O Armazém F recebeu ontem em Lisboa os ingleses TOY, que se estrearam em nome próprio no nosso país para apresentar o seu mais recente disco, Join the Dots

Dissemos a alguns amigos que íamos ao Armazém F, antiga sala TMN ao Vivo, ver os TOY. Entre alguns gerou-se uma gargalhada. “O Toy?”. “Não, os TOY! Uns putos ingleses de rock psicadélico, muita bons.

É verdade que é quase impossível não se fazer esta piada, mas os TOY – formados em Brighton por Tom DougallMaxim BarronCharlie Salvidge, Dominic O’Dair e a sua namorada a teclista Alejandra Diez – também não são apenas um conjunto de ingleses a fazer rock psicadélico. Juntam-lhe pós-punk, um quê de glam e letras fantasmagóricas q.b. que lhe têm valido a elogiosa comparação a uns The Horrors e muito boas críticas do jornalismo especializado.

Depois da passagem pelo nosso país no festival Super Bock Super Rock e no Vodafone Paredes de Coura estrearam-se ontem a solo num concerto que teve na primeira parte os portugueses Keep Razors Sharp, que de guitarras afiadas deram um concerto quente e promissor no Armazém F.

Foi à hora marcada que os TOY se alinharam na frente do palco para hora e meia a rasgar. Sem projeção de imagens, o que nestes casos é sempre uma pena, mas iluminados por luzes quentes que na maioria das vezes deixavam apenas antever vultos, esconderam-se por detrás dos instrumentos e dos longos cabelos, exorcizando fantasmas antigos que parecem cantar a cada tema.

Foi com Conductor, faixa de abertura de Join the Dots, que nos chegou nos fins de 2013, que começou a descarga de psicadelia que de faixa em faixa, quase sem respirar, saltitou entre os temas deste disco e do homónimo lançado em 2012. 

De parcas palavras, com sinceros agradecimentos mas uma timidez nítida, a banda ofereceu-nos Colours Running Out (com a menos bem conseguida voz de Tom demasiado alta), passou pela quimérica Too Far Gone To Know e Dead & Gone que arrecadou o primeiro grande aplauso da noite.

You Won’t Be The Same e Endlessly, de Join The Dots, sucederam-se sem cerimónias, por vezes tão rápidas que pareciam asfixiar, dando a vez a uma Kopter suja como se quer e muito apreciada pelo morno público da quente sala do Armazém F, já sem cerveja.

TOY

Em As We Turn, as segundas vozes do baixista Panda, em conjunto com os teclados intensos da espanhola Alejandra iniciaram uma espécie de segunda parte do concerto em que a banda pareceu ficar mais à vontade e o público mais envolvido. Deu lugar a Left Myself Behind, o promissor e arrebatador single que lançou os TOY e os pôs nos dedos da crítica.

A sequência “o amor é fodido” fez-se com as intensas It’s Been So Long e Fall Out of Love e a melódica Heart Skips a Beat, num regresso ao disco homónimo.

Para o fim, mais descarga de guitarras com as incríveis Motoring e Join the Dots, dramatizada por Tom de rosto fechado dentro das mãos, intensamente tocada com a banda unida e em plena sintonia (o que nem sempre sucedeu) e o público, muito jovem nas primeiras filas, bem mais velho lá atrás, bastante envolvido nos riffs, distorção e convulsões da banda.

Não foi um concerto que nos tenha arrebatado como o do Vodafone Paredes de Coura pois pareceu faltar-lhe pausas para respirar, uma qualidade de som mais apurada, uma densidade mais profunda, mas sem dúvida que os TOY são uma das novas bandas inglesas que deixarão nome. E bandas que não fazem encore, há que amá-las.

Foto: Everything Is New