O segundo dia da Festa do Cinema Italiano foi marcado por várias surpresas e novas visões cinematográficas, que marcam o panorama artístico atual do país. Salvo é um dos filmes em competição, e Oltre il Guado foi um dos títulos escolhidos para a secção Altre Visioni, que pretende mostrar correntes cinematográficas alternativas e que querem fugir à “norma” do Cinema contemporâneo.

Salvo – Fabio Grassadonia, Antonio Piazza [2013] 7.5/10

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Saiu vencedor na última edição do Festival de Cannes, arrecadando o Grande Prémio da Semana da Crítica. É uma das grandes apostas da 7.ª edição do 8 1/2, este Salvo, da autoria de dois realizadores que começaram recentemente a dar nas vistas no Cinema italiano, e que até hoje, nunca deixaram de trabalhar um com o outro. E no resultado desta parceria, e do talento que une esta dupla, saiu um thriller inteligente e inovador, que abrange muito mais do que apenas os elementos característicos desse género cinematográfico.

Consegue ser, ao mesmo tempo, uma história de gangsters que reflete ainda o grande peso que as organizações criminosas têm no dia a dia de muitas cidades italianas, e uma história de amor improvável que une Salvo, um assassino contratado (Saleh Bakri) e a irmã de uma das suas vítimas (Sara Serraiocco), uma jovem mulher cega que, no momento mais inesperado, recupera a sua visão. Por causa dela, Salvo perde a sua atitude pouco escrupulosa e decide, defendâ-la das garras dos seus chefes mafiosos. É importante não esquecer que ainda podemos ver, num papel mais secundário, o ator Luigi Lo Cascio (o protagonista do maravilhoso épico A Melhor Juventude) numa interpretação brilhante que reflete o medo do cidadão comum em relação aos criminosos que dominam a vida quotidiana.

Aqui começa uma odisseia de tensão e suspense, muito bem construída pelos mais profundos silêncios da lenta narrativa, muito mais violentos do que as próprias sequências físicas que envolvem os conceitos de morte e pancadaria, e que não necessitam de quaisquer efeitos especiais. Sucedem-se acontecimentos fatais, para o rumo que o protagonista decide seguir, e que não necessita de muitas palavras para nos dar a sentir todas as angústias e receios que o preocupam constantemente, e que disfarça através da sua postura rude, distante e ameaçadora, que amedronta qualquer inocente que se cruza com ele.

Sufocante e arrepiante, Salvo tenta sempre desviar-se dos clichés, não querendo dizer aquilo que o espectador está à espera. Tem um par de memoráveis personagens, e um impressionante trabalho de fotografia, que utiliza tons escuros e frios para realçar a trama. Apesar de ter algumas incongruências que quebram o ritmo do filme, não deixa de ser uma peça curiosa que mostra o talento de dois novos realizadores que, daqui para a frente, poderão evoluir e alcançar novos feitos para o Cinema italiano. Faz parte da secção Competitiva, e volta a ser exibido dia 15, terça-feira, às 21:30.

Across the River (Oltre Il Guado) – Lorenzo Bianchini [2012] – 7.5/10

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A hora (23:00) foi a mais apropriada para exibir este filme de terror,  numa sessão que contou com a presença do realizador, que respondeu às mais variadas questões sobre a execução deste Oltre Il Guado. Sendo um dos expoentes máximos do atual Cinema independente que se faz em Itália, Lorenzo Bianchini tornou-se um perito em contar histórias assustadoras ao longo da sua carreira, especializando-se numa visão mais alternativa, mas não menos interessante, que aborda temas recorrentes do género de uma forma inovadora.

Uma história sobre solidão, fantasmas do passado e acontecimentos inexplicáveis (que todo o bom filme de terror tem de possuir), assente em poucos diálogos escritos, e em muita inquietudo cinematográfica. O protagonista é um etólogo naturalista que explora a vida animal dos bosques dos Alpes, utilizando câmaras de vídeo para registar os comportamentos e atitudes de várias espécies, onde se encontram alguns predadores selvagens. Mas de repente, as gravações de um pequeno dispositivo escondido numa raposa levam-no a uma série de mistérios, que nos levam a compreender que, afinal, os verdadeiros predadores não se encontram só no meio da natureza…

As intenções de Lorenzo Bianchini são evidentes, tal como as influências que o levaram a criar esta história (notam-se alguns elementos de The Shinning, de Stanley Kubrick), baseada na vida das pequenas aldeias italianas e no dia a dia das suas populações. Mas o principal objetivo é assustar o espectador com o mais banal instinto da natureza e com o medo humano irracional, que no fundo, acaba por ser também o nosso próprio medo, acompanhado pelas manipulações a que o ser humano pode ser induzido, e que lhe podem custar a vida.

O poder das imagens gravadas e dos mistérios que pretendem revelar dão uma força maior a esta história grotesca, e bem elaborada, sobre uma aldeia perdida do resto do mundo, mas encontrada obsessivamente pelos fantasmas que se aproveitam dos inocentes que lá vivem. E se, ao contrário de Salvo, este filme não se destaca tanto pelas qualidades técnicas, o conteúdo, no entanto, é mais incisivo, e faz o espectador ficar colado à cadeira até aos minutos finais da narrativa. Seguindo os padrões de terror convencionais, a fita consegue ser mais interessante do que passa a imagem criada pelos filmes mais vulgares do género. Oltre Il Guado pode ser visto de novo na Festa do Cinema Italiano já amanhã, domingo, dia 13, às 21 horas.