Realizar um projeto de conteúdo polémico é uma decisão que acarreta riscos. Se assim é para filmes que retratam violência extrema ou nudez explícita, muito mais será para aqueles que tratam um tema tão delicado quanto a religião. É o caso de Noé (Noah), o mais recente filme do aclamado realizador americano Darren Aronofsky.  Embora este não seja o primeiro filme de temática controversa do realizador (veja-se o morbidamente brilhante Requiem For a Dream),a verdade é que Noé impõe-se como o mais ambicioso trabalho de Aronofsky.

De facto, a sua tarefa não era, de todo, fácil. A adaptação para o grande ecrã da passagem de um dos mais antigos textos sagrados é um projecto que pouco tem de acessível, e muito menos de consensual. A receção do público à sua antestreia foi tudo menos agradável: a desconsideração ao filme por parte de grupos e representantes religiosos revelou-se unânime, fruto da reimaginação da história da Arca de Noé por parte dos seus argumentistas, Aronofsky e Ari Handel. Tudo isto parecia condenar irreversivelmente este filme ao fracasso. No entanto, após a sua visualização, dois pensamentos se instalam na mente do espectador: o primeiro, que este filme destoará da tão bem-sucedida carreira do seu realizador, por ser provavelmente o seu pior trabalho; e o segundo, que Noé é apesar de tudo um bom filme, e que se algum realizador poderia fazer dele tal, esse realizador é Darren Aronofsky.

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Aronofsky e Handel tomam consideráveis liberdades com as passagens bíblicas na sua reinterpretação do mito de Noé. A maior parte delas, para seu benefício, passa pela adequação da história ao tão marcante estilo do realizador, proporcionando-lhe inúmeras oportunidades para inserir na narrativa momentos de elevada paranóia e aflição psicológica. Em vez de ter conversas directas com Deus, Noé é sujeito a uma série de devastadores pesadelos (enviados, não obstante, por influência divina), que pouco a pouco conduzem o protagonista à sua missão de salvar as diferentes espécies do Dilúvio que se aproxima. Para além de enriquecerem o conteúdo da história, momentos como estes dão azo a planos espetaculares, que demonstram a importância da visão futurista de Aronofsky para a globalidade do filme. Apesar disto, algumas modificações prejudicam a experiência geral deste. É o caso dos Anjos Caídos, (que figuram no Antigo Testamento, mas são alheios ao conto da Arca de Noé), que muito embora sirvam o seu propósito temático, acabam por incorporar mais um recurso de filme de ação de Hollywood.

Ao contrário do que se poderia esperar, nada neste filme pode ser legitimamente acusado de corromper a lição bíblica adjacente à história de Noé. Muito pelo contrário, Noé é um filme de forte cariz simbólico, incitando à reflexão sobre múltiplos temas que vão desde a justiça e a autoridade divina até à imperfeição do Homem, a misericórdia e a submissão. Aronofsky não se coloca, no entanto, numa posição de superioridade moral: com a dosagem correcta de ambiguidade, o realizador levanta muitas questões para as quais não oferece resposta, deixando essa tarefa ao cargo do espectador. Em certas ocasiões, por exemplo, as personagens são levadas a interrogar-se sobre a aniquilação da Humanidade, contrapondo o valor da vida humana com a corrupção ética dos descendentes de Adão e Eva. Noutras instâncias, o decorrer dos eventos coloca Noé em complicados dilemas internos, sendo este obrigado confrontar os seus valores morais e o amor à sua família com o dever que Deus lhe incubiu. A humanização da Arca de Noé é o principal recurso do filme, e dela faz Aronofsky verdadeiros milagres.

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Sendo um trabalho exemplar a nível conceptual, Noé não deixa de padecer de algumas falhas no âmbito técnico. Desde já, o seu argumento é demasiado irregular, oscilando entre monólogos impressionantes e falas inadequadas e pouco apelativas. A história do filme, tão alterada em relação à original, beneficiaria de cortes pontuais, principalmente no que diz respeito às prolongadas cenas de batalha, que pesam em demasia num filme cuja mensagem se afasta da esfera bélica. Algumas reinvenções do conto bíblico afiguram-se também um pouco exageradas, tal como certas narrativas paralelas que retiram o foco à sua mensagem. De resto, o contraposto entre protagonistas e antagonistas é aqui bastante bem conseguido, numa elaborada alegoria da oposição entre o sagrado e o profano.

Já as atuações tendem a estar ligeiramente aquém da espetativa, considerando o elenco de peso de que dispõe a longa-metragem. Russell Crowe é irrepreensível no papel de Noé, vivendo com mestria uma personagem que, em constante angústia, está determinado a levar a cabo a sua missão custe o que custar. Anthony Hopkins, como Methuselah, está na excelente forma a que já habituou – competente, incisivo e deslumbrante. Muitas atuações, não obstante, acabam por não passar do mediano, como a de Jennifer Connelly, que interpreta Naameh, a mulher de Noé, ou Ray Winstone, na pele do némesis Tubal-cain. A verdadeira decepção, no entanto, surge com Emma Watson, que aqui está irreconhecível como Ila, protegida da família de Noé. Assumindo um papel de elevada importância para o desencadear da narrativa, Watson deixa aqui uma interpretação vergonhosa, sendo raramente convincente nas diversas cenas emocionais que a sua personagem exige. Um desempenho a esquecer por parte da aclamada atriz, que não diminuiria em muito o mérito deste filme, não fosse tão central a sua posição na história.

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Na sua globalidade, contudo, Noé tem demasiado a seu favor para ser rebaixado à mediocridade. Do que não foi já dito a seu respeito, destaque-se a deslumbrante fotografia, dirigida por Matthew Libatique, que muitos momentos de excelência estética tem a oferecer, e a banda sonora original de Clint Mansell, no geral bastante competente e que confere emoção adicional à já tão intensa longa-metragem. As críticas feitas ao plano religioso do filme parecem infundadas, perdendo o sentido quando confrontadas com a imensa dimensão psicológica e mensagem de Noé. Mesmo sendo porventura o seu menos competente projeto, Darren Aronofsky dá aqui mostras da sua versatilidade e incalculável talento, dando nova vida a uma história que já conta milhares de anos.

Nota Final: 7/10

Ficha Técnica:

Título: Noah

Realizador: Darren Aronofsky

Argumento: Ari Handel, Darren Aronofsky

Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ray Winstone, Emma Watson, Anthony Hopkins

Género: Drama, Acção

Duração: 139 minutos