Tenho pena de começar este texto com um cliché, mas não há volta a dar: Cícero e Portugal estão envolvidos num caso amoroso. A paixão é séria, assolapada, e na passada quinta-feira à noite no Musicbox foi possível ver que a coisa está para durar, num concerto maravilhoso que levou o brasileiro a desfilar alguns dos seus tesouros na sala lisboeta, perante uma plateia rendida.

Foi com Fuga n.º 3 da Rua Nestor e Capim-Limão, ambas coladinhas tal como em Sábado (2013), e Vagalumes Cegos, retirada da colheita de Canções de Apartamento (2011), que arrancou a noite no Musicbox, cerca de meia hora depois das anunciadas 22h30. No palco, a acompanhar Cícero estavam, para além dos brasileiros companheiros de estrada do cantor Bruno Giorgi (baixo) e Bruno Schulz (teclas), os portugueses Fred (dos Buraka Som Sistema, na bateria) e Alexandre Bernardo (dos Laia, na guitarra), numa parceria luso-atlântica desenhada para dar vida aos shows em solo nacional.

Seguiram-se no alinhamento Fuga nº 4 e João e o Pé de Feijão, e com este início deu para vislumbrar qual o plano de acção do brasileiro para esta noite: baralhar livremente canções dos seus dois discos e arrancar com isso uma avalanche de embevecidos suspiros à audiência que enchia o Musicbox para o ver.

Mas o primeiro grande “estrondo” da noite deu-se com Açúcar ou Adoçante, canção sofrida do LP de estreia do artista, que pôs toda a plateia a cantar em uníssono num coro devoto cada verso saído deste tratado para corações partidos. As luzes da noite, predominantemente “azuis fim de tarde”, tom que enfeita a capa de Sábado e as suas peças melancólicas, complementaram na perfeição a tónica depressiva que as letras de Cícero transmitem aos ouvintes, em claro contraste com o sorriso deliciado que o brasileiro ia mostrando ao público entre canções.

Porta, Retrato, Zelo (pedida de emprestado ao compatriota Wado, que actuou com Cícero e Momo no Vodafone Mexefest do ano passado no concerto do “Brazil d’agora”) e Tempo de Pipa, atiradas de rajada perante um público à beira das lágrimas (ou se calhar éramos só nós), demonstraram bem a versatilidade do cancioneiro do músico, que tanto vai das canções calmas e singelas, acompanhadas de acordeão e “xilofones”, aos libertadores rasgos de uma distorção repleta de angústia. É com este misto de mpb reverente aos clássicos Buarque e Veloso e de indie rock com um certo travo anglo-saxónico que Cícero trilha o seu caminho, e, aproveitamos nós para dizer, o vai fazendo de forma perfeita.

Pra Animar o Bar e Pelo Interfone abrandaram o ritmo do concerto, mas não fizeram o mesmo com o bater dos nossos corações. Cícero, comunicativo q.b., fingiu alguma reticência em tocar duas canções “calminhas” de seguida, mas a reacção efusiva do público (ainda assim não tão efusiva quanto a dos brasileiros, brincou o músico) não deu margem para dúvidas: o cantautor tinha a plateia na mão e podia atirar-lhe o que quisesse que esta de bom grado o aceitaria.

Reservadas para o fim do alinhamento estavam Laiá Laiá, Ponto Cego e Asa Delta, nova trindade de diamantes em forma de canção. Ainda a meio de uma autêntica sessão de improviso que se estabeleceu no fim da última peça (e que demonstrou bem a química entre os músicos, especialmente surpreendente e digna de elogios quando pensamos que esta é uma ensemble feita apenas para estes concertos) Cícero abandonou o palco, despedindo-se do público debaixo de uma chuva de aplausos.

Faltava, no entanto, um último brinde, e depois de uma prolongada ovação veio o já expectável encore. Regressados ao palco, Cícero e companhia prendaram a sala com Frevo Por Acaso, última canção de Sábado, que fechou com chave de ouro um concerto memorável que, tal como todos os grandes concertos, deixou em todos uma fome de mais mas não deixou ninguém desapontado. Só resta acender uma velinha e esperar que não demore muito para que Cícero volte a agraciar-nos com a sua presença em terras lusas; nós e os nossos corações partidos cá o esperamos.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.