“A autoridade é a verdade.” É  esta a frase que fica na cabeça quando saímos deste espetáculo violento da autoria de Miguel Graça, dramaturgo formado pela Universidade Nova de Lisboa, e encenado pelo já experiente Carlos Avillez.

A peça pretende descrever um futuro recente onde “as personagens fossem vítimas de si próprias, incapazes de comunicação, esmagadas por uma autoridade autocrática e omnipresente”. De facto, esta peça torna-se um murro no estômago. Somos atingidos por descrições profundamente gráficas de horrores praticados um pouco por todo o mundo. Porque, para o autor, “a maior arma é a palavra” e mesmo sem haver sangue falso a escorrer, estas descrições parecem-nos tão próximas e tão reais que, ao ouvi-las, tornamo-nos reféns da nossa imaginação. E os atores fazem um bom trabalho aproximando-nos de algo que pode parecer tão longínquo ao Homem comum.

Saí de um teatro que acabou de arder. Tenho um peso enorme na consciência por fazer parte desta sociedade, deste futuro, deste mundo, desta gente. Gente que faz estas coisas. Que rasga o que é certo e errado e transforma tudo em algo quase ilegível. O conceito de Homem é verdadeiramente destruído por Miguel Graça na sua peça e a sua autoridade transforma-se na verdade.

Ao ver ICTUS realizamo-nos do mundo que nos envolve. De como ele poderá ser frio. Opaco. Sem emoções aparentes. E onde toda gente é marioneta e marionetista. E onde um general nos comanda. Um general sem nome nem entidade. Um general apenas preocupado em controlar. Um general que não se lembra de outra coisa ter sido. Um general que não é líder mas lidera. Um general que não se esconde mas é oculto. Um general que não sabe o que é amar ou que é o amor. Um general inumanamente humano. Este general é brilhantemente interpretado por Fernando Luís.

E o início desta peça de Miguel Graça é o que de pior se pode fazer com a essência humana. É criar a esperança para arrasá-la novamente. Ao coagir um Soldado ao suicídio o General prova a sua autoridade sem tocar com um dedo no outro. A sua autoridade é a verdade. A única verdade que estas personagens conhecem.

1897926_724769454241129_41971589_n

Durante toda a peça somos bombardeados com simbologia cristã. Uma metáfora de Miguel Graça para retratar um futuro. O início do Cristianismo. O início da bíblia. Tudo é inserido de forma criteriosa no contexto da peça. Contexto esse que é inexistente, uma vez que dentro daquele mundo perdemos a noção de tempo e espaço. Apenas nos restam os retratos de violência.

A descrição pormenorizada de atos horrendos serve como forma de chocar o público para que ele perceba a realidade em que vivemos. Deixando que a imaginação voe exatamente em direção ao acontecimento de uma forma que não tem retorno. Podíamos estar a assistir a um homem que mimica violar uma criança e nunca nos parecer tão real como quando o general nos conta o que faria ao filho do soldado. Esta é uma nova forma de fazer teatro.

O cenário e os figurinos estão muito bem executados, como aliás Fernando Alvarez já nos habituou. Tudo nos parece austero e algo violento. À esquerda existem três cruzes, elas dão a carga simbólica da morte de cristo. Em todo o cenário poucas ou nenhumas cores para além do branco e preto existem. À direita já quase fora de cena temos uma mesa com um texto, esta é a mesa do Autor (Pedro Caeiro), que até certo ponto apenas se senta observando.

O teatro está coberto de preto e branco e as descrições continuam. Meia hora depois de começar a peça, estou preso à cadeira, enojado com o desenrolar da peça que não tem um tempo ou ordem definidos claramente definidos. Terá a vida. Passamos pela história de um Cão, de um Caçador, de uma Puta. E no final quero sair. Quero ir para fora do teatro vomitar o que de humano ainda existe dentro de mim. Esta peça brilhantemente encenada por Carlos Avillez pretende de facto mudar visões. A meu ver, ela pretende expulsar o público do Paraíso. Expulsá-lo deste mundo idealizado e  pô-lo a pensar.

10153252_723749694343105_1571494054_n

ICTUS de Miguel Graça em cena no Teatro Experimental de Cascais até 27 de abril.

Texto de David Filipe Fernandes