Morte, nudez e dragões: Game of Thrones (A Guerra dos Tronos) está definitivamente de volta.

Depois de dez dolorosos meses de espera, a nova temporada da série mais aguardada do ano chegou finalmente à televisão. É impossível ficar indiferente ao regresso de Tyrion, Daenerys, Arya e todas as outras noventa personagens. É impensável assistir apaticamente à música de abertura, sem a trautear. É inconcebível não estar entusiasmado com as semanas que se seguem. Porque Westeros está de volta às nossas vidas.

O primeiro episódio, intitulado Two Swords, foi originalmente transmitido no domingo à noite, nos Estados Unidos da América, pela HBO; em Portugal, foi para o ar na noite de ontem, no canal Syfy. Se ainda não o viste, volta cá mais tarde.

Aviso: este artigo contém spoilers

De um modo geral, esta season premiere foi semelhante às dos anos anteriores, servindo, sobretudo, para nos contextualizar. Permitiu a introdução e reintrodução de personagens, relembrando-nos do que já aconteceu e do que está para acontecer, como que a mostrar-nos a disposição atual das peças neste complexo jogo de tronos. Precisamente por isso, era expectável que este primeiro episódio fosse como foi: calmo – sem grandes cenas de ação, com exceção dos últimos cinco minutos – e vazio em revelações extraordinárias ou momentos inacreditáveis. Mesmo assim, não deixou de ser uma hora de televisão de qualidade acima da média, como são, aliás, todos os episódios de Game of Thrones. Resumidamente, o capítulo não deslumbra, mas também não desilude.

Passemos, então, a uma análise mais detalhada.

Na primeira cena do episódio, mesmo antes dos créditos iniciais, vimos Tywin Lannister (Charles Dance) a supervisionar a forja de duas novas espadas, usando o aço valiriano da velha arma de Ned Stark (Ice – Gelo). Trata-se do primeiro indicador de que a série está a iniciar uma nova etapa, um novo rumo. Já não há Ned, nem Robb, nem Catelyn. Não há nenhum Stark adulto em quem possamos depositar as nossas esperanças e, por isso, a história será forçosamente diferente a partir daqui. Tal como Cersei (Lena Headey) disse, mais tarde, a Jaime (Nikolaj Coster-Waldau): “everything’s changed” (“tudo mudou”).

Tywin

As aventuras de Tywin na forja da capital.

Foi precisamente Jaime a personagem de maior destaque deste primeiro capítulo. Mesmo depois de tudo aquilo por que passou recentemente, ninguém parece disposto a demonstrar um pouco de compaixão pelo homem. O pai, Tywin, deserdou-o por ele ter recusado a sua proposta de abandonar o cargo de Comandante da Kingsguard (Guarda Real) e voltar a Casterly Rock (Rochedo Casterly), o castelo dos Lannister (pelo menos, ficou com uma das já mencionadas espadas de aço valiriano). A irmã gémea e amante, Cersei, culpou-o por ter estado ausente durante as dificuldades pelas quais passou recentemente, para além de, aparentemente, já não se encontrar tão predisposta para o incesto. O sobrinho (filho, na verdade), Joffrey (Jack Gleeson), escarneceu alegremente dele, aproveitando todas as oportunidades de que dispôs para o relembrar de que agora é maneta (apesar da sua nova e deslumbrante mão de ouro). Até Brienne (Gwendoline Christie) tirou o dia para o pressionar a cumprir o acordo que fez com Catelyn Stark (encontrar e proteger Arya – Maisie Williams – e Sansa  Sophie Turner), censurando-o por estar a faltar à sua palavra. Vida difícil para o Kingslayer (Regicida).

Jaime

Ninguém deu descanso a Jaime neste episódio.

Também em King’s Landing (Porto Real), Brienne teve finalmente a oportunidade de falar a sós com Margaery Tyrell (Natalie Dormer), após interromper a conversa da futura Rainha com a sua avó Olenna (Diana Rigg) sobre colares e gargantilhas. Convém recordar que Margaery já foi esposa de um outro Rei, nomeadamente Renly Baratheon, no decurso da segunda temporada. Contudo, se bem se recordam, Renly foi morto por uma das sombras assassinas de Melisandre, a mando do seu próprio irmão Stannis. Foi precisamente isto que Brienne explicou à jovem Tyrell, como que a tentar garantir que ela não lhe atribua nenhuma responsabilidade pelo sucedido, como muitos ainda fazem. Um destaque rápido apenas para Diana Rigg, que continua a interpretar o seu papel de forma magnífica; qualquer pequena cena em que esteja presente é bem-vinda.

1

Brienne interrompe uma conversa interessantíssima sobre colares.

