Incrível. Incrível o fenómeno que foram os Silence 4 nos anos 90, incrível a vitória da vocalista Sofia Lisboa contra uma leucemia e que serviu de mote para esta série de concertos de reunião da banda, incrível a multidão que esgotou o Meo Arena (David Fonseca falou em 18 mil pessoas), e incríveis as quase três horas de concerto.

Muitas estrelas internacionais não viram um Meo Arena tão cheio como os Silence 4 o receberam no passado sábado. Entre trintões que passaram a sua adolescência ao som das canções do quarteto de Leiria, casais cujas histórias de amor têm certamente Silence 4 na sua banda sonora, e adolescentes que nunca tinham tido a oportunidade de ver a banda ao vivo nos seus tempos áureos de atividade, muitos foram os que preencheram o antigo Pavilhão Atlântico. O calor abrasador que se fazia sentir na plateia confirma os números que David Fonseca estimou.

Pouco passava da hora marcada quando se apagaram as luzes e nos ecrãs gigantes surgiu um pequeno vídeo com recortes de imprensa sobre os Silence 4, de 1995, quando a banda se formou e “ainda muitos dos presentes certamente não eram nascidos”, até à atualidade. “We’re so glad you’re here with us today” foi a mensagem inicial da banda para o público. O sentimento foi totalmente recíproco.

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Os fãs não esconderam a emoção ao ver David Fonseca, Sofia Lisboa, Rui Costa, Tozé Pedrosa e ainda Paulo Pereira subir ao palco (ainda) pouco artilhado do Meo Arena, 13 anos após o fim da banda. O concerto abriu com A little respect, tema original dos Erasure, mas que os Silence 4 adotaram e fizeram rodar nas rádios vezes sem conta. Para começar em grande, seguiram-se de rajada as poderosíssimas Old Letters e Dying Young, cantadas de cor e salteado por todo o público. Tempo depois para as boas-vindas e para Borrow, um dos maiores sucessos da banda. Assim como a canção “se tornou muito maior do que esperaríamos”, também o peixe dourado que acompanhava a banda na sua sala de ensaios se tornou gigante no lado esquerdo do palco. Excelente analogia.

Apesar das críticas que sempre receberam por cantarem em inglês, os Silence 4 possuem alguns temas em português, um deles escrito por Sérgio Godinho, o gigante da música portuguesa que marcou presença para cantar Sextos Sentidos com a banda, protagonizando um dos melhores momentos da noite.

O palco foi ficando cada vez mais preenchido com elementos decorativos em grande escala que ilustravam as canções, como foi o caso do carro que desceu do tecto para My friends (“…and my friends, and my car, and my friends…”) canção incendiária com David Fonseca a cantar ao megafone, movimentando-se por todo o palco, fazendo lembrar os seus concertos a solo.

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Depois da explosão de energia que foi My Friends, e de dançarmos até não poder mais, foi tempo para acalmar os ânimos e descansar ao som da lindíssima balada To Give. A cada tema que passava iam sendo cada vez mais as lágrimas de nostalgia a ser disfarçadas, e todos íamos ficando cada vez mais deliciados com a dedicação dos músicos (quase que parecíamos transportados de volta para os anos 90) mas, sobretudo, com a garra e a voz maravilhosa de Sofia Lisboa (provavelmente, uma das melhores vozes femininas que Portugal já teve).

Angel Song, uma das canções mais conhecidas do quarteto de Leiria e, provavelmente, das que mais recordações guarda, foi outro dos pontos altos do espetáculo e dos momentos mais emocionantes da noite. “Pensei que nunca mais voltaria a cantá-la”, confessou Sofia, falando da sua luta contra a leucemia. Felizmente, pôde não só cantá-la como receber uma ovação tremenda após uma interpretação magnífica. Para secar as lágrimas, seguiu-se Empty Happy Song, que rapidamente fez subir o volume da sala lisboeta.

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O cenário fica completo com um farol imponente que guiou temas como Where are you? e outro dos temas em português, Eu não sei dizer, cantado olhos nos olhos entre David e Sofia.

“Há pouco o David dizia-me ao ouvido: Nós ainda vamos partir isto tudo!”, confessou Sofia. A promessa cumpriu-se ao som de Only Pain is Real, outro dos grandes clássicos da banda. Sleepwalking Convict foi o último tema antes da primeira saída de palco, e as suas cordas finais prolongaram-se, iluminadas pela lua no pano de fundo do palco, até a banda surgir no centro do Meo Arena.

Rodeados de público, os Silence 4 representaram neste espaço a sua antiga sala de ensaios, pequena e com uma “luz fluorescente horrível”, onde tocavam de frente uns para os outros. O momento mais emocionante da noite foi sem dúvida quando Sofia agradeceu à sua irmã – sua salvadora e dadora de medula óssea – dedicando-lhe o tema Invincible, dos Muse, tema que a própria irmã lhe mostrou para que não baixasse os braços face à doença. No final, a irmã de Sofia, que estaria “algures a esconder-se debaixo da cadeira”, deslocou-se ao palco para abraçar a cantora,  deixando todos os presentes arrepiados e de lágrima no canto do olho.

Foi difícil recuperar desta explosão emocional, mas ainda havia muita história a percorrer. Nesta que foi a fase mais intimista do espetáculo, com os smartphones no ar a substituir os já antiquados isqueiros, ouviram-se em versões acústicas algumas pérolas como Self Sufficient ou Silence Becomes It (tema que dá nome ao disco de estreia, mas que ficou de fora do mesmo). A despedida do “palco central” deu-se com Goodbye tomorrow, tema que mostrou as capacidades vocais de Sofia a fazer “tão bem de bateria”.

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Regressando rapidamente ao palco principal, houve ainda tempo para alguns clássicos que ainda não tinham sido ouvidos, tais como Search me not ou a potente Breeders. Aproximando-nos a passos largos para o final do concerto, subiram ao palco alguns voluntários e representantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro para receber o donativo de 30 mil euros dado pelos Silence 4, através das receitas dos espectáculos, e para apelar a uma causa tão nobre como a luta face às doenças oncológicas. Afinal de contas, Sofia Lisboa é um exemplo vivo de que vale a pena acreditar e lutar até ao fim.

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Para terminar em beleza, repetiram-se os principais hits Borrow (cantado a plenos pulmões por todo o Meo Arena), My Friends, e A Little Respect, acabando da mesma forma que começou esta noite mágica.
Por fim, a última saída de palco e um rápido regresso para Angel Song. “Só temos dois discos, não se importam que repitamos mais uma?”. Obviamente que ninguém se importou. O concerto acabou de forma arrepiante, com toda a gente a cantar o refrão em coro e a capella.

Estas quase três horas de concerto foram não só uma viagem no tempo incrível, como uma autêntica “montanha russa de emoções”. As histórias que as canções de Silence 4 nos contam, as nossas histórias das quais nos lembramos ao ouvi-las e o exemplo de vida de Sofia não deixaram ninguém indiferente. Afinal de contas, tudo está bem quando acaba bem. Até sempre!

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Fotografias por Inês Delgado