Lembro-me muito bem da primeira vez que vi um filme do Wes Anderson. Como tantas outras pessoas, a película que me abriu as portas ao fantástico mundo do realizador foi o Fantástico Sr. Raposo que, na altura, se destacou especialmente por ser o primeiro filme do realizador norte-americano a ser nomeado para os Oscars ( e a ser um dos favoritos a vencedor de Melhor Filme de Animação).

Também me recordo de ter apreciado o filme mas não o ter adorado. Para mim era mais um dos filmes nomeados a Oscar que achava um quanto sobrevalorizados. Porém, não há dúvida que considerava o filme, no mínimo, invulgar. Isto não só por todo ele ter sido rodado em stop-motion, técnica que Anderson deixa muito evidente para o espectador, mas por transmitir uma sensação de novidade ao cinema de animação.

Foi a partir da palavra inovação que comecei a estruturar a minha relação com o cinema de Wes Anderson. E a partir daí comecei a compreendê-lo realmente. De tal forma que quando vi Moonrise Kingdom já estava familiarizado com O Fantástico Sr. Raposo e com os restantes filmes do realizador e argumentista.

Fantastic Mr. Fox

Talvez o mais estranho em todos estes filmes seja a simplicidade que os pauta e a autenticidade das personagens que, apenas numa hora e meia, fazem-nos acreditar num que não é nosso, mas que tomamos como se fosse. E nessa mesma hora e meia, o realizador põe-nos a sorrir tão espontânea e inconscientemente, que tomamos o filme como se fizéssemos parte do seu desenvolvimento.

A mais recente obra de Wes Anderson vem provar, na minha opinião, algo que tem sido cada vez mais e mais inédito em Hollywood: um crescimento e progressivo aperfeiçoamento das obras cinematográficas. E tudo isto resulta porque continuamos a adorar todas, desde a primeira à mais recente, porque as personagens e situações em que estão envoltas são autênticas que tomam um lugar na nossa memória e corações.

Dito isto, The Grand Budapest Hotel é, para mim, a melhor película de Wes Anderson até à data. Muito como os vários projectos do realizador e argumentista este facto também se explica por uma razão incrivelmente simples. Ver Wes Anderson a trabalhar é sempre ver algo novo a acontecer. E isso oferece-nos, desde logo, uma sensação de fascínio incomparável a qualquer outra. De facto, The Grand Budapest Hotel prova que a magia que emana tão naturalmente do filme não se deve só ao olhar do realizador que nos é apresentado no ecrã. Na verdade, ela deve-se à experiência inteira que tem muito a ver com a predisposição que temos do filme, quer conheçamos ou não o trabalho do cineasta. Estamos a ver um filme que, estética e estilisticamente, é como nenhum outro no mercado. E isso é suficiente para o tornar especial.

The Grand Budapest Hotel

Tudo começa com a mise en scène peculiar do realizador. A forma como os planos se articulam com as cores exuberantes e as formas originais resultam no concebimento de uma certa ingenuidade das cenas mais sérias e dramáticas e uma certa seriedade nas cenas de maior humor e entusiasmo. Existe um equilíbrio extraordinário a fluir das cenas e, na minha opinião, uma felicidade que parece percorrer toda a história, por mais negra que ela possa vir a ser. Em Darjeeling Limited e nesta nova obra, isto é perfeitamente nítido. Os géneros de thriller e drama são desconstruídos sublimemente  para transmitirem uma mensagem que é essencialmente de esperança e reencontro. E não há maior felicidade nisso.

Outro pormenor interessante sobre a carreira do cineasta norte-americano é que ele tem vindo a escrever todos os argumentos das suas películas. Este facto confere logo uma liberdade imensa a Anderson o que se reflecte muito claramente no seu processo criativo que ganha muito mais qualidade e que se une muito mais facilmente a um estilo visual muito icónico e colorido. As histórias que estes argumentos contam poderão não ser as mais interessantes nem atribuladas, mas os diálogos e o desenvolvimento das personagens tornam-nas em algo verdadeiramente único. E as próprias piadas que são uma importante parte do mundo de Anderson tão curiosas porque, como diz Roman Coppola, co-argumentista de alguns dos projectos que temos mencionado, não nos fazem rir histericamente mas têm um efeito muito mais prolongado que se denota no sorriso de espectador.

Moonrise Kingdom é, por essa razão, quase um reflectir de Wes Anderson sobre o seu próprio trabalho. A forma como é tão marcadamente dotado de uma certa ingenuidade fá-lo parecer um meta-filme. A ingenuidade dos temas e dos personagens criados nos argumentos de Anderson, reúnem-se todas naquelas duas personagens (os aventureiros Sam e Suzy) tão curiosas e simultaneamente conscientes e inconscientes do mundo que as rodeia. Moonrise Kingdom representa  então essa predisposição de ver na inconsciência e na imaginação a entrada para um mundo fantástico que, ainda assim, não deixa de ser o nosso.

Todos estas reflexões levam-nos a concluir que há algo que será sempre interessante neste mundo fantástico de Wes Anderson e isso deve-se especialmente à forma como ele continua a crescer e a modernizar-se, sem por isso deixar de recorrer ao passado para se atualizar. E mesmo que se tenha concepções diferentes sobre o trabalho deste cineasta, ele ensina-nos que já é tão bom amar o cinema pelas surpresas que nos pode oferecer a cada momento.