A primeira leitura de um autor é a nossa primeira impressão sobre a sua escrita, a sua capacidade de contar histórias e de nos cativar com elas. A Desumanização foi a minha primeira experiência com Valter Hugo Mãe, o homem que não gosta de usar letras maiúsculas e não obedece a regras de pontuação, mas que põe toda a sua alma no que escreve. Mais do que um romance, é uma ode. À vida para lá da dor, da tristeza, da fuga, da morte. E à escrita.

Halla vive algures nos fiordes islandeses, num sítio anónimo, indiferente, onde as pessoas nem sempre são o que parecem e no qual tudo parece morrer aos poucos. Na primeira pessoa, Halla revela-nos o que fica depois da morte da irmã gémea, Sigridur: a dor, a solidão e o desencantamento. Seguimos os seus pensamentos e sentimentos, identificando-nos aos poucos, sendo progressivamente assombrados pela voz de uma menina de apenas doze anos.

Sigridur era a sonhadora, a que acreditava em contos de fadas, e ao mesmo tempo a mais perspicaz a distinguir o certo e o errado. Halla parece cometer todos os erros e é criticada, afastada e condenada, quase, por os cometer, embora seja apenas uma criança à procura de algo para agarrar quando todo o seu mundo parece desabar. Vê-se ao espelho e vê a irmã, não mais a viva, mas a que resta dela em si. E em vez de se sentir Halla, sente-se uma imitação, um simulacro de Sigridur: é “a menos morta”, mas sente-se mais morta que a morta – a que devia ter morrido.

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Como se lêssemos um diário privado e dolorosamente pessoal, assistimos à dor de uma criança, que dói ainda mais do que a dor da morte em si mesma, na sua tentativa de seguir em frente. “Desde que a outra pequena morreu que esta só vai morrendo também”. Valter Hugo Mãe disse uma vez, em entrevista, que o isolamento e a solidão daquela terra a tornavam não habitável, não própria para humanos. Neste sítio onde parece que é preciso deixar de se ser humano para se conseguir sobreviver, é só isso que Halla quer. Sobreviver. Mesmo que para isso tenha de assistir e abraçar a desumanização.

O romance divide-se em três partes, mas não tem propriamente um início, um meio e um fim. São quase três inícios de algo, três meios, três fins. A morte está sempre presente, sempre “exagerada”, comandando a desumanização das personagens, da própria história. Primeiro Halla sem Sigridur, depois Halla desacreditada pela sociedade e pela família, depois ainda Halla a desacreditar o próprio mundo que conhece. A evolução é o crescimento da menina, a sua consciencialização do inevitável, a sua vontade louca de fugir a algo de que não se consegue fugir: A vida? A morte?

Li-o no avião, no metro, em salas de espera ou em casa, e as sensações repetem-se: uma lágrima a espreitar pelo canto do olho, um sorriso com a alegria das pequenas coisas, a absorção na escrita que só os grandes génios conseguem concretizar. Valter Hugo Mãe constrói tudo: a história, as personagens, todo o ambiente que as rodeia; a sua escrita invulgar e muito própria que é tudo menos casual e que transmite uma sensibilidade enorme. Entre o filosófico e o surrealista, oferece-nos um livro estranhamente belo e identitário, que apesar de desumano não abandona em nada a espiritualidade.

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A frieza da Islândia enquanto país acima de nórdico é espelhada na frieza desta “homenagem esquisita” ao país, como o próprio autor a descreve no final. E se é frio e choca e dói, é também masoquista: dá uma comichão que queremos coçar até fazer sangue se for preciso. Porque aí sentimos tudo, toda a delicadeza, toda a perfeição. O contraste é tamanho que não sabemos bem até onde queremos ir, mas na verdade não conseguimos deixar de o ler com o maior prazer de sempre.

A crueldade ensarilha-se com a beleza desta criação, descrita como “plástica” por nos fazer ver tanto somente com as letras. Halla sobe à “criança plantada” para ver melhor a sua terra e nós subimos ao coração do autor para melhor compreendermos a sua dor pela morte do irmão Casimiro, sabendo apenas que não vamos compreender nada, porque há coisas que não têm compreensão possível para além da sua própria experiência. Daí que cada leitura deste A Desumanização seja uma experiência inigualável e da qual cada um retirará o que a sua própria sensibilidade permitir criar.

9/10