parte os pequenos defeitos do filme (nomeadamente, algumas construções narrativas mais básicas). Inteligente é o argumento e todas as tiradas sarcásticas e metafóricas que nele ouvimos, criando um filme que abala o nosso sentido cívico. Viva a Liberdade deveria ser mais do que um grande filme exibido num grande Festival: é obrigatório que passe já para o circuito comercial.

Nota – 8.5/10

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