O Festival Cinéma du Réel, em Paris, terminou no passado Domingo. Deixamos-te aqui um olhar sobre os últimos dias de cobertura.

Late At Night: Voices Of Ordinary Madness (2013) – Xiaolu Guo

“You’re on Earth. There’s no cure for that”. É com esta citação de Beckett, de inexorável fatalismo existencial, que o filme se inicia, precisando o tom negro (embora tristemente realista) que irá pautar toda a sua restante duração. A citação referida anuncia-nos um imaginário de vitimização, e é precisamente nessa condição que nos é apresentada a quase totalidade de indivíduos: não vítimas do estar vivo neste planeta per se, mas da construção social humana que o controla – o capitalismo.

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São quase dez testemunhos de um heterogéneo grupo de residentes do East End londrino que, através do relato de diferentes experiências, formam um puzzle da realidade moderna.

Um mendigo ganês a explicar como o Reino Unido destruiu a sua saúde e sanidade; um auto-intitulado hustler a criticar a acção policial; um ex-prisioneiro contando como foi diagnosticado como esquizofrénico por ter atacado o psicólogo da prisão, quando estava só “fucking angry” – e outros exemplos da racionalização institucional de problemas reais, a ordinary madness mencionada no título do filme.

Entrecruzando estes vox pop de quase pornográfica realidade, surgem imagens de um falso programa noticioso, que se vai desmultiplicando em vários ecrãs, à medida que o filme avança. Alternando entre notícias fúteis e outras de cariz político à escala internacional, este irreal programa (contraposto, como já dissemos, com o discurso directo das vítimas do sistema) demonstra quão fortemente distanciada do sofrimento quotidiano está a realidade mediatizada. É nestes termos, e com algum experimentalismo formal, que temos o cariz ensaístico do filme: através da análise de amostras de um microcosmos de existência, consolida a tese sobre uma realidade superior, não exclusiva do East End londrino, mas de qualquer centro urbano moderno.

Texto redigido por: André Guerreiro

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945