Sexta-feira, a Alfândega do Porto recebeu pela segunda vez os criadores do Portugal Fashion. Desta vez, para além dos desfiles principais, era também possível assistir aos desfiles do Bloom, uma plataforma especialmente desenhada para novos criadores portugueses. 

O dia abriu com um desfile principal dos criadores Susana Bettencourt e Estelita Mendonça. A primeira foi buscar a sua inspiração às pedras e à sua formação, numa linha muito próxima ao tema desta edição do Portugal Fashion (“Organic”). As cores escolhidas eram, por isso, muito naturais: pretos, cinzentos, brancos e azuis, estampados angularmente de modo a lembrar os recalques das rochas. As lãs continuam a ter um papel de destaque nesta coleção, mas surgem aliadas a outros materiais.

Fonte: Vogue Portugal

Mendonça apresentou uma coleção de menswear inspirada no vácuo. “Nagarjuna” parte da ideia de que “o vazio é o expoente máximo de possibilidades e opções”, que permite ao indivíduo emancipar-se de um mundo homogéneo. Este vazio é criado mediante a utilização de volumes exagerados reunidos com silhuetas retas e texturas surpreendentes e através da modelação do plástico e de tecidos tecnológicos a quente. Destaque para o conjunto de casacos apresentados, que elevaram a coleção a outro nível.

Fonte: Vogue Portugal

Seguiu-se o primeiro desfile do Bloom. O espaço de ar industrial não parecia o mesmo, decorado com vasos e vasos de diferentes tipos de plantas. Do tecto suspendiam holofotes, e no meio das plantas podíamos ver lâmpadas de forma cilíndrica que permitiam a criação de interessantes efeitos de luz.

Carla Pontes apresentou “Leaf”, um projeto que mostra o seu “processo de germinação, o momento em que tudo começa a florescer e de onde nascem as curvas de cada peça”. As folhas ganham dimensão humana, com volumes de corpos e mangas arredondados, sobreposições finas de “pétalas” e pormenores nos decotes. Os tons claros das carnes cruas foram aliados às fazendas de lã, ao algodão e às malhas. Surge ainda um estampado que procura lembrar a sobreposição de troncos.

Fonte: Vogue Portugal

Katty Xiomara trouxe duas coleções à passerelle principal. A primeira foi uma coleção cápsula, “Peanuts Played by Katty Xiomara”, inspirada nas personagens de Peanuts e nos brinquedos de infância, essencialmente nostálgica, aliando o look vintage a clássicos desportivos. Os modelos desfilaram em grupos, e os coordenados eram para todas as idades e para os dois sexos.

Fonte: Vogue Portugal

Seguiu-se “Infographic”, uma coleção inspirada no ambiente urbano. Pudemos ver tanto assimetrias como recortes lineares, aliadas a materiais de textura leve, como sedas e rendas. As cores básicas, como o branco, o preto, o azul escuro e o caramelo contrastavam com o amarelo-torrado e o vermelho carmim. O estampado era uma reminiscência da informação gráfica, dos mapas. Uma coleção muito feminina e urbana, que “se pode adaptar a uma mulher que vive na cidade e que pode vestir algo diferente para o trabalho”, afirmou Katty em entrevista ao Espalha-Factos, “embora eu não acredite muito na criação de rótulos e num “tipo de mulher” predefinido para a coleção”. Destaque para os quatro vestidos compridos com rachas, esvoaçantes e muito femininos, e ainda para a música divertida e animada que se fez soar.

Fonte: Vogue Portugal

Diogo Miranda apresentou uma coleção que reflete a sua identidade, composta pela sua “herança e processo de aprendizagem”. Inspirada na silhueta delicada e feminina dos anos 50 combinada com a mulher polivalente da atualidade, a coleção apresentava silhuetas evasé, bainhas após os joelhos, luvas e silhuetas de vespa marcadas pelos cintos. Tecidos estruturados reuniam-se a tecidos mais leves em formas amplas. Tons mais sóbrios, cinzentos, azuis e pretos, aliavam-se a dourados, cinzentos, vermelhos e rosas. Uma coleção para uma mulheres “que se destacam com facilidade e naturalidade”.

Fotografias de Juliana Pereira

O segundo desfile do Bloom foi o menswear de Mafalda Fonseca. ”W for Waste, uma visão sombria e deturpada, causada por todos os detritos provenientes de um pesado ambiente industrial”, representados pela poluição visual que envolve os modelos. Os tons mais brilhantes e até refletores representam a iluminação e a transformação como resposta à indústria. Os materiais usados nesta coleção mais sporty foram materiais técnicos, reconstruídos e alterados.

Fonte: Vogue Portugal

TM Collection by Teresa Martins foi inspirada em Portugal, “reinterpretado numa visão contemporânea, global mas eternamente romântica”. O desfile principal foi acompanhado por música ao vivo, uma banda e uma cantora que percorria teatralmente a passerelle e que quase interagia com as modelos. Os estampados e bordados imitavam a filigrana, a ourivesaria e outros motivos de origem nacional, em tecidos confortáveis, como algodões, lãs, sedas e jerseys. As peças apresentavam um corte simples, solto, embora algumas silhuetas fossem mais justas e estruturadas. A paleta de cores era vasta, com dourados e prateados a enaltecer os tons mais escuros. Uma coleção que “poderá ser vestida por mulheres no mundo inteiro e todos os dias”. No fim do desfile, houve ainda uma atuação de um grupo de folclore nacional, que animou e surpreendeu o público.

Fotografia de Juliana Pereira

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Fotografia de Joana Santos Leite

Era a vez de Carlos Couto apresentar a sua coleção, a última da noite no espaço Bloom. “Ecdysis”, inspirado na metamorfose das serpentes, apresenta matérias nobres: peles gravadas como pele de cobra, cetim de seda estruturado e sarjas brutas com efeito luminescente. Os cortes assimétricos e os tons negros aliados a cinzentos e dourados completavam o lado mais gráfico da coleção. Esta coleção é uma metáfora não só para o designer enquanto sujeito criador, mas também para a mulher, “que se regenera ao modernizar progressivamente o seu visual”.

Fonte: Vogue Portugal

A noite foi fechada por “Ad Naturam” de Fátima Lopes. A designer procurou inspiração na “Natureza como proteção” para as formas, materiais e cores. A mulher é protegida por um casulo, na forma de peças de forma arredondada que protegem a silhueta. As peças são estruturadas, sólidas e rígidas e apresentam novos volumes, que protegem a feminilidade. Os tons terra e nude aliam-se a azuis, pretos e verdes em materiais fortes como a lã, a caxemira e o tartan, que cortam a transparência da musseline e do voile. “A mulher transforma-se numa criatura sublimada dentro de uma carcaça de segurança”.

Fotografias de Juliana Pereira