Há quem diga que os laços familiares são os mais puros que existem. Uma família é uma célula complexa, é uma equipa imutável e constante, quer se queira quer não. A afiliação por sangue é algo que transcende a morte e viaja muito além da mesma. Pela família, diz-se que se perdoa tudo. Mas então e quando a nossa família é esta que vemos à nossa frente em palco na Sala Garrett? Será que nós, tal como o retornado Teddy, permaneceríamos tão apáticos e estáticos face às ações e atitudes dos seus irmãos e pai? É estranho pensar nisso…

Mas mais estranho, bizarro e até doentio é este fascinante texto de Harold Pinter, recipiente do Tony de 1967 para Melhor Peça do Ano. O Regresso a Casa é um tumultuoso registo sobre família, relações, crueldade e a guerra dos sexos. E esta encenação de Jorge Silva Melo consegue ser igualmente fria, psicologicamente perturbadora e invulgar. Salvo algumas falhas interpretativas, este é mais um trabalho de mérito a passar pelo TNDMII.

A cortina sobe e entramos dentro de um qualquer vulgar lar inglês num bairro operário do Norte de Londres. No meio de um cenário habilmente montado descansa uma velha poltrona. Nessa poltrona, descansa um gigante da representação. Em cima deste palco vamos conhecê-lo como Max, mas fora dele, chamamos-lhe João Perry. Ao lado do pai está Lenny, o seu insolente filho que se queixa do barulho produzido pelas reminiscências saudosistas do pai. Nesta família, ninguém parece dar-se bem. Desde da relação mórbida entre Max e o seu irmão Sam, até aos sonhos de Joey em ser boxeur profissional que toda a gente na casa parece querer ridicularizar. Um retrato de uma família sui generis onde a mãe já há muito partiu para o Além.

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Mas a crueldade, a frieza e os segundos interesses começam a crescer em espiral aquando a chegada surpresa de Teddy e uma muito contrariada Ruth, sua esposa (aqui representada por uma Maria João Pinho bastante convincente). Este jovem casal vem dos Estados Unidos, onde Teddy leciona Filosofia, para que Ruth possa conhecer a sua família. E que melhor receção se pode querer do que ter o sogro a exclamar “nenhum filho meu trouxe uma puta aqui p’ra casa!“. Poucos atores conseguiriam fazer esta fala soar tão autêntica como o faz João Perry.

Eis então que temos um professor de Filosofia, um velho talhante reformado e viúvo, um velho motorista e tio-avô, um jovem operário aspirante a boxeur, um insolente chulo parasita e no meio, uma bela e jovem, mas traiçoeira mulher que parece ser cobiçada por todos estes homens. Seis personagens dentro de um lar inundado de um ambiente de cortar à faca onde ninguém é realmente talentoso na arte de socializar. Que lindo.

A destacar desta encenação por Jorge Silva Melo é o ambiente francamente mau que se conseguiu instalar em palco. Algo que responde de forma bastante positiva àquilo que o texto de Pinter pedia. Sendo este um espetáculo com um cenário estático, sem música e com poucas personagens, os alicerces acabam por ser exclusivamente os diálogos. Assim, podemos dizer que o segredo para o sucesso da peça está pendente no seu elenco. Infelizmente, é necessário apontar que a prestação destes atores acaba por funcionar a meio gás.

No epicentro de toda esta trama está João Perry, que surge aqui como um patriarca cruel e vivido. Um homem rude, inculto e inconveniente. Um velho cabecilha que aparenta apenas preocupar-se em conseguir agarrar a próxima oportunidade de lucrar, mesmo já não lhe restando muito anos de vida. Temos aqui uma prestação irrepreensível de Perry. Sempre convincente e carismático, e dono de muitas das falas mais emblemáticas do texto.

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Ruben Gomes, surge aqui bastante bidimensional como Teddy: competente, mas pouco mais. Não há virtualmente nada a apontar sobre este professor de Filosofia que, por fim, acaba por ser uma personagem incompetente, que nunca teve a força para fazer erguer a sua voz, apesar de se ter tornado o homem de maior sucesso naquela família. Os momentos derradeiros que levam ao fim da peça mostram mesmo isso: um homem infeliz e derrotado, que não consegue nem sequer cativar a sua mulher.

O mesmo se pode dizer de João Pedro Mamede. A sua personagem é provavelmente a menos vital para o enredo, mas mesmo nas poucas vezes em que intervêm, este Joey parece não conseguir deixar a sua marca. Por outro lado temos Lenny, um chulo irritante que fala num tom monocórdico e sarcástico. Um autêntico vigarista que Elmano Sancho conseguiu trazer para o palco de forma mais ou menos coerente. A seguir, a Max, é esta a personagem que mais altos tem, isto porque, por vezes, parecemos estar precisamente perante um Max mais jovem. Tal pai, tal filho.

Mas este texto não funcionava tão bem se não tivéssemos uma excelente Maria João Pinho a fazer um papel como este. Ruth é uma mulher algo enigmática, que se esconde atrás de uma expressão fria e privada de emoção. E o que esconde não é bom. Esta personagem acaba por ser objeto que dá todo o sentido e crueza a este texto de Harold Pinter. Os instantes finais de Ruth em cena são a verdadeira mensagem que o escritor quer difundir a desfilar em palco. A violência psicológica, os interesses, o ócio, a subjugação de um ser.

No meio disto tudo está Sam (Jorge Silva Melo, o encenador), um homem dócil e simpático, conhecido pelos seus clientes como “o melhor motorista do mundo“. Um eterno solteiro que acaba por se diferenciar muito do resto da sua família por se afastar de interesses sujos e mafiosos. Podemos dizer que esta personagem poderá ser o pequeno rasgo de esperança incluído pelo autor. Afinal ainda existe alguma moralidade nesta casa.

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Em suma, O Regresso a Casa é um espetáculo bizarro com uma mensagem bastante cruel e pouco animadora. É um dos textos mais aclamados e bem conseguidos de Harold Pinter e lar para prestações intocáveis e brilhantes por João Perry e Maria João Pinho. De certa forma, todas estas personagens são detestáveis mas é com gosto que as vemos interagir sob a égide dos diálogos diabólicos aqui presentes. Apesar de alguns desempenhos menos conseguidos, não deixa de ser uma proposta a considerar para ver na Sala Garrett do TNDMII.

Esta coprodução TNDMII/TNSJ/Artistas Unidos estará em exibição até 27 de abril. Quartas, às 19h; Quintas a sábados às 21h e domingos às 16h.