Como é que eu vou fazer isto? abriu portas para o final de um fim-de-semana no CCB particularmente dedicado à dança. Pouco depois das 21h o auditório estava já cheio e as expetativas, após a atuação, no dia anterior, de Paulo Ribeiro, mais do que no topo.  

Leonor Keil, intérprete regular da Companhia Paulo Ribeiro, tomou as rédeas a um palco vazio concedendo-lhe vida com a interpretação de Como é que vou fazer isto? e Bits and Pieces, das coreógrafas Tânia Carvalho e Olga Roriz, respetivamente.  

As luzes baixaram e o silêncio imperou: um curto e divertido jogo de luzes fez-se exclamar nas margens de um palco ainda inocupado. De calças e camisola cor-de-rosa, a bailarina, num salto trapalhão e sorridente entrou em palco, fazendo-se notar por um pequeno nariz preto e acompanhar por uma bela e inquietante Sonata para piano em Dó Maior, de Mozart.

Um corpo saltitante, expressivo, maleável e desconjugado brincou sobre um chão que parecia não ter fim, fazendo sorrir desde avós a netos. Numa procura constante de acertar passo, a bailarina tornou-se fonte de expressão, diversão e curiosidade para um público já estimulado. No entanto, súbitos cortes de todos os componentes de um mini-circo já estabelecido revelaram um palco escuro, onde apenas uma penetrante e quente luz vermelha recaiu sobre Keil, que se comportou que nem selvagem, numa atitude enraizada e orgânica, assumindo-se presa e predadora através de movimentos calculados e simultaneamente selváticos. Ao ser defrontada com a ideia de ameaça exterior, de descontrolo daquilo que provém de fora, de um desconhecido, a bailarina transformou-se num leque de movimentos animalescos, em jogos de reconhecimento de uma nova pele, de um diferente ser.

O regresso da Sonata transportou, por diversas vezes, a bailarina ao mundo anterior onde cores e melodias ritmadas marcaram passadas concisas e animadas por entre dinâmicas de equilíbrio, flexibilidade e elevação.

No entanto,  um prelúdio de  Bach marcou uma segunda parte coreográfica: após cair e ofegantemente desfalecer em palco, a bailarina despiu-se, fazendo-se apenas cobrir por um básico fato preto. Uma dimensão introspetiva ocupou todo o auditório e, fazendo-se iluminar de diferentes prismas, Keil assumiu-se num movimento permanente marcado e ritmado, que pouco depois se desfragmentou e esmoreceu.

A única luz da sala encontrou lugar num largo círculo no centro do palco. A bailarina, de corpo teso mas desconsolado, colocou-se à margem do iluminado e em torno deste se movimentou, agoniou, inquietou e receou, numa contração e observação constante. No final, com o cessar da música, Leonor Keil passou pela luz e exibiu um singelo e divertido salto, que automaticamente remeteu para o personagem inicial, que, no fim de contas, não se perdeu nem apagou.

Após longos aplausos e elogios, o público abandonou a sala para um intervalo que se revelou curto mas repleto de murmúrios agradados pelo espetáculo. No momento de regresso ao auditório, Leonor Keil encontrava-se já em palco para a estreia de Bits and Pieces, uma criação que resultou do encontro da bailarina com a coreógrafa Olga Roriz.

A plateia rapidamente se mostrou atenta: o palco reunia diversos elementos cénicos que a bailarina estava, desde logo, a organizar. Duas malas de viagem, uma pequena poltrona, uma caixa redonda e alguns pares de sapatos de senhora. Após calçar umas meias de liga, saltos altos e um simples vestido preto, a intérprete vangloriou-se palco fora, através de passadas cruzadas que, com o tempo, se foram tornando descompensadas e arrastadas. Após procurar conforto na poltrona, elimina tudo o que vestiu e calçou e reduz-se a si, aninhando-se numa unidade indissolúvel.

 Seguiu-se uma quase meia hora em que, como a coreógrafa precisou, ‘’Leonor mergulha nas suas memórias enquanto eu traço o percurso da sua viagem. Armadilhadas de tudo o que vivemos e despidas do saber uma da outra vamos por fim acertar o passo por instantes. E quiçá, descobrir que nunca nos separamos.’’

Os inúmeros elementos dispostos em palco serviram de fonte de exploração por parte de Leonor que, ao fazer-se acompanhar por sonoridades muito ricas na sua diversidade, percorreu longos e pesados caminhos de memórias que a perseguiram e envolveram, sempre guiada por um mapa de relação, envolvimento e comoção muito característico da coreógrafa que se aliou a um intenso reconhecimento e exploração físico e psicológico.

Ao sentar-se novamente na poltrona, já com um outro vestido, a bailarina maquilhou-se, soltou o cabelo e em movimentos descompensados, repletos de um calor que a alma não deixou esconder, lançou-se inúmeras vezes para um largo monte de roupa no chão, regressando imediata e sedentamente à cadeira, como se estes dois polos a atraíssem sem margens de fuga. Nela irrompeu um desesperado, soluçante e abandonado choro que revelou medos e receios indefiníveis.

Uma melodia reconfortante logo a conduz a si, a um espaço de introspeção e cuidado consigo mesma numa tentativa de se abraçar, tocar, compreender e acolher nuns braços que são os seus. Através de sucessivas mudanças de roupa e caracterizações, Keil assumiu peles distintas, comportamentos diversos e recordações marcantes: um jogo constante de níveis e desníveis, de apropriação de um corpo ora sedutor ora perdido, de uma atitude ora desolada ora enérgica e positiva. Movimentos doentios, habitados por sonhos e paranóias fundiram-se num envolvimento demasiado empírico para se conseguir alcançar em palavras.

A procura da libertação, do alcance da luz, a respiração acesa, ainda que por vezes calma, o constante recolher e oferecer, o alongamento até à mais ínfima partícula muscular de um corpo feito de expressão culminou num final que, tal como toda a coreografia, se deixou abrir a um público e, acima de tudo, à intérprete, que se manteve de pé, num indeterminado olhar para algo superior.

Largos aplausos trouxeram Olga Roriz a palco, que, em extrema cumplicidade com a intérprete, recebeu um público deslumbrado. Dois dias que se fizeram preencher, no Centro Cultural de Belém, por três diferentes coreografias e interpretações numa abordagem muito particular do eu, do outro e de um meio envolvente que tanto impacto causa numa alma em vida. E assim se faz juz àquela que é, por mérito próprio, a maior Arte do Corpo.