Este é um daqueles filmes que nos abre o olho. Abre-nos o olho e o que mais tivermos cá dentro: chamem-lhe alma, chamem-lhe aura, chamem-lhe o que quiserem. A certeza é de que Gloria, fora do circuito comercial habitual dos filmes de Hollywood, chega ao fundo através da simplicidade. Porque, na verdade, são as obras de arte – com mais ou menos qualidade – repletas de simplicidade que chegam até à base do nosso sistema sentimental.

Mas quem é Gloria? Uma mulher normal: gosta de música, principalmente de música para dançar. Ouve Donna Summer, esteja triste ou esteja feliz. E, como sabe que a felicidade não existe sem a antítese – a tristeza – não se inibe a sentir o amor, mesmo que este lhe traga mais problemas do que facilidades.

A solidão de Gloria, a protagonista nada típica de classe média alta, é-nos familiar. Ela celebra-a. E fá-lo de forma surpreendente. Esta surpreendente celebração da solidão é, a meu ver, um aspecto transversal do filme marcada por uma banda sonora que, ao mesmo tempo que nos leva para o relaxamento e a felicidade, também nos arrebata com a monotonia, a repetição e a solidão. A música eletrónica dos anos 70/80 é mesmo assim: leva-nos da melancolia à felicidade na mesma batida – um tom que percorre toda a película.

Gloria

Paulina Garcia parece ser a atriz ideal para representar, não só visualmente como a nível de aura pessoal, uma personagem não muito comum no cinema. Aliás, não é por acaso que foi premiada, por exemplo, no Festival de Cinema de Berlim. Garcia dá-nos um registo íntimo do quotidiano de Gloria. É como se a estivéssemos a seguir, segundo a segundo, para todo o lado, para todo o devaneio pessoal, para todo o pensamento que a distingue enquanto ser humano. É uma hidratação constante das várias camadas finas de cada indivíduo.

A este ambiente pseudo-melancólico, junta-se a alegria contagiante de uma atmosfera chilena sempre em ebulição. O Chile não é apenas o cenário de Gloria. A própria cultura chilena está, sem margem para dúvidas, presente em cada pormenor deste filme. Numa sociedade latina povoada por problemas, e por relações sociais fortes, Gloria vê-se desamparada e questiona-se: como reconstruir a vida social? Infeliz ela que teve o “descaramento de desaparecer“. “Eu deixei de existir”, remata. E este acumular de angústia revela-se no fim. Depois de fazer uma walk of shame, de não ter medo da vida sexual depois dos 50, de não ter medo de ser jovem com esta idade, Gloria dá tiro final: um ato de rebeldia que nos revela a necessidade de extrapolar toda e qualquer regra social – valorização do eu no seu auge.

Gloria

Olhar através das lentes para ver melhor a vida.

A realização é desconcertante. Surpreende na forma interessante como, sem mágoa ou dor, filma e mostra as fraquezas desta mãe de família. Contudo, simultaneamente, consegue mostrar os jogos de sedução e a sexualidade entre duas personagens mais velhas e, por isso, menos atrativas fisicamente. Só mostra coragem do realizador em mostrar os defeitos que acabam por ser a luz de uma filmagem e edição cruas, abruptas e bruscas mas tão verdadeiras e concretizadas com uma beleza que nos é impossível ficar indiferentes. O lado menos bonito – esta inexistência de medo de mostrar as rugas – acaba por ser o maior trunfo da fidelização do espetador com o grande ecrã. Sebastián Lelio, o realizador, está de parabéns.

Gloria

Gloria, tal como muitos outros filmes, é sobre a condição humana. É aquilo que mais me fascina, enquanto espetador, porque é o que mais dúvidas causa. Não me dá respostas. Contudo, este filme, apesar de ser sobre um tema recorrente, tem inovação na protagonista que escolhe, no ambiente que respira e no embrulho em que nos é apresentado. Gloria mostra-nos como o dia-a-dia define-nos mais do que pensávamos. Que o dia-a-dia é o nosso pilar e que os problemas que o assombram podem marcar-nos profundamente. Não há heróis nesta história. Há uma Gloria que nos cativa pelo simples olhar, pela ordinária vida que leva, pelos pormenores que nos cativam. Gloria é o nosso espelho, é o nosso meio-termo de vida: os nossos extremos pessoais e aquilo que realmente mostramos.

9/10

Ficha Técnica:

Título Original: Gloria

Realizador: Sebástian Lelio

Argumento: Gonzalo Maza e Sebástian Lelio

Elenco: Paulina Garcia, Antonio Santa Maria, Coca Guazzini, Sergio Hernández.

Género: Comédia, Drama

Duração: 110 minutos