O Festival Cinéma du Réel, em Paris, terminou no passado Domingo. Continuamos a análise sobre os últimos dias de cobertura.

Si J’Existe Je Ne Suis Pas Un Autre (2014) – Olivier Dury, Marie-Violaine Brincard

É já um clássico da atenção cinematográfica o retrato, quer ficcional quer documental, da realidade da sala de aula. Atenção mais que justificada, pelo facto de esta concentrar um grupo de pessoas representativo de diversos estratos e diferentes experiências sociais, tendo esta questão especial relevo em França, pela própria estrutura populacional que está na base da identidade nacional.

É essa realidade multi-cultural da escola que constitui o cenário de Si J’existe, acompanhando estudantes de 20 anos de um subúrbio de Paris na tentativa de terminar o secundário. Funciona, aqui, a escola como factor fulcral de reintegração de indivíduos que não cumpriram – por razões que não nos são apresentadas, pois isso seria mudar o foco desejado sobre a acção actual da escola para algo exterior a ela – o rumo tradicional da vida de um estudante.

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Um dos principais pontos de interesse do filme é a forma como nos mostra a diferente formulação, pensada de modo a atender às circunstâncias específicas dos casos presentes, do sistema escolar: as aulas de educação física, matemática e outras têm um formato bastante diferente dos tradicionais cânones de educação. Um dos aspectos mais relevantes dessa natureza muito pouco ortodoxa de ensino é o da completa autonomia que é dada aos alunos, traduzindo-se isto na saída de livre vontade dos alunos das aulas e a ausência de um exercício de autoridade forte por parte dos professores. É palpável a tentativa de diminuição do sufoco institucional, sendo a conversa de Sofiane com o professor um óptimo exemplo desse facto.

Assistimos, também, à tentativa de integração dos alunos através de exercícios artísticos, nomeadamente, a peça de teatro que escrevem e ensaiam. Esta, constituída pela enunciação da personalidade individual (subsumida ao tema “o meu planeta ideal”) aplicada a um conceito geral, de união – qual democracia directa – demonstram precisamente a humanização pretendida deste concreto sistema de ensino, na tentativa de reabilitar os jovens que acolhe.

Chegado o fim do filme, porém, não deixamos de sentir toda a obra algo inconsequente, na forma como lida com estes pressupostos: deixa-nos contemplar vários momentos, mas não aprofunda a potencial textura humana que deveria ser seu objecto, nem é explicitado se a tal reintegração procurada foi atingida, sequer.

Texto redigido por: André Guerreiro

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945