Festival Cinéma du Réel, em Paris, terminou no passado Domingo. A concluir a cobertura do evento fica a análise ao filme premiado Metáfora ou A Tristeza Virada do Avesso, de Catarina Vasconcelos.

Metáfora ou A Tristeza Virada do Avesso (2014) – Catarina Vasconcelos

Nem sempre o encapsular de uma realidade que se desenrola no presente constitui matéria-prima única do documentário. Por vezes, o objecto de um documentário recai apenas na transposição de variados processos mentais para uma existência física: funcionando a memória como captação fílmica; a propriedade selectiva da memória como uma espécie de montagem orgânica do que relevamos; fotos e vídeos antigos como arquivo documental. Com toda esta actividade interior, com as suas subliminares analogias cinematográficas, temos a possibilidade de simular uma experiência que nos afecta activamente, ainda que não a tenhamos vivido.

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E é precisamente isto que Catarina Vasconcelos faz no seu filme, na procura de “virar a tristeza do avesso” – recria, reorganiza e invoca memórias de um tempo que não o seu, na medida em que este molda o seu presente. Esta arqueologia sentimental, qual nostalgia da possibilidade, acontece pelo recordar da morte da mãe, mais de 10 anos passados sobre a data. É através da correspondência com o irmão, funcionando como discurso directo com a audiência, que vamos conhecendo esta história familiar e seus protagonistas. Conhecemos-los através das imagens e de descrições de pequenas histórias, nunca estes directamente interpelando a câmara, como se todos estivessem no mesmo plano de existência: a mãe vive tanto nas cartas e na memória como qualquer outro membro vivo da família. O mesmo poderá ser dito em relação ao 25 de Abril para uma geração que não a viveu, que ainda sentindo os seus efeitos, sofre o necessário processo de catarse entre a realidade que nunca viveu e a actual realidade que não teve opção de construir. Catarina e o seu irmão são, mais do que metaforicamente, “efeitos” de Abril, visto que foi este que permitiu que os seus pais se conhecessem.

É entre o formato Super 8 e o digital que se materializa o filme, com belíssimas composições imagéticas, dotando-o uma atmosfera nostálgica, em tons quentes.

Já no final do filme, somos apresentados à metáfora que o título do filme anunciava, representada por um elefante de papel. Catarina Vasconcelos deslizando o elephant in the room para fora de plano, retirando o elemento tabu ao passado (mas não o seu esquecimento, sendo que os elefantes são animais com memória prodigiosa), anuncia o fim da catarse.

Metáfora ou A Tristeza Virada Do Avesso ganhou o Prémio Internacional de Curtas-Metragens no Festival Cinéma Du Réel. Para consulta dos restantes palmarés: http://www.cinemadureel.org/en.

Texto redigido por: André Guerreiro

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945