É já hoje que José Cid fará o impensável: pela primeira vez tocará na íntegra o mal acolhido 10.000 anos depois entre Vénus e Marte, disco editado em 1978 e cujo exemplar vale hoje largas centenas de euros.

15 de maio 1978, Portugal

Depois de um longo meio século de ditadura, o país conhece devagarinho a estabilidade democrática, o FMI vem pela primeira vez resgatar a situação económica do rectângulo e o rock vai entrando devagarinho na casa dos portugueses. Rui Veloso só haveria de editar Ar de Rock com a famosa Chico Fininho, dois anos mais tarde. Mas José Cid, que disse já que “Se o Rui Veloso é o pai do rock português eu sou a mãe“, conhece já uma carreira assinalável com o Quarteto 1111 e com os Green Windows.

Já sozinho compôs um disco que é uma viagem de rock sinfónico espacial, com a colaboração do guitarrista Mike Sergeant, do baterista Ramon Galarza e do baixista Zé Nabo. Os instrumentos, nave espacial para a viagem, foram essencialmente o mellotron (teclado electromecânico), muitos sintetizadores e um bom suporte de guitarras, baixo e bateria.

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10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte

Com o selo da lendária Orfeu, 10.000 anos Depois entre Vénus e Marte, mais do que 39 minutos de música, é uma viagem no tempo e no espaço. Narra a história de um homem e de uma mulher que 10.000 anos depois da auto-destruição da humanidade, regressam à Terra para a repovoar novamente.

É prog rock, ópera rock e space rock. Um disco conceptual cujo tom e letras remetem para um universo pós-apocalíptico e para uma meditação acerca do passado da humanidade e a esperança de uma reconstrução próxima. É, diríamos, tão actual como hoje.

É ainda uma peça de arte: o vinil, com capa gatefold, vinha acompanhado por um livro de 6 páginas, com uma banda desenhada de cores intensas, remetendo o ouvinte também para uma leitura reflexiva da humanidade.

Não vendeu. A crítica olhou-o com desconfiança, o público português, com os ouvidos ainda mal treinados, não o terá compreendido. Foi esquecido.

10.000 anos depois entre vénus e marte

A passagem do milénio

Na elaboração de listas de fim de milénio as revistas americanas Billboard e Q nomeiam 10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte como um dos melhores discos de rock de sempre.

O disco é então reeditado pela Movieplay em formato CD e torna-se um ícone do rock progressivo em Portugal. Em 2004 a editora sul-coreana M2U Records reeditou o disco (em 1994 a americana Art Sublime tinha editado 500 luxuosos exemplares nos Estados Unidos), levando-o assim para outras coordenadas. A procura desenfreada ao vinil original não tem parado e hoje,  no ebay, tem preços a partir dos 325 euros.

11 de abril de 2014, Portugal

Depois de intensos ensaios José Cid pisará o palco da Aula Magna para apresentar ao vivo, pela primeira vez na vida, o disco que o colocou nas bocas do mundo. Em entrevista à RTP diz que isso o fez sentir que tinha de um dia o tocar. Chegou o dia.

Além da totalidade dos sete temas que compõem o registo original, o cantor  interpretará com um conjunto de músicos convidados, também alguns temas do seu próximo registo de rock sinfónico Vozes do Além e um tema do seu primeiro álbum  Onde Quando Como e Porque Cantamos Pessoas Vivas.

http://youtu.be/13s4NdT3lhs

A viagem começa às 22 horas e adivinha-se inesquecível. Os poucos bilhetes ainda disponíveis para a galeria da Aula Magna estão à venda nos locais habituais e custam 25 euros.

No sábado José Cid toca 10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte na Alfândega do Porto.

*Este artigo foi escrito, por opção da autora, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945