Outra das personagens que esteve em destaque nesta estreia de temporada foi Tyrion Lannister (Peter Dinklage), como já é hábito. As interações entre o agora Mestre da Moeda e os seus companheiros Bronn (Jerome Flynn) e Pod (Daniel Portman) são sempre uma lufada de ar fresco para a série, tendo em conta o seu teor geralmente cómico e descontraído. Porém, as cenas mais importantes de Tyrion no episódio coincidiram com a introdução dos Martell de Dorne na história. Depois de Stark, Lannister, Tyrell, Tully, Greyjoy, Arryn, Baratheon e Targaryen, chegou a vez de a última grande Família de Westeros se intrometer diretamente na guerra dos tronos. O Príncipe Doran Martell, representante máximo da região de Dorne, foi naturalmente convidado para o casamento real que se avizinha. No entanto, como Tyrion pôde constatar, foi o irmão Oberyn (Pedro Pascal) que veio em seu nome.

2

“Olha para mim enquanto falo contigo, Tyrion.”

E que grande introdução teve Oberyn Martell! Desde logo, proporcionou-nos a primeira cena erótica da temporada (estavam corridos 11 minutos do episódio), durante a qual pudemos perceber que tem uma relação bastante liberal com a sua amante Ellaria Sand (Indira Varma que fez questão de divulgar que não se envergonha com o facto de ser bastarda de nascimento – e ainda que é bissexual, aparentemente. Também não foi preciso esperar muito para o vermos apunhalar violentamente um soldado ao serviço dos Lannister. Para terminar o dia em beleza, ainda deu a entender a Tyrion que a sua visita à capital será tudo menos amigável. Pedro Pascal esteve excelente nas cenas em que foi protagonista, conferindo uma certa arrogância e ferocidade à sua personagem. Foi ainda possível perceber que Oberyn é impulsivo e imprevisível e, por isso, será interessante vê-lo intrometido nas intrigas da capital, sedento de vingança pelo que foi feito à sua irmã Elia anos antes (violada e morta por um dos homens de Tywin Lannister – mais concretamente, Gregor Clegane –, durante a guerra que pôs fim ao domínio dos Targaryen e colocou Robert Baratheon no trono).

3

O triângulo amoroso mais estranho de Westeros.

Ainda na capital, Tyrion e Sansa continuam miseráveis. A jovem Stark não tem motivação nem para comer e o seu marido vê-se incapaz de fazer seja o que for para a animar (a tarefa também é hercúlea, admita-se). Num dos seus passeios solitários pelos jardins de King’s Landing, Sansa dá de caras com Dontos Hollard (Tony Way): o cavaleiro a quem salvou a vida, convencendo Joffrey a torná-lo no novo bobo da corte em vez de o executar, depois de ter chegado bêbado ao torneio de aniversário do próprio Rei. Dontos oferece um colar a Sansa, como forma de agradecimento pelo sucedido. Apesar de parecer uma cena algo desnecessária, convém não nos esquecermos de que, em Game of Thrones, todos os pormenores acabam por se revelar importantes. Esperemos para ver se isso se confirma.

4

Dontos, Sansa e mais um colar.

Por sua vez, Tyrion aparenta ter pouca vontade de satisfazer os desejos da sua amante Shae (Sibel Kekilli), talvez por se sentir culpado pelo facto de agora ser um homem casado. O que é certo é que esta relação começa a tornar-se entediante e é pena que lhe seja dada tanta atenção. Foi interessante, no entanto, ver que uma das aias de Sansa correu a informar Cersei do encontro dos dois. Anteveem-se problemas para ambos.

Abandonemos, finalmente, King’s Landing e debrucemo-nos agora sobre os Wildlings (Povo Livre) e a Night’s Watch (Patrulha da Noite). Como pudemos ver, Ygritte (Rose Leslie) e Tormund (Kristofer Hivju) fizeram um novo amigo: Styr (Yuri Kolokolnikov), o Magnar – líder  dos Thenn (um dos vários povos que vivem nas terras longínquas e desconhecidas a norte da Muralha  The Wall), que veio reforçar os números dos Wildlings do lado sul. Através de Styr, fomos também apresentados ao elemento hediondo que faltava à série: o canibalismo. No que diz respeito à nova personagem, deu a ideia de poder vir a ser uma boa adição ao grupo de Ygritte e companhia, tendo em conta os seus hábitos e modos marcadamente selvagens. Adicionalmente, o ator russo Yuri Kolokolnikov parece ter sido uma escolha acertada para o papel.

5

O prato favorito de Styr: braço de soldado da Night’s Watch.

Entretanto, na Muralha, Jon Snow (Kit Harington) tomou finalmente conhecimento da morte do seu meio-irmão Robb. Apesar de não ter sido dada muita importância à sua reação a tão importante notícia, o curto diálogo com Sam (John Bradley) foi emotivo e, em última instância, acabou por ser suficiente. Mais importante foi a reunião de Jon com os três homens que, neste momento, se encontram à frente da Night’s Watch, dada a recente morte do Comandante Jeor Mormont: Maester Aemon (Peter Vaughan), Janos Slynt (Dominic Carter) e Alliser Thorne (Owen Teale). Os dois últimos estiveram ausentes durante uma e duas temporadas, respetivamente; contudo, bastaram uns instantes para voltarem a demonstrar que são absolutamente desprezíveis. Felizmente, o velho Maester Aemon conseguiu ver que havia verdade no relato de Jon Snow. Apesar do ataque iminente dos Wildlings à Muralha, adivinham-se também problemas internos para o filho bastardo de Ned Stark.

6

O cego foi o único que quis ver.

Falemos agora de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) e das suas aventuras pelo distante continente de Essos. Apesar do óbvio e justificado fascínio que muitos nutrem por ela (tenho de admitir que me incluo neste grupo), as cenas da khaleesi foram, porventura, as menos interessantes do episódio – com a exceção óbvia dos dragões, que estão maiores e, consequentemente, mais impressionantes (evidenciam um trabalho de CGI – Imagens Geradas por Computador – absolutamente incrível). No entanto, Daenerys aparenta começar a perder algum controlo sobre os seus ‘filhos’, o que se pode vir a revelar preocupante.

8

Dany assiste ao banquete dos seus temíveis lagartos.

As restantes aparições do grupo libertador de escravos pareceram servir, sobretudo, para nos fazer perceber que houve um recast do ator que interpretou Daario Naharis na temporada passada: Ed Skrein foi substituído por Michiel Huisman. Trocas significativas como esta são sempre de evitar; contudo, o novo ator parece, de facto, mais adequado ao papel do que o seu antecessor. Saliente-se ainda que os líderes de Meereen (a próxima cidade esclavagista que iremos ver) executaram 163 escravos, dispondo um por cada milha de distância entre a sua cidade e o local onde a Mãe dos Dragões se encontra de momento, naquilo que é uma clara provocação a Daenerys.

7

É preciso ser corajoso para provocar assim a Mãe dos Dragões.

Por fim, falemos da melhor cena da season premiere, da qual Arya Stark e Sandor Clegane (Rory McCann) foram protagonistas. Esta dupla está a tornar-se cada vez mais interessante de acompanhar e, por isso, esperemos que a viagem até ao castelo de Lysa Arryn – a tia desvairada de Arya, com quem Clegane pretende deixar a jovem Stark, a troco de dinheiro – ainda seja longa. Maisie Williams é absolutamente extraordinária e melhora como atriz de episódio para episódio. Por sua vez, Rory McCann também tem vindo a encarnar a sua personagem de forma impecável, respeitando a sua evolução: quantos fãs da série não se perguntarão se Sandor Clegane é, de facto, tão mau como parecia ser na primeira temporada?

9

O que é que acontece se eu te trespassar a garganta com esta espada afiada? Oops.

Os cinco minutos finais do episódio foram uma pequena amostra do que está para vir nesta temporada. O combate que se desencadeou no interior da estalagem foi tenso e exemplarmente coreografado, até porque é sempre espetacular ver Sandor Clegane arrumar um oponente apenas com um soco. Como seria de esperar, as mortes dos homens ao serviço dos Lannister foram sangrentas e impressionantes. Entre elas, inclui-se a de Polliver – que na segunda temporada tinha roubado a espada de Arya (Needle – Agulha) –, que foi morto num ato de pura vingança pela jovem Stark. A expressão de Arya é, simultaneamente, assustadora e satisfatória; já era tempo de vermos um Stark sair vitorioso de uma batalha (por mais pequena e insignificante que seja).

Notas Finais do Episódio:

Melhor cena – Luta na estalagem (Arya, Sandor, Polliver e os restantes soldados ao serviço dos Lannister)

Melhor ator / atriz – Nikolaj Coster-Waldau (Jaime Lannister)

Melhor fala – “Tell your father I am here, and tell him the Lannisters aren’t the only ones who pay their debts.” / “Diz ao teu pai que eu estou aqui, e diz-lhe que os Lannister não são os únicos que pagam as suas dívidas.” (Oberyn Martell)

Momento de ‘comic relief‘ (alívio cómico) – (Jaime) “You never let Pycelle near you.” (Cersei) “You think I’d let that old lecher put his hands on me? He smells like a dead cat.” (Jaime) “I’m not sure I’ve ever smelled a dead cat.” (Cersei) “Well, they smell like Pycelle.” / (Jaime) “Tu nunca deixas que o Pycelle se aproxime de ti.” (Cersei) “Pensas que deixaria que aquele velho devasso me pusesse as mãos? Ele cheira a gato morto.” (Jaime) “Não estou certo de já ter cheirado algum gato morto.” (Cersei) “Bem, cheiram a Pycelle.”

Novos locais adicionados ao genérico inicialMeereen e Dreadfort (Forte do Pavor)

Outras personagens presentes no episódio não indicadas na review – Lorde Blackmont (Daniel Rabin); Olyvar (Will Tudor); Marei (Josephine Gillan); Jorah Mormont (Iain Glen); Barristan Selmy (Ian McElhinney); Missandei (Nathalie Emmanuel); Grey Worm – Verme Cinzento – (Jacob Anderson); Qyburn (Anton Lesser); Othell Yarwyck (Brian Fortune); Meryn Trant (Ian Beattie)

Nota – 8/10

. . .

Terminada a review, resta-nos esperar por um novo capítulo, que chega já no próximo domingo. E o mais certo é que seja ainda melhor.

Se tiverem curiosidade, vejam a preview do segundo episódio, divulgada pela HBO: