Mac DeMarco é um canadiano já familiar a todas as pessoas que estão minimamente atentas ao que se passa no panorama musical actual, mas o músico de 23-quase-24 anos ainda vai tirando frutos do rótulo de “revelação” que lhe foi consagrado em 2012. DeMarco parece levar tudo isto – em 2011 estava a alcatroar estradas e a servir de cobaia farmacêutica, em 2012 esgotava salas em Inglaterra – com uma naturalidade genuína, de quem realmente não quer saber (o que não quer dizer que não o desfrute), acrescentando ao confirmado virtuosismo musical um charme discreto de legitimidade e genuidade que, inflamado neste Salad Days, vai continuando a cativar novos fãs.

DeMarco faz lembrar os tolos das peças de Shakespeare ou os parvos dos autos de Gil Vicente, cuja tolice amável acabava por desvendar uma sapiência nuclear: despe-se em palco, faz coisas impróprias com baquetas, lança singles falsos cujo tema principal é genitália feminina – ao mesmo tempo que parece escrever manuais de auto-ajuda para jovens adultos nas suas letras (Blue Boy) e compõe das melhores linhas de guitarra que se podem encontrar actualmente (basta ouvir o gancho de Goodbye Weekend). Há muita honestidade escondida no estilo tonto de Mac DeMarco e isso sobressai em Salad Days, que assume um carácter mais melancólico que Rock and Roll Night Club e 2. A jovialidade é a mesma, mas a sobriedade, pelo menos musical, é mais vincada.

Mac_DeMarco_Salad_Days

Passing Out Pieces foi a primeira canção conhecida deste novo álbum. Anticlimática para alguns, intrigante para outros, começou a achar-se que talvez DeMarco fosse trocar a sua guitarra de retalhos pelos sintetizadores. Não aconteceu, de todo. Mas, e curiosamente, aquela que é unanimemente declarada como a melhor música do álbum (ou que DeMarco já fez, como diz Tyler, The Creator), Chamber of Reflection, constrói-se só com duas linhas de teclado (tirando a bateria) que lembram o dream pop dos Beach House e ainda passam por piscar o olho ao pessoal do psych. Com efeito, Salad Days está mais produzido que 2 e são as canções que se desviam do som comum do canadiano que, de alguma maneira, impedem que nos fartemos da fórmula que fez a sua fama. DeMarco constrói um repertório muito sólido de canções jizz jazz, como ele lhes chama, baseada nos seus riffs longos e soltos – a sua habilidade é subtil, mas como compositor (Let Her Go e Treat Her Better, para além da supracitada Goodbye Weekend), hoje ele está inigualável.

Liricamente, imperam, como já é hábito, os “take it slowly“, “don’t worry”, “go easy“, enfim, o epicurismo feel good temperado a cigarros Viceroy. Distingue-se dos trabalhos anteriores por um cariz menos dissidente e mais fatalista (“As I’m getting older, (…)/ rolling through life, to roll over and die / (…) acting like my life’s already over“), um miúdo que está nos seus salad days (livre e idiomaticamente traduzido para “na flor da idade“) e que parece estar incerto sobre o que se está a passar (“watching my life, passing right in front of my eyes / hell of a story, oh, is it boring?“). Depois da exaustão que foi a promoção do seu primeiro álbum, DeMarco deve ter-se sentido quase crucificado – ““I’m passing out pieces of me, / don’t you know nothing comes free?“. De qualquer maneira, e interpretações à parte, não temos nada com isso: “so don’t go telling me how this boy should be leaving his own life / sometimes rough but generally speaking I’m fine“.

DeMarco dá-nos mais um trabalho coeso, com boas surpresas e boas canções à Mac DeMarco, vindas directamente da sua natureza degenerada. De negativo, notam-se apenas alguns exageros de produção em Passing Out Pieces e de duração em Let My Baby Stay, que não precisava de durar quatro minutos. Para finalizar, o outro Johnny’s Odyssey é a deixa ideal para terminar este álbum com um iris wipe e o Mac a piscar-nos o olho enquanto se lê “that’s all folks!“. Analisemos o quanto quisermos, Mac DeMarco vai continuar a encantar-nos enquanto deixarmos.

Nota final: 7.5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